Renault Oroch nasceu às escondidas e inventou um novo tipo de picape
Ideia começou com engenheiros argentinos trabalhando fora do expediente
A estreia da Renault Niagara marcará também uma despedida. A picape, que começa a ser produzida na fábrica de Santa Isabel, em Córdoba, Argentina, ocupará o lugar da Oroch, encerrando uma história iniciada em 2015 e que, portanto, já passa de uma década no mercado.
Há uma certa ironia nessa troca de guarda. Muita gente imagina que a Oroch seja um projeto romeno, por seu parentesco com o Dacia Duster. Outros atribuem sua criação ao Brasil, onde sempre foi fabricada, ou à França, sede da Renault. Todos esses países tiveram participação importante em seu desenvolvimento, mas a Oroch jamais teria existido não fosse a teimosia de alguns engenheiros argentinos.
Quando a Renault apresentou a Duster Oroch Concept no Salão de São Paulo, em outubro de 2014, parecia estar apenas testando uma proposta. A marca descrevia sua cabine dupla como “um estudo”.
Galeria: Como nasceu a Renault Oroch, picape do Duster
Do Paintbrush para as ruas
Só que a história daquela picape havia começado quatro anos antes. Mais curioso ainda, a ideia nascera na Argentina, com um grupo de engenheiros que chegou a tocar o projeto à noite e nos fins de semana, fora do expediente, usando o modesto software Paintbrush.
Um dos personagens centrais dessa história é o argentino Adolfo Felippa, engenheiro que havia trabalhado na França e já conhecia o projeto do Duster antes mesmo de o SUV chegar ao mercado. Ao lado dele estava Leandro Colombato, também engenheiro da Renault Argentina.
A Renault Argentina queria uma picape, mas desenvolver um veículo inteiramente novo custaria caro. Pequenas equipes começaram a estudar alternativas baseadas em modelos como Clio e Kangoo, mas nenhuma parecia suficientemente promissora.
Até que Colombato sugeriu usar o Duster, que sequer havia começado a ser produzido no Brasil. O SUV de origem Dacia era robusto, tinha uma arquitetura adequada e, principalmente, abria caminho para algo diferente das picapes pequenas derivadas de carros de passeio que dominavam essa faixa do mercado sul-americano. Felippa conhecia bem o projeto: havia acabado de voltar da França, onde trabalhara justamente nos novos modelos que a Renault desenvolvia para a Dacia.
Renault Duster Oroch Concept (2014)
A ideia tomou forma entre 2010 e 2011. Colombato contou anos depois que parte desse trabalho inicial era feita fora do horário normal. Não se tratava ainda de um programa oficial da companhia, mas de engenheiros tentando provar que aquela combinação poderia funcionar. Os primeiros esboços no Paintbrush foram entregues a dois engenheiros que trabalhavam com um software de projeto de verdade, o Catia. A picape começava a ganhar consistência técnica.
A oportunidade decisiva surgiu durante uma visita à Argentina de uma executiva responsável pela engenharia mundial da Renault. A equipe apresentou a proposta, ela gostou e passou a defender o projeto na França. A aventura ganhava, enfim, status de programa oficial.
Renault Oroch nasceu como projeto U79
Depois da aprovação, o trabalho cresceu rapidamente. Em 2011, já havia um grupo de cerca de 75 pessoas, entre argentinos, brasileiros e colombianos, envolvido na empreitada. A partir de 2012, a picape entrou em sua fase formal de desenvolvimento sob o código U79.
Trabalharam no projeto equipes da França, Romênia, Argentina e Brasil. Engenheiros latino-americanos foram enviados à Europa para se juntar às equipes dos centros técnicos do Grupo Renault.
A Argentina teve papel fundamental na concepção inicial e na engenharia. A França entrou com o Technocentre e a estrutura central de desenvolvimento do grupo. A Romênia oferecia a experiência e as instalações ligadas à arquitetura B0, da qual nasceu o Duster. E o Brasil teria participação decisiva no estilo, adaptação regional e industrialização da picape. A U79 seria fabricada em São José dos Pinhais (PR), ao lado do Duster.
A outra picape derivada do Duster
O utilitário Duster havia nascido como Dacia e utilizava a arquitetura B0 da família Logan. Na Europa, era vendido com a marca romena; em boa parte da América Latina e de outros mercados, recebia o losango da Renault.
Já a picape cabine dupla não era um projeto da Dacia, mas do Grupo Renault. A participação romena, porém, existiu e foi importante, sobretudo porque havia naquele país instalações e recursos de engenharia que não estavam disponíveis na América Latina.
O mais curioso é que, enquanto a U79 estava sendo desenvolvida, surgiu na Romênia outra picape derivada do Duster. A petrolífera OMV Petrom precisava de um modelo de cabine simples, com tração 4x4, e encomendou a transformação. O projeto começou no fim de 2012 e envolveu a Dacia e a empresa romena Romturingia.
Assim, em 7 de outubro de 2014, foram entregues as primeiras Duster Pick-Up romenas. Apenas três semanas depois, no dia 28, a Renault mostrava no Salão de São Paulo a Duster Oroch Concept. Eram duas picapes baseadas no mesmo SUV, desenvolvidas praticamente ao mesmo tempo e com propostas completamente diferentes.
Os traços
Mais do que um Duster cortado
A grande sacada do projeto U79 era não tentar reproduzir nenhuma das categorias existentes. De um lado estavam as picapes compactas derivadas de automóveis, como Fiat Strada, Volkswagen Saveiro e Chevrolet Montana. Do outro, modelos médios maiores, mais pesados e caros, como Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Ford Ranger.
