Radares com IA aplicam uma multa a cada 19 minutos em SP
Câmeras na chegada a São Paulo identificaram quase 75 infrações por dia em apenas um mês
A fiscalização com inteligência artificial deixou definitivamente a fase experimental nas rodovias de São Paulo. Em apenas um mês, duas câmeras instaladas nos km 17 e 18 da Rodovia Raposo Tavares ajudaram a aplicar 2.316 multas a motoristas que entravam na capital paulista. O balanço considera as autuações emitidas entre 3 de agosto e 3 de setembro.
O resultado chama atenção não apenas pelo volume, equivalente a quase 75 multas por dia, mas pelo tipo de comportamento encontrado. Nenhuma das autuações foi por excesso de velocidade. As câmeras foram responsáveis por revelar o que acontece dentro dos veículos, identificando motoristas e passageiros sem cinto de segurança, além de condutores utilizando o telefone celular ou fones de ouvido.
Os dados são da Polícia Militar Rodoviária apurados pela Folha de S.Paulo. Eles representam o primeiro balanço efetivo dos equipamentos desde o começo da fiscalização no trecho, depois de meses de testes e integração entre a Ecovias Raposo Castello e as autoridades responsáveis pelas autuações.
Radares com IA começam a operar no Rodoanel em São Paulo
Fiscalização saiu da fase de testes
As câmeras da Raposo Tavares foram instaladas em março e, inicialmente, utilizadas apenas para calibrar o sistema. Naquela etapa, mais de mil possíveis infrações foram identificadas em somente 72 horas, mas os registros ainda não geravam multas. O cenário mudou em 3 de agosto, quando as imagens começaram a ser encaminhadas oficialmente à Polícia Militar Rodoviária.
O Motor1.com Brasil já havia mostrado que a Raposo seria uma das primeiras rodovias paulistas a adotar esse modelo de fiscalização. Diferentemente dos radares convencionais, os equipamentos não estão concentrados apenas na velocidade. O objetivo é alcançar condutas que antes dependiam quase exclusivamente da observação presencial de um agente.
O primeiro mês mostra a dimensão dessa mudança. Das 2.316 multas aplicadas, 1.386 foram motivadas pela falta do cinto de segurança, o equivalente a 59,84% do total. Em 779 casos, o próprio motorista estava sem o equipamento. As demais 607 autuações envolveram passageiros desprotegidos.
Falta de cinto é principal infração capturada por radares com IA (Renovias)
Falta de cinto ainda é o principal problema
Embora o uso do celular costume receber maior atenção nas campanhas de segurança, foi a falta do cinto que dominou o levantamento. Praticamente seis em cada dez multas emitidas com auxílio das câmeras estavam relacionadas ao equipamento de retenção, obrigatório para todos os ocupantes, inclusive aqueles sentados no banco traseiro.
Pelo Código de Trânsito Brasileiro, dirigir sem usar o cinto ou permitir que um passageiro viaje desprotegido é uma infração grave. A multa é de R$ 195,23 e acrescenta cinco pontos à CNH. Ainda que a imagem mostre um passageiro sem o dispositivo, a penalidade é registrada no prontuário do condutor.
O número reforça uma realidade já observada em outros pontos monitorados por inteligência artificial. Quando a SPMAR testou câmeras semelhantes nos trechos Sul e Leste do Rodoanel Mário Covas, quase 80% das 4.879 irregularidades encontradas envolviam motoristas ou passageiros sem cinto. O levantamento publicado anteriormente pelo Motor1 Brasil também colocou o celular em segundo lugar.
Flagrantes dos novos radares com IA @Arteris ViaPaulista
Celular responde por 40% das multas
Na Raposo Tavares, 930 multas foram relacionadas ao telefone celular ou ao uso de fones de ouvido, participação de 40,16% no balanço. Os registros mostram que 579 motoristas manuseavam o aparelho e outros 256 dirigiam com o telefone nas mãos. Houve ainda 94 autuações classificadas como utilização do celular e uma pelo uso de fones.
