Gigantes Verdes: os tempos em que a Bentley dominava as 24 Horas de Le Mans
Com carros enormes e pilotos ricos e irreverentes, marca britânica conquistou cinco vitórias
A Bentley apresentou esta semana o Torcal, seu primeiro modelo elétrico e também o carro mais potente da história da marca, com 888 cv na versão mais braba. Mesmo pesando 2,8 toneladas, esse utilitário de ultraluxo é capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 2,9 segundos.
Isso nos fez lembrar que, há cerca de um século, a Bentley construiu sua reputação fazendo automóveis grandes, pesados e absurdamente rápidos para a época — capazes de passar dia e noite correndo sem parar. Entre 1924 e 1930, a fabricante britânica venceu cinco vezes as 24 Horas de Le Mans.
Foram carros cada vez maiores e mais potentes, conduzidos por uma turma igualmente peculiar de pilotos que incluía milionários, aventureiros, ex-militares, um médico e um jornalista. Eles ficariam conhecidos como os Bentley Boys.
Uma loucura chamada Le Mans
Quando as primeiras 24 Horas de Le Mans foram anunciadas para 1923, Walter Owen Bentley não demonstrou grande entusiasmo. W.O., como era conhecido, duvidava que os automóveis da época aguentassem tanto tempo sendo guiados de pé embaixo. Um de seus clientes, porém, resolveu tentar mesmo assim.
John Duff já competia com seu Bentley e convenceu W.O. a ajudá-lo. Dividindo um modelo 3 Litre com Frank Clement, piloto de testes da fábrica, terminou a primeira edição da prova em quarto lugar, mesmo depois de ter perdido muito tempo por um tanque furado.
Bentley 3 Litre Le Mans 1923–24
No ano seguinte, Duff e Clement voltaram com apoio da fábrica e, desta vez, ganharam. Era 1924 e começava uma relação que ajudaria a construir tanto a fama de Le Mans quanto a da Bentley.
A primeira arma foi o 3 Litre, lançado em 1921. Seu enorme quatro-cilindros de 2.996 cm³ era bem moderno para a época, com comando de válvulas no cabeçote, quatro válvulas por cilindro e duas velas em cada câmara de combustão.
Leve, o carro não era, e nem pretendia ser. W.O. acreditava em automóveis robustos, motores grandes e mecânica capaz de suportar horas de castigo. Em uma prova de resistência, chegar ao final já era uma façanha.
Bentley 4 ½ Litre Tourer by Vanden Plas (1928)
O Bentley que bateu — e ganhou
Depois da vitória de 1924, a Bentley passou dois anos sem ganhar em Le Mans. Disputou as edições de 1925 e 1926, mas todos os seus carros abandonaram. Em 1927, voltou com uma equipe forte e um novo modelo, o 4½ Litre — mas a corrida quase terminou em desastre.
Durante a noite, um acidente no trecho de Maison Blanche envolveu vários carros, incluindo os três Bentley. O estreante 4½ Litre e um dos 3 Litre ficaram fora da prova. O outro 3 Litre, de Sammy Davis e Dudley Benjafield, conseguiu voltar aos boxes.
O carro estava bastante avariado, mas os mecânicos ajeitaram o que era possível: consertaram a barra de direção entortada, alinharam a roda dianteira e prenderam com tiras de couro e fita adesiva o suporte do farol dianteiro esquerdo, que havia sobrevivido. A gambiarra funcionou e o “Old Number 7”, como aquele Bentley 3 Litre ficaria conhecido, venceu as 24 Horas de Le Mans de 1927.
Le Mans 1926 - Davis and Benjafield Car Number 7
A comemoração foi ao estilo Bentley Boys. De volta a Londres, a equipe participou de um jantar no luxuoso Hotel Savoy. Em determinado momento, foi feito um brinde “a alguém que deveria estar presente”. Então entrou no salão o próprio Old Number 7, ainda sujo e com as marcas do acidente. A equipe se levantou para receber o Bentley, transformado em convidado de honra.