E havia um espaço enorme entre elas. A Renault queria uma picape monobloco, de cabine dupla, com quatro portas, capaz de acomodar cinco pessoas e ainda oferecer capacidade razoável para transportar carga. Tudo isso com uma dirigibilidade próxima à de um SUV de passeio. Estava nascendo um novo segmento: o das picapes intermediárias, ou “médias compactas”.
Transformar o Duster em cabine dupla, porém, deu bem mais trabalho do que serrar a carroceria atrás do banco traseiro. A picape manteve boa parte da estrutura dianteira, cabine, mecânica e componentes do Duster, mas recebeu mudanças profundas do meio para trás.
O eixo traseiro também foi deslocado para trás. Era preciso conciliar espaço interno, tamanho da caçamba, distribuição de peso, estabilidade e comportamento com o veículo carregado.
A distância entre eixos cresceu cerca de 15,5 cm, de 2,67 para 2,83 metros. O comprimento total chegou a 4,69 metros. Longarinas, travessas e assoalho traseiro tiveram de ser redesenhados e reforçados para suportar os esforços impostos pela caçamba e por até 650 kg de carga.
Até a experiência da Nissan entrou na história. Ao estabelecer os requisitos para os reforços estruturais da caçamba, a equipe recorreu a especificações técnicas da marca japonesa disponíveis graças à aliança com a Renault.
A caçamba foi uma das partes mais complicadas do projeto. Os engenheiros queriam obter bom volume sem transformar a Oroch numa picape enorme. Um dos requisitos era permitir o transporte de uma moto na diagonal. Isso influenciou até o desenho do painel dianteiro da caçamba, que ganhou um espaço adicional para encaixar a roda. Com a tampa aberta e um extensor opcional, o comprimento útil podia chegar a dois metros.
Outro quebra-cabeça envolveu as lanternas. Quanto maior fosse a abertura traseira, menor seria o espaço disponível para os conjuntos ópticos. A solução encontrada foi fazer as lanternas avançarem pelas laterais da carroceria.
Em vez do tradicional eixo rígido traseiro usado na maioria das picapes, a Oroch adotou suspensão independente, baseada na do Duster 4x4, mas modificada e reforçada.
A Renault queria que sua picape preservasse boa parte do conforto e do comportamento do SUV, mesmo com capacidade para carregar 650 kg. Os motores também vieram do Duster, mas as relações de diferencial foram encurtadas para lidar com o peso adicional da carga.
Na estreia brasileira, o 1.6 16V K4M rendia até 115 cv e vinha com câmbio manual de cinco marchas. O 2.0 16V F4R chegava a 148 cv e usava uma caixa manual de seis velocidades. Mais tarde viriam a transmissão automática e, para exportação, uma opção 4x4.
Renault Duster Oroch Dynamique (2015–20)
Brasil definiu o estilo da Renault Oroch
Se a semente havia germinado na Argentina, o Brasil teria papel fundamental na aparência da nova picape. O Duster Oroch Concept exibido no Salão de São Paulo de 2014 foi desenvolvido pelo estúdio Renault Design América Latina, o RDAL, em São Paulo.
O desenho externo ficou a cargo do brasileiro Yuri Hayek, sob a estrutura mundial comandada pelo holandês Laurens van den Acker. O nome “Oroch” foi escolhido pela sonoridade forte e não tinha significado específico.
Quando revelou a Duster Oroch Concept em outubro de 2014, a Renault ainda usava palavras cuidadosas. Oficialmente, aquele era um “exercício de estilo” destinado a explorar uma possível picape recreativa baseada no Duster. Hoje sabemos que a história estava bem mais adiantada.
Em junho de 2015, apenas oito meses depois da exibição do “show car”, a versão definitiva foi mostrada no Salão de Buenos Aires. No fim de setembro daquele ano, ocorreu o lançamento regional para a imprensa, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.
Fiat Toro chegou atropelando
A Oroch foi a pioneira de sua categoria no mercado brasileiro, mas a Renault não estava sozinha ao enxergar aquele novo nicho. No mesmo Salão de São Paulo de 2014, a Fiat apresentou o FCC4, um estranho conceito que antecipava elementos da futura Toro.
Lançada em 2015, a Oroch manteve ao longo de sua trajetória uma média anual de vendas no Brasil em torno de 12.500 unidades. Era um número relativamente modesto, mas constante. Entre o lançamento e agosto de 2026, um total de 130.201 unidades da Oroch foram emplacadas no país.
Fiat Toro Volcano MHEV flex 2027
Maior e com acabamento superior, a Fiat Toro apareceu em fevereiro de 2016 e, com média anual em torno de 56 mil unidades, atropelou a concorrente, mostrando o tamanho do mercado que havia para as picapes intermediárias.
Apesar de ter nascido de uma ideia argentina, a Oroch sempre foi brasileira de fabricação. Desde 2015, todas as unidades saíram do Complexo Ayrton Senna, em São José dos Pinhais (PR). De lá, a picape ganhou uma carreira internacional bem maior do que suas vendas brasileiras poderiam sugerir: foi exportada para países como Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai e Uruguai, chegou à América Central e ao Caribe e atravessou o Atlântico para mercados africanos como Senegal, Costa do Marfim, Madagascar, Gana e Cabo Verde.
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