Bentley Torcal: primeiro elétrico da história da marca é também o mais potente
Primo do Porsche Cayenne Electric, SUV britânico de 888 cv faz o 0-100 km/h em 2,9 s
Depois de 107 anos construindo automóveis com motores a combustão, a Bentley apresenta o Torcal, seu primeiro modelo elétrico. Mas não pense que a casa de Crewe dará uma de Jaguar, rompendo com tudo o que seus clientes já conhecem. Por fora e por dentro, a prioridade foi preservar a identidade da marca — mesmo com uma mudança radical sob a carroceria.
O nome do novo SUV vem de El Torcal de Antequera, uma formação rochosa no sul da Espanha. Vale lembrar que o nome Bentayga, do outro utilitário da marca, é inspirado no Roque Bentayga, um imponente rochedo vulcânico nas Ilhas Canárias.
Mais importante, porém, é que o Torcal compartilha sua base técnica com o novo Porsche Cayenne Electric e se torna, já na estreia, o Bentley de produção mais potente da história. Inicialmente, serão oferecidas duas configurações.
O Torcal “convencional” rende 821 cv e 121,7 kgfm, enquanto o Torcal S eleva esses números para 888 cv e 137,6 kgfm. Ambos usam dois motores elétricos (um em cada eixo) e tração integral. No mais potente, a Bentley anuncia aceleração de 0 a 100 km/h em apenas 2,9 segundos e máxima de 260 km/h. O parentesco com o Cayenne EV explica boa parte da ficha técnica. Como o Porsche, o Torcal tem entre-eixos de 3,02 metros e arquitetura elétrica de 800 volts.
A bateria tem 108 kWh de capacidade. O sistema aceita recarga rápida de até 400 kW. Nessas condições, a Bentley afirma que a carga pode passar de 10% a 80% em aproximadamente 16 minutos. Cerca de sete minutos ligado a um carregador suficientemente potente seriam suficientes para acrescentar aproximadamente 160 km de alcance. A autonomia pelo otimista ciclo europeu WLTP é de 603 km.
A Bentley trata seus automóveis como bens capazes de permanecer durante décadas com a mesma família e, por isso, afirma usar baterias capazes de conservar 90% da capacidade original mesmo depois de 160 mil quilômetros.
São 2,8 toneladas de luxo
Com exatos cinco metros de comprimento, o Torcal é mais curto que o Bentayga “padrão” (de 5,14 m). Suas proporções são bem típicas da Bentley, com capô longo, “grade” dianteira praticamente vertical e para-lamas traseiros pronunciados.
A mudança está principalmente nos detalhes. Os tradicionais faróis redondos dão lugar a uma nova assinatura formada por linhas verticais. Em vez de grade, há uma grande superfície iluminada com padrão tridimensional. Na traseira, notam-se vários traços do conceito EXP 15 (2025), especialmente no vidro inclinado e nas lanternas fininhas. O Torcal também estreia, em um modelo de produção, o novo emblema da Bentley.
Todos os Torcal saem com suspensão totalmente ativa, com um sistema hidráulico eletrônico que mantém a carroceria mais nivelada, evitando que ela incline demais nas curvas, frenagens e acelerações. O esterçamento das rodas traseiras é de série. Os aros, aliás, são enormes: 21” na versão “normal” e 22” na S.
A Bentley promete uma grande diferença de comportamento conforme o modo de condução escolhido: de um rodar extremamente confortável à configuração mais esportiva, na qual a marca diz ter criado seu modelo de quatro portas mais capaz dinamicamente.
O baixo centro de gravidade proporcionado pela enorme bateria instalada no assoalho contribui para isso. Falando nisso, o SUV pesa 2,8 toneladas. Para frear esse caminhão, há como opção discos de freio carbono-cerâmicos (CSiC), com 434 mm de diâmetro na dianteira e 409 mm atrás.