Os Gigantes Verdes
O British Racing Green identificava tradicionalmente os carros de competição britânicos, numa época em que cada país adotava uma cor nas corridas internacionais. E os Bentley, que já eram grandes em comparação com os concorrentes, foram crescendo ainda mais, a ponto de serem apelidados de Green Giants, os “Gigantes Verdes”.
Os carros da equipe oficial mantinham o mesmo chassi de produção dos grandes e luxuosos Bentley de rua, com nada menos que 3,30 m entre eixos (!), recebendo apenas carrocerias mais leves, do tipo tourer, construídas pela Vanden Plas. O 3 Litre deu lugar ao 4½ Litre. O motor continuava sendo um enorme quatro-cilindros, mas a cilindrada saltava de 2.996 para 4.398 cm³.
Os Bentley Boys e seus carros em Londres - 1929
A ideia não era apenas elevar a potência máxima. Um motor maior podia produzir mais torque e manter altas velocidades sem trabalhar tão próximo do limite durante horas seguidas. Em 1928, essa receita funcionou novamente. A Bentley venceu Le Mans com um 4½ Litre, pilotado por Woolf Barnato e Bernard Rubin.
Woolf Barnato merece uma apresentação especial: filho de uma família que enriqueceu com a mineração de diamantes na África do Sul, ele era nadador, boxeador, piloto de lanchas de competição, aventureiro e bon-vivant. E é claro que ser multimilionário também era útil.
Quando a Bentley, então uma pequena fabricante de automóveis, enfrentou dificuldades financeiras, Barnato investiu na empresa e acabou se tornando seu presidente. Era o personagem perfeito para aquela turma que entraria para a história como Bentley Boys.
Le Mans 1930 - O Bentley vencedor
Os aristocráticos Bentley Boys
O médico Dudley Benjafield corria de Bentley e ajudaria a fundar o British Racing Drivers' Club, em 1928. Sammy Davis era editor da revista The Autocar. Tim Birkin havia servido na Primeira Guerra. Glen Kidston fora oficial da Marinha e acumulava aventuras por terra, mar e ar.
Tinham dinheiro, tempo e disposição para correr no continente europeu durante o fim de semana e voltar para Londres para festejar. Seria injusto reduzi-los a playboys. Eles eram pilotos rápidos e enfrentavam uma prova que pouco tinha em comum com a Le Mans atual.
Boa parte do circuito era formada por estradas públicas. À noite, a iluminação dos faróis de 6 volts era precária. Não havia rádio ligando piloto e boxes, nem telemetria. E uma corrida longa exigia preservar motor, transmissão, freios e pneus enquanto se andava o mais rápido possível.
Bentley Speed 6 Old Number Two (1930)
Os carros tinham eixos rígidos na dianteira e na traseira, feixes de molas, pneus diagonais fininhos e freios a tambor nas quatro rodas. O acionamento dos freios sequer era hidráulico, mas sim mecânico, “a varão”.
Agora imagine manter uma MÉDIA de 111,2 km/h com um carro desses, ao longo de 155 voltas e 24 horas. Foi essa a façanha de Barnato e Rubin na vitória de 1928.
1º, 2º, 3º e 4º em 1929
A Bentley decidiu que quatro cilindros já não eram suficientes. Para 1929, a grande arma passou a ser o Speed Six, versão esportiva do modelo 6½ Litre.
Agora havia um seis-em-linha de nada menos que 6.597 cm³. O 6½ Litre normal entregava cerca de 150 cv, enquanto o Speed Six de rua chegava a aproximadamente 180 cv. Preparados para competição, os motores alcançavam a casa dos 200 cv. Em 1929, isso era muita coisa.