Essa separação importa porque o enquadramento e o valor da penalidade podem mudar. Segurar ou manusear o telefone durante a condução é uma infração gravíssima, com multa de R$ 293,47 e sete pontos na CNH. Já dirigir utilizando fones conectados a aparelho sonoro ou telefone é infração média, punida com R$ 130,16 e quatro pontos.
As câmeras ampliam especialmente a fiscalização de quem mexe no telefone abaixo da linha dos vidros, comportamento difícil de perceber a partir de uma viatura ou de um ponto fixo ao lado da pista. Com imagens em alta definição, o interior do veículo passa a fazer parte da área monitorada mesmo quando o carro está em movimento.
Radares com IA estão ganhando o Brasil
Câmera registra, mas decisão é humana
Apesar do uso da inteligência artificial, não é o algoritmo que aplica a multa. O software analisa as imagens e separa registros que apresentam características compatíveis com determinadas infrações. Esse material é encaminhado à autoridade de trânsito, responsável por confirmar ou descartar o possível flagrante.
A Ecovias Raposo Castello opera os equipamentos, mas não tem poder para autuar. A decisão cabe à Polícia Militar Rodoviária, que verifica se a imagem permite identificar com segurança a falta do cinto ou o uso irregular do telefone. Somente após essa avaliação humana o registro se transforma em multa.
Essa etapa é necessária porque reflexos no para-brisa, partes do corpo encobertas, roupas escuras ou a posição dos ocupantes podem dificultar a interpretação. A inteligência artificial funciona como uma ferramenta de triagem e amplia a capacidade de fiscalização, mas não substitui a análise da autoridade competente.
Crianças podem aparecer, mas IA tem limitações
A qualidade das câmeras permite visualizar pequenos detalhes dentro da cabine, inclusive durante a noite. Isso significa que outras irregularidades podem aparecer nas imagens, como uma criança transportada sem cadeirinha ou assento de elevação. Porém, o sistema instalado atualmente na Raposo Tavares não foi configurado para reconhecer automaticamente esse tipo de infração.
Segundo a Ecovias, a tecnologia também ainda não identifica sozinha pedestres na pista, objetos sobre a rodovia ou veículos parados. Essas limitações podem ser reduzidas em futuras atualizações, à medida que o software seja treinado para reconhecer novas situações e a infraestrutura de monitoramento seja ampliada.
Na prática, o foco desta primeira etapa permanece sobre duas condutas específicas: falta de cinto e utilização do celular. O balanço do primeiro mês indica que, mesmo com um campo de atuação ainda restrito, apenas duas câmeras já são capazes de produzir um volume expressivo de registros.
Flagrantes dos novos radares com IA @Arteris ViaPaulista
Castello Branco entra na próxima fase
O próximo passo será ampliar a fiscalização na própria Raposo Tavares e levar o sistema à Rodovia Castello Branco. A Ecovias já confirmou a instalação de equipamentos em pontos considerados críticos, mas ainda não divulgou quando as imagens começarão a ser utilizadas para aplicação de multas.
Na Castello Branco, estão previstos novos pontos de monitoramento nos km 27 e 30, em Barueri, e no km 39, em Santana de Parnaíba. A Artesp também registrou a implantação de um sistema de câmeras entre os km 16,1 e 42,88 da rodovia, abrangendo cidades como Osasco, Barueri, Itapevi, Jandira e Santana de Parnaíba.
A expansão mostra que os radares paulistas estão assumindo uma função muito mais ampla do que apenas medir a velocidade. Com a inteligência artificial, hábitos praticados dentro dos veículos e antes difíceis de fiscalizar passam a deixar provas em alta resolução. O primeiro balanço da Raposo Tavares mostra que muitos motoristas ainda não perceberam essa mudança.
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