Nada de cabine de nave espacial
O painel mantém o conhecido layout inspirado nas asas do logotipo da Bentley, agora organizado ao redor de uma grande tela OLED curva. Ao mesmo tempo, a companhia resistiu à tendência de transformar todo o painel em telas. Não existe display dedicado ao passageiro, e comandos físicos continuam presentes para funções importantes, incluindo a climatização. Há ainda um modo chamado “Detox”, que reduz as informações exibidas na tela central.
Em vez de instalar outra tela diante do passageiro, a Bentley preferiu investir nas superfícies que ocupam esse espaço. Uma das novidades é um revestimento de lã de ovelhas da raça Merino, conhecida por ter fibras muito finas, macias e leves. Há ainda um sofisticado acabamento que sobrepõe até mil finíssimas camadas de nogueira reaproveitada e papel reciclado, criando um degradê do preto à cor natural da madeira.
Entre os equipamentos estão reconhecimento facial, sistema de áudio da britânica Naim, com 28 alto-falantes, e iluminação ambiente elaborada. Os bancos dianteiros têm ajustes elétricos em 16 posições, aquecimento, ventilação e massagem. Pela primeira vez em um Bentley, o banco traseiro para três ocupantes também traz um mecanismo elétrico de rebatimento.
Outra estreia é o teto panorâmico com transparência ajustável eletricamente — e que, diferentemente de muitos tetos desse tipo, também pode ser aberto. As quatro portas vêm com acionamento elétrico e sensores destinados a evitar que elas atinjam obstáculos próximos.
Os sons do silêncio
A Bentley pesquisou diferentes possibilidades para dar ao Torcal uma identidade acústica própria, evitando simplesmente transformar o elétrico em uma imitação sonora de seus V8.
A marca chegou a gravar em estúdio o V8 de um Bentley, mas concluiu que o mais interessante não era reproduzir seu timbre, e sim o ritmo e suas pequenas irregularidades. A partir daí, comparou o funcionamento do motor ao de um baterista e criou a trilha do Torcal com instrumentos reais tocados por músicos — bateria, viola e baixo. O objetivo não é imitar um motor a combustão, mas provocar sensações semelhantes.
Um alto-falante externo traseiro permite que parte dessa assinatura também seja percebida fora do carro.
Outros efeitos sonoros são deliberadamente artesanais: o acionamento da seta, por exemplo, foi criado a partir do som de uma ferramenta trabalhando couro, enquanto o aviso do comando de voz teve como matéria-prima o som produzido ao soprar a borda de uma taça de cristal.
As primeiras entregas do Bentley Torcal estão previstas para 2027. No Reino Unido, os preços começam em 173.300 libras para a versão convencional e 199.300 libras para o Torcal S (algo entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,4 milhão na conversão direta). Lá, o Torcal custa cerca de 24% menos que o Bentayga Speed V8 4.0 Biturbo, enquanto no Torcal S a diferença cai para aproximadamente 12%.
Desde 2016, a Bentley não tem representação oficial no Brasil, mas seus carros continuam chegando por importadores independentes. Um Bentayga Speed 2026 zero-quilômetro, por exemplo, é oferecido atualmente por cerca de R$ 4 milhões.
Antes de torcer o nariz para o primeiro elétrico puro de Crewe, pense no que o velho W.O. Bentley, fundador da marca, diria de um carro ultraluxoso capaz de acelerar mais rápido que seus Gigantes Verdes, pentacampeões das 24 Horas de Le Mans entre 1924 e 1930.
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Gigantes Verdes: os tempos em que a Bentley dominava as 24 Horas de Le Mans
Ford Racing: da brutalidade da Ranger T1+ ao off-road na Mantiqueira
Novo Geely EX5 elétrico 2027 tem cara de Volvo e o dobro de potência; veja o que muda
Exclusivo: Aceleramos o Peugeot 208 Rally 4 de 212 cv ao lado da versão de rua
Novo Volvo XC60 ganha bateria de elétrico e autonomia de mais de 200 km
Derretendo no Brasil, irmã da Fiat Titano cresce 222% no México
Nova Renault Niagara é apresentada com tração 4x4 e IA, mas híbrida apenas em 2027