Senado dos EUA tenta banir definitivamente os carros chineses
Medida contraria Trump, que aceita a produção local por marcas da China
Enquanto Donald Trump recebe o presidente chinês Xi Jinping em Washington e admite que marcas chinesas fabriquem carros nos Estados Unidos, o Capitólio caminha na direção contrária: senadores tentam transformar em lei uma barreira que impede empresas da China de vender ou produzir carros no país.
Xi chegou aos Estados Unidos na tarde de quarta-feira (23/9), recebido pessoalmente por Trump na base aérea de Andrews, nos arredores de Washington. A visita de Estado se estende até esta sexta-feira (25) e inclui reuniões sobre comércio, tecnologia e outros pontos de atrito entre as duas maiores economias do mundo.
Em meio à visita, os senadores Bernie Moreno, republicano, e Elissa Slotkin, democrata, pretendiam acelerar a aprovação do Connected Vehicle Security Act of 2026, projeto bipartidário que busca fechar definitivamente o mercado norte-americano aos automóveis chineses e a determinados componentes e tecnologias de conectividade vindos do país asiático.
A tentativa de aprovar o projeto por um procedimento acelerado estava prevista para quinta-feira (24), mas foi adiada para a próxima semana. Apesar do amplo apoio no Senado, esse caminho exige consentimento unânime: basta um senador se opor para impedir a aprovação — e foi o que fez o republicano Rand Paul.
Agora, Moreno e Slotkin tentarão convencer Paul a retirar a objeção para que o projeto possa ser aprovado por consentimento unânime na próxima semana. O texto já havia passado pelo Comitê de Comércio do Senado em julho.
Trump quer chineses produzindo nos EUA
A iniciativa cria uma situação curiosa dentro do próprio governo americano. Trump afirmou neste mês que não se oporia à instalação de fábricas de marcas chinesas nos Estados Unidos, desde que os automóveis fossem produzidos por trabalhadores americanos.
O presidente fez uma comparação com o caminho seguido décadas atrás pelas marcas japonesas, que passaram de importadoras a grandes fabricantes locais. O que Trump rejeita é a possibilidade de empresas chinesas produzirem no México para depois abastecer o mercado americano.
A ideia encontrou forte resistência da indústria. Fabricantes, fornecedores e concessionários pressionam Washington para manter o mercado fechado às chinesas, enquanto o projeto de Moreno e Slotkin busca impedir que uma futura decisão da Casa Branca abra uma exceção.
A barreira levantada por Biden
Na prática, os carros chineses já estão barrados no mercado dos Estados Unidos. Além das tarifas superiores a 100% impostas aos elétricos importados da China, o governo de Joe Biden aprovou, em janeiro de 2025, uma regulamentação que restringe veículos conectados, softwares e componentes ligados à China e à Rússia.
A justificativa oficial foi a segurança nacional: segundo o Departamento de Comércio, sistemas conectados poderiam coletar informações sobre motoristas, infraestrutura e deslocamentos e permitir acesso a esses dados por países considerados adversários. A regra entrou em vigor em março de 2025 e, na prática, tornou inviável para fabricantes chineses vender ou produzir automóveis de passageiros nos Estados Unidos.
Embora apresentada formalmente como uma medida de segurança de dados, a barreira também tem um evidente impacto de proteção industrial. Os próprios autores da nova legislação associam de forma explícita o tema da segurança nacional à preservação da indústria automobilística e dos empregos americanos diante da expansão das marcas chinesas.
A fábrica da Mercedes-Benz em Tuscaloosa, EUA
E a Mercedes-Benz nessa história?
A proposta, porém, produz uma consequência inesperada. O texto considera também a participação de investidores chineses no controle das empresas. Segundo os parlamentares, marcas de automóveis com mais de 15% de participação de entidades chinesas poderiam ser atingidas pelas novas restrições.
A Mercedes-Benz-Benz ultrapassa esse limite. A estatal chinesa BAIC Group detém 9,98% do capital da Mercedes-Benz-Benz Group, enquanto Li Shufu, fundador da Geely, controla outros 9,69%. Juntos, portanto, os dois grandes acionistas chineses hoje possuem 19,67% da Mercedes-Benz-Benz.
E não se trata de uma fabricante estrangeira que apenas exporta carros para os Estados Unidos. A Mercedes-Benz mantém uma enorme operação industrial no Alabama. A fábrica de Tuscaloosa produz GLE, GLE Coupé, GLS, Mercedes-Benz-Maybach GLS, EQE SUV e EQS SUV, emprega cerca de 5.800 trabalhadores locais e já fabricou mais de cinco milhões de veículos desde 1997. Cerca de 60% de sua produção é exportada.
Pela proposta em discussão, portanto, uma legislação criada para impedir a chegada de BYD, Geely e outras fabricantes chinesas pode acabar atingindo também uma das maiores operações industriais estrangeiras instaladas nos próprios Estados Unidos.
Moreno afirma que a Mercedes-Benz teria até 2030 para se adequar e que mecanismos de exceção poderiam ser considerados. Slotkin também reconheceu que há discussões sobre como tratar de maneira específica o caso da fabricante alemã.
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