Líder na produção de carros, Stellantis agora também aposta na desmontagem
Passamos um dia no centro de reciclagem do grupo em Osasco e desmontamos um Palio para entender como carros podem ganhar nova vida
Já parou para pensar no que acontece com um carro depois que uma seguradora decreta perda total e ele recebe baixa definitiva? Em Osasco (SP), 1.150 veículos fizeram esse caminho durante o primeiro ano de funcionamento do Centro de Desmontagem Veicular Circular AutoPeças, operação do grupo Stellantis que transforma carros condenados em peças usadas rastreáveis e, por que não, também em matéria-prima para reciclagem e novas aplicações.
Nesse período, mais de 20 mil componentes foram recuperados e cerca de 11 mil já encontraram novos donos por todo o país. Outras 862 toneladas de materiais e quase 14 mil litros de fluidos automotivos tiveram destinação adequada, números que mostram que desmontar um carro legalmente envolve bem mais etapas do que simplesmente tirar tudo o que ainda parece aproveitável.
Mas, para além dos números, como funciona todo esse processo? A convite da Stellantis, passamos por um verdadeiro dia de trabalho no centro, primeiro acompanhando como os carros chegam e o que é analisado e, por fim, botando as mãos na massa para desmontar um deles. Abaixo, te contamos detalhe por detalhe como isso funciona.
Não é só carro da Stellantis
Apesar de ser administrado pelo grupo Stellantis, o centro não recebe apenas Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën, Ram ou as outras marcas da companhia. A operação é multimarcas e processa veículos e peças de diferentes fabricantes, vindos principalmente de seguradoras e leilões. Durante nossa visita, havia desde modelos do próprio grupo até Hondas, Fords, Toyotas, Renaults e os mais diversos carros de outras marcas alinhados na área de espera para descontaminação.
Antes da compra, a equipe analisa procedência, estado conhecido e principalmente o potencial comercial das peças. Hoje, a procura se concentra sobretudo em carros com cinco a quinze anos de uso, embora modelos mais antigos também interessem quando possuem componentes difíceis de encontrar.
Antes de desmontar, é preciso descobrir o que ainda funciona
Logo na entrada, fomos recebidos por uma Ram preta que havia sofrido uma forte batida traseira, suficiente para comprometer sua estrutura e decretar a perda total. Vista pela frente, porém, a história era outra. Motor, câmbio, cabine e praticamente toda a dianteira continuavam preservados e a picape funcionava normalmente, ligando logo na primeira partida.
Como esses veículos podem vir de seguradoras e leilões de diferentes regiões do país, é em Osasco que acontece a avaliação mecânica mais detalhada. Se as condições permitem, o carro é colocado sobre rolos e ligado para verificar motor e transmissão, enquanto ruídos, fumaça e possíveis irregularidades também entram na análise.
Os sistemas eletrônicos passam ainda por scanner para consultar falhas armazenadas, além de outras verificações no conjunto mecânico. A ideia é descobrir o estado real do que ainda funciona antes de começar a desmontagem.
A Ram, vale lembrar, já havia chegado ali com baixa definitiva no Detran. Ou seja, mesmo funcionando normalmente e com boa parte da mecânica preservada, não poderia voltar às ruas como veículo.
Depois dos testes, saem os fluidos
Encerrada a inspeção, o próximo destino é a área de descontaminação. É ali que são retirados combustível, óleo do motor, fluido de arrefecimento e outros líquidos, além do gás do sistema de ar-condicionado. Só depois de praticamente "secar" o carro ele pode avançar pela linha sem risco de vazamentos durante a desmontagem.
Foi nessa etapa que encontramos uma das imagens que melhor resume o caráter multimarcas do centro. Havia desde exemplares do Honda Fit quase imaculados, passando por alguns carros da própria Stellantis e outros modelos mais antigos, caso de um Renault Clio sedã que aparentemente havia capotado. Em comum, todos estavam aguardando sua vez.
Só durante o primeiro ano da operação, o processo deu destinação adequada a quase 14 mil litros de fluidos, incluindo mais de 4.600 litros de óleo e cerca de 1.830 litros de fluido de arrefecimento.
Com os fluidos removidos, começa o caminho inverso de uma linha de montagem. O veículo é elevado, conjuntos maiores saem com auxílio de equipamentos próprios e, pouco a pouco, carroceria, interior, mecânica e elétrica passam a ser separados.
Desmontador por um dia
E, para nossa surpresa, chegou a vez de trocar o papel de visitante pelo de desmontador. Os carros escolhidos para a experiência foram três velhos conhecidos das ruas brasileiras: dois Fiat Palio Fire - um cinza e um prata, ambos de segunda geração e quatro portas - além de um Uno Mille Fire Way de duas portas. Os três já estavam bem adiantados no processo e serviriam para mostrar de perto como os componentes são retirados.
Com apoio dos profissionais do centro, uniforme, luvas e as ferramentas adequadas para cada serviço, participamos da retirada das portas dianteiras e traseiras, faróis, lanternas, retrovisores, volante, quadro de instrumentos, tampa do porta-malas e pneus da unidade prata do hatchback. Por algumas horas, a ideia era realmente trabalhar como se fizéssemos parte da equipe do CDV.
Aqui, é claro, entra a expertise e o bom senso. Não dá para simplesmente arrancar cada peça de qualquer jeito, já que um movimento errado pode inutilizar algo que ainda estava em boas condições. É preciso encontrar parafusos, presilhas, conectores e encaixes antes de cada retirada para não transformar em sucata um componente que ainda poderia voltar ao mercado.