Bentley 7_Le Mans Classic_Blower 1929 and Blower Continuation Series
A essa altura, o “Gigante Verde” já tinha entre-eixos de 3,40 m. Barnato dividiu um Speed Six com Tim Birkin e venceu. Atrás deles chegaram outros três Bentley.
O Speed Six vencedor liderou desde a primeira volta até a bandeirada. Em apenas cinco anos, a Bentley havia passado de estreante desacreditada pelo próprio fundador a força dominante da maior corrida de resistência do mundo.
O Bentley mais famoso nunca ganhou
Apesar do êxito, havia uma guerra técnica acontecendo dentro de casa. Tim Birkin não estava convencido de que simplesmente construir motores cada vez maiores fosse a única solução e queria a sobrealimentação.
Blower Car Zero
A ideia era instalar um compressor mecânico no 4½ Litre e obter muito mais potência sem aumentar a cilindrada. W.O. Bentley detestava a solução. Considerava o compressor uma complicação desnecessária e temia que comprometesse a confiabilidade.
Birkin fez mesmo assim. Com dinheiro da rica herdeira Dorothy Paget, apaixonada por automobilismo, nasceu o Bentley 4½ Litre Supercharged — o famoso Blower Bentley.
Desenvolvido por Amherst Villiers, o enorme compressor volumétrico do tipo Roots era acionado mecanicamente pelo virabrequim. Ficava à frente do radiador, “pendurado” na extremidade dianteira do chassi. A potência do 4½ Litre, de cerca de 130 cv na versão aspirada, podia alcançar 240 cv em alguns Bentley Blower de corrida! Foram construídos 55 carros, quantidade suficiente para homologar o modelo para competição.
O Blower era rápido, brutal e espetacular, mas também era aquilo que W.O. temia: menos confiável. Hoje é o Bentley de competição mais lembrado daquela época. Mas nunca ganhou Le Mans — quem continuou vencendo foi o gigantesco Speed Six aspirado.
A última vitória
Em 1930, os Bentley voltaram a Le Mans para enfrentar, entre outros adversários, a poderosa Mercedes-Benz. Os Blower também estavam lá (mas nenhum resistiu às 24 horas).
Sobrou para os Speed Six a batalha principal. Depois que o Mercedes SSK pilotado por Rudolf Caracciola e Christian Werner abandonou, a vantagem dos Bentley tornou-se tão confortável que W.O. mandou diminuir o ritmo. A ordem era seguir até a chegada num “fast tour” — um passeio rápido. Barnato e Glen Kidston venceram. Outro Speed Six terminou em segundo.
Bentley 4 ½ Litre Tourer by Vanden Plas 1928 (motor)
Para Woolf Barnato, significava uma estatística absurda: três participações em Le Mans, três vitórias consecutivas. Para a Bentley, era a quinta vitória em apenas sete edições: 1924, 1927, 1928, 1929 e 1930.
Mas, quando os Gigantes Verdes pareciam imbatíveis, a festa acabou. A crise econômica mundial agravou os problemas financeiros da Bentley e, em 1931, a marca foi comprada pela Rolls-Royce. Em 1935, W.O. deixou a empresa de vez e foi para a Lagonda.
A Bentley levaria 73 anos para vencer novamente as 24 Horas. Isso só aconteceria em 2003, com o Speed 8, um protótipo com motor V8 biturbo de origem Audi.
Speed 6 Continuation Series
Zero-quilômetro em 2020
Entre 2019 e 2020, a Bentley desmontou e digitalizou um 4½ Litre Blower original, catalogando centenas de peças para recriar o carro com a maior fidelidade possível. O trabalho deu origem à Blower Continuation Series, produzida artesanalmente pela Mulliner, divisão de projetos especiais da Bentley.
Foram construídas 12 unidades para clientes, além do Car Zero, protótipo usado para testar componentes e validar os processos de fabricação. Cada carro custou £ 1,5 milhão (R$ 10,3 milhões pelo câmbio atual) — e todos foram vendidos antes mesmo do início da produção.
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