Hyundai ensina seus carros a dirigir com os perrengues do trânsito
Nova inteligência artificial transforma em aprendizado os imprevistos da vida real
Carros autônomos já dominam rodovias vazias e cenários previsíveis. Problema é quando surge o trânsito real: o motorista que muda de faixa sem dar seta, a obra mal sinalizada, um temporal de verão ou o pedestre que cruza sem olhar.
Para resolver esses perrengues inesperados, chamados na engenharia de “edge cases” (literalmente, “casos-limite”), o Hyundai Motor Group apresentou neste fim de semana sua nova inteligência artificial, a Atria AI, e uma estratégia batizada de Data Flywheel (“volante de dados”). A lógica é um ciclo contínuo: quanto mais os carros rodam, mais situações difíceis encontram; quanto mais dados são coletados, mais a IA se aperfeiçoa; depois de testadas e validadas, as melhorias podem voltar aos veículos por meio de atualizações remotas. O Brasil, certamente, daria um ótimo laboratório de aprendizado prático.
Garimpando encrencas
Para ensinar um computador a dirigir, passar horas rodando por estradas calmas acrescenta muito pouco. O “ouro” está nas exceções. Para uma inteligência artificial, uma fechada sem seta pode ensinar mais que mil quilômetros de estrada vazia.
Por isso, o sistema da Hyundai utiliza a Hard Example Mining (mineração de exemplos difíceis). Ele identifica os momentos em que a IA encontrou dificuldade diante de um imprevisto e grava aquele trecho. É como se o carro marcasse numa prova apenas as questões que não soube responder.
Esses episódios podem então ser recriados em simulações digitais tridimensionais. Assim, uma fechada, uma obra ou outra situação encontrada uma única vez no trânsito pode ser repetida dezenas ou centenas de vezes para treinar o software sem pôr ninguém em perigo.
A grande arma do grupo sul-coreano é seu volume: são mais de 7 milhões de veículos Hyundai, Kia e Genesis vendidos por ano em cerca de 190 países e regiões.
Hoje, o programa utiliza 40 protótipos dedicados à coleta de dados, rodando 24 horas por dia. A ambição, porém, é ampliar essa capacidade conforme a nova arquitetura eletrônica chegar aos carros de produção. Na era dos veículos definidos por software, pôr milhões de automóveis nas ruas deixa de ser o fim do desenvolvimento e passa a fazer parte dele. Com uma frota gigantesca espalhada pelo planeta, a busca por situações raras de trânsito ganha outra escala.
O sistema mais avançado em desenvolvimento pela 42dot, empresa de software e direção autônoma do Hyundai Motor Group, é o VLA (Vision-Language-Action), que introduz uma etapa de “raciocínio”. Em vez de simplesmente transformar as imagens das câmeras em comandos de volante, acelerador e freio, a IA procura interpretar o que está acontecendo e determinar a ação adequada.
É algo como: “há um ônibus parado à direita e um pedestre próximo à faixa; melhor reduzir a velocidade”. Além de ajudar o sistema a tomar decisões mais precisas diante de situações complexas, a técnica pode permitir aos engenheiros entender melhor por que a inteligência artificial tomou determinada atitude.
Mãos no volante (por enquanto)
Para mostrar que não se trata apenas de teoria, a Hyundai já pôs a Atria AI nas ruas. Um Ioniq 6 equipado com o sistema circulou pelo trânsito da superpovoada Seul, lidando com congestionamentos, chuva, ônibus, pedestres e imprevistos provocados por outros motoristas.
Em uma das situações apresentadas, o Ioniq 6 rodava a cerca de 100 km/h quando um SUV entrou repentinamente à sua frente. O sistema reagiu reduzindo a velocidade para aproximadamente 80 km/h. Em outra, quando um veículo invadiu parcialmente sua faixa, o Hyundai desviou suavemente a trajetória para aumentar a distância lateral.
Isso não significa, porém, que já é hora de tirar as mãos do volante. Os primeiros carros de produção com a nova tecnologia chegarão no primeiro semestre de 2028, utilizando soluções da Nvidia e operando em Nível 2+, no qual o motorista continua responsável pela condução e precisa supervisionar o automóvel.
No segundo semestre de 2028, a Hyundai pretende avançar para o chamado Nível 2++. Já a inteligência proprietária Atria AI deverá estrear comercialmente apenas no segundo semestre de 2029.
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