Conforme avançávamos, o Palio ia deixando rapidamente de parecer um carro. As peças começavam a ocupar os carrinhos ao lado da linha enquanto portas, iluminação, retrovisores, acabamento e outros componentes desapareciam da carroceria.
No fim, restavam basicamente os "restos mortais" do hatch, com a estrutura quase nua e alguns conjuntos que ainda seguiriam por outras etapas. Visto assim, o processo até lembra uma linha de montagem percorrida ao contrário: em vez de várias peças formarem um automóvel, um carro completo vai desaparecendo até que cada componente siga seu próprio caminho.
Nem toda peça que deveria estar lá sobreviveu
Depois da desmontagem começa uma parte menos visível, mas fundamental para que os componentes possam voltar legalmente ao mercado. O Detran trabalha com uma cartela de 49 peças controladas, e o centro precisa informar o que aconteceu com cada uma delas.
Nem todas, é claro, sobrevivem ao acidente. Se uma dessas peças foi destruída ou chegou sem condições de reaproveitamento, isso também é documentado. Já aquilo que pode voltar ao mercado passa pela avaliação de um técnico de qualidade e recebe uma classificação interna de 0 a 9, seguindo critérios próprios da operação. Essa nota serve para o controle do centro e não fica disponível ao consumidor.
É aí que dois faróis originalmente iguais, por exemplo, podem deixar de ser exatamente o mesmo produto. Um pode estar praticamente sem marcas, enquanto outro carrega riscos ou desgaste maior. Cada peça aprovada recebe ainda uma etiqueta vinculada ao veículo de origem, mantendo sua procedência rastreável mesmo depois que o carro já deixou de existir.
Na hora da venda, as peças usadas seguem a garantia padrão de três meses. Já os componentes remanufaturados, que passam por um processo próprio de recuperação antes de voltar ao mercado, têm garantia de doze meses.
Lavou, fotografou, anunciou
Depois da avaliação, as peças são lavadas e seguem para uma pequena estrutura de fotografia dentro do próprio galpão, com fundo neutro e iluminação preparada para registrar desde componentes pequenos até motores inteiros.
Como origem, código, descrição e estado já foram cadastrados anteriormente, as fotos entram no sistema e o anúncio é montado quase automaticamente, sem que alguém precise preencher novamente cada informação. Depois disso, é estoque.
Motores, transmissões, portas, faróis, acabamentos e componentes eletrônicos das mais variadas marcas ocupam as prateleiras e pallets do galpão até encontrarem um novo dono. As vendas acontecem pelo Mercado Livre, Shopee, loja física - localizada no próprio complexo de Osasco - e canais próprios da Circular AutoPeças.
Nem todo carro é desmontado
Perto da linha havia um Jeep Compass Sport branco em ótimo estado visual para sua idade, com um grande selo "Repair" no para-brisa. O SUV fazia parte da própria frota da companhia e havia passado pelo Centro de Recondicionamento Veicular (CRV), em Betim (MG).
É para lá que seguem veículos com potencial de serem recuperados em vez de desmontados. No caso do Compass, a ideia foi preservar o carro inteiro, reparando ou substituindo o necessário para que ele pudesse voltar às ruas seguindo os padrões definidos pela companhia. O CRV já recondicionou mais de 500 veículos desde o início de suas atividades.
Depois de prontos, esses exemplares podem ser oferecidos primeiro aos concessionários e funcionários da própria Stellantis, enquanto alguns também chegam ao mercado de seminovos, segundo a equipe que nos acompanhou durante o tour.
O Compass ajuda ainda a entender os quatro caminhos dessa estratégia. Há o Reparo, quando o próprio veículo pode ser recuperado; o Reuso, caso das peças aproveitadas de carros condenados; a Remanufatura, quando um componente precisa ser recuperado antes de voltar ao mercado; e a Reciclagem para aquilo que já não pode continuar cumprindo sua função original.
E o que acontece com os "restos mortais"?
Já perto do fim do trajeto, encontramos um solitário Chevrolet Vectra B, geração vendida no Brasil entre 1996 e 2005. Ou melhor, o que um dia havia sido um Vectra. Portas, vidros, interior, mecânica, suspensão e praticamente tudo o que poderia ser separado já havia desaparecido, deixando para trás apenas a carroceria de aço praticamente nua.
Nem mesmo essa carcaça, porém, tem seu fim ali. Materiais como alumínio e plásticos já são separados durante a desmontagem, enquanto a estrutura restante segue para parceiros responsáveis pela trituração e reaproveitamento do metal. Fazer esse aço voltar a ser uma chapa com os padrões exigidos pela indústria automotiva, explicou a equipe, exige um processo bem mais complexo.
Por isso, aquele velho Vectra não necessariamente virará outro carro. O aço pode seguir para aplicações menos exigentes, especialmente na construção civil. Na explicação dada durante o tour, a carroceria que um dia rodou pelas ruas pode terminar sua vida como parte de um prédio ou até como vergalhão.
Por enquanto, porém, o projeto ainda opera muito abaixo do que pode alcançar. Em seu primeiro ano, o CDV desmontou 1.150 veículos, embora tenha capacidade para processar até 8 mil nesse período. A aposta, inclusive, também ainda é bastante exclusiva dentro da própria Stellantis. O centro de Osasco foi apenas o segundo CDV criado pelo grupo no mundo e, hoje, é o único em funcionamento fora da Europa.
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