Teste: BYD Sealion 7 mostra como a China entenderá até a Europa para garantir mercado
Engenharia chinesa começa a entender que não basta ter apenas potência e viver em linha reta
A BYD não esconde que quer ser uma das maiores montadoras do mundo, incomodando as mais tradicionais de diversas origens. Mas para vencer uma batalha, é necessário estudar seus oponentes e entender como fazem e, principalmente, o que oferecem aos seus clientes para, há décadas, os venderem carros aos montes.
O BYD Sealion 7 é um dos modelos que mostram como a empresa chinesa está evoluindo e de olho no que as montadoras tradicionais fazem. Apresentado em 2024 como rival da Tesla, nasceu como foco em exportações e, até pelo seu sucesso em mercados externos, sai de linha na China enquanto ainda é novidade inclusive no Brasil. E dá para dizer que a BYD não está errada na decisão.
Aproveitando o sucesso do Seal...
Entre os elétricos da BYD, o Seal é um dos mais vendidos, ficando atrás apenas dos mais baratos Dolphin e Dolphin Mini. Se destaca por ser um sedã potente, com 531 cv, tração integral e preço atrativo de, hoje, R$ 299.990. É nessa onda que o Sealion 7 quer surfar aos que já estão para trocar seu Seal ou que preferem ter um SUV com a mesma proposta.
Em palavras simples, o Sealion 7 é o SUV do Seal. Ambos fazem parte da famíla Ocean da marca chinesa e por isso seguem a mesma linguagem de design, como os faróis finos, maçanetas integradas e as lanternas inteiriças na traseira, além de outros elementos. Mais novo, o Sealion 7 já tem algumas evoluções e aponta melhor para os carros europeus.
Por dentro, um acabamento sóbrio, com bons materiais onde se toca, costuras aparentes bem feitas e combinações de bom gosto, como o uso de acrílico no seletor do câmbio no console central, alguns itens em alumínio e preto brilhante. Já na nova geração de software e usabilidade, a tela central de 15,5" não gira mais e tem boa resolução e interface bem intuitiva. O painel de instrumentos de 10,25" está integrada ao console e também concentra boa quantidade de informações necessárias.
Seus 4,83 m de comprimento estão bem distribuídos pelo design de cupê do Sealion 7 e ainda não é um porte exagerado para o uso nos grandes centros. É um carro largo, com 1,93 m, e com o entre-eixos de 2,93 m, entramos no bom espaço interno, um dos pontos altos do Sealion 7 comparado ao que pode ser comprado pelos R$ 339.990 dentro do segmento de SUVs premium, área onde ele quer estar.
...e melhor que o sedã!
O Sealion 7 usa a plataforma e-Platform 3.0. Apesar de existir uma evolução, ficou na versão chinesa e para a versão com bateria de 91,3 kWh na Europa, nos deixando com a base que conhecemos já do Seal. Dedicada aos elétricos, usa o conjunto de baterias Blade como estrutural e coloca um motor elétrico em cada eixo.
No eixo traseiro, o motor principal do tipo síncrono, com 313 cv e 38,7 kgfm. Com tração integral adaptativa, o motor dianteiro assíncrono de 218 cv e 31,6 kgfm entra em ação em situações específicas e, quando desligado, reduz o consumo de energia. Juntos, produzem 531 cv e 70,4 kgfm disponíveis a qualquer toque no acelerador.
Na sua alimentação, o Sealion 7 usa as baterias LFP Blade de 82,5 kWh úteis. Com base de 800 volts, permite recarga de até 150 kW em DC e 11 kW em AC, apesar de outros mercados já adotarem a bateria de 91,3 kWh com a plataforma evoluída e até 230 kW de capacidade de recarga.
Em nossos testes, o Sealion 7 chegou a 5,6 kWh/km na cidade, ou alcance de 462 km, e 5 km/kWh na estrada, resultando em 412 km de alcance. São números que não o destacam dentro do mercado mesmo com tal potência e torque, mas a boa capacidade da bateria o ajudou a ultrapassar os 400 km nos dois usos. Pelo Inmetro, o registrado é de 360 km.
No uso diário, apesar da potência, tem entrega suave e linear, sem sustos ou excessos. A suspensão é adaptativa na Europa e, apesar da BYD não falar nada sobre por aqui, tem um bom comportamento mesmo no nosso asfalto e das rodas de 20" com pneus 245/45. A grande vantagem comparado ao Seal é justamente a maior altura do solo e melhores ângulos de entrada e saída, importante no uso diário e, em caso de blindagem, é até importante ter esses números melhores para caso de uma fuga, por exemplo.
Em equipamentos, tem pacote ADAS completo, apesar da calibração não tão refinada quanto das marcas premium, sistema de som Dynaudio de boa definição e qualidade, teto panorâmico, partida remota na chave, iluminação completa em LEDs e HeadUp Display.
(Quase) europeu ao volante
Eu não gosto da dinâmica do Seal, principalmente pela proposta de briga com sedãs mais potentes. É muita potência para uma calibração de suspensão e direção que não condiz, praticamente um carro de linha reta. Mas o Sealion 7 aprendeu com o mundo e, mesmo sendo um SUV, é capaz de deixar o Seal falando sozinho em curvas, por exemplo.
Se quiser, ele te entrega bastante força, mas não se descontrola mesmo quando afunda o pé e entrega os 531 cv e mais de 70 kgfm de torque nos dois eixos. Equilibrado, mostra que a BYD aprendeu que não basta acelerar, tem que ser de forma segura e neutra mesmo em um canhão como o Sealion 7, algo que os europeus fazem há um tempo mesmo em carros elétricos bem potentes.
Nos testes, cravou 4,3 segundos no 0 a 100 km/h, sendo 201 metros em 8 segundos a 139 km/h. É rápido, o que reflete também em retomadas de 2,9 segundos nas duas velocidades testadas. Em um carro com mais de duas toneladas, são números que não podem ser ignorados e entregam até um pouco mais que os 531 cv fariam na teoria.
Mas o melhor vem se quiser fazer curvas. Ele faz! Muito melhor que o Seal, o Sealion 7 não dobra a carroceria em excesso e as respostas da direção elétrica são boas, passando segurança, e comportamento neutro entre saídas de frente e traseira, mesmo sendo um SUV com seus 2.340 kg. O centro de gravidade baixo pelas baterias e boa estrutura colaboram em uma dinâmica que se aproxima mais dos europeus e que tem espaço para evoluir, o que deve acontecer.
Premium ou não?
O Sealion 7 custa R$ 339.990, um valor que já começa a olhar para o mercado premium. É maior que um Audi Q3 ou BMW X1, por exemplo, além de ser um elétrico, mas é também a linha de valor que entram outros aspectos, como status, experiência em concessionárias e até mesmo o pós-vendas. E essa parte, na BYD, é com a Denza.
O SUV tem qualidades, equipamentos e até acabamento para brigar como um premium, mas está no showroom ao lado do Dolphin e Song Pro. Não chega a ser um problema, mas vai da cabeça do comprador que entra na concessionária de olho nele, assim como foi com o Seal. E vale lembrar que na China sairá de linha e será dedicado a exportação. Será que chegou tarde ao Brasil?
Fotos: Marco Teixeira (RJ) e Leo Fortunatti (SP)/Testes: David Costa
BYD Sealion 7 EV
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