Ford Racing: da brutalidade da Ranger T1+ ao off-road na Mantiqueira
Depois de acompanhar a Ford Racing no W2RC, experimentei a Ranger de competição no Brasil e encarei um rally de regularidade
Há alguns meses, tive uma das experiências mais impressionantes da minha trajetória como jornalista automotivo. Durante uma etapa do Campeonato Mundial de Rally Raid (W2RC), na Argentina, acompanhei a operação da Ford Racing, andei ao lado de Carlos Sainz Sr. na Raptor T1+ e pilotei uma F-150 Raptor nas trilhas do deserto de San Juan. Voltei daquela viagem com uma percepção bastante clara sobre a estratégia da marca: existe um trabalho consistente para transformar as competições em um ambiente de desenvolvimento e aprendizado.
Agora, a convite da Ford, tive a oportunidade de conhecer outra parte dessa operação, desta vez no Brasil. Foram dois dias de atividades que começaram com os carros de competição da equipe Sizmic Racing, na Fazenda Maynô, em Pindamonhangaba, e terminaram com um rally de regularidade pela Serra da Mantiqueira. A programação permitiu estabelecer uma conexão interessante entre o projeto internacional da Ford Racing, as competições nacionais e a capacidade off-road dos veículos que encontramos nas concessionárias. Também rendeu algumas situações que dificilmente vou esquecer.
Primeiro dia: a brutalidade das Ranger de competição
A Fazenda Maynô recebeu um percurso preparado para demonstrar as capacidades das Ranger T1 e T1+, utilizadas pela equipe Sizmic Racing nas competições brasileiras. O trajeto parecia um pequeno recorte do Rally dos Sertões, reunindo estradas vicinais de terra, passagem por um riacho, subidas, descidas e saltos que permitiam experimentar o trabalho das suspensões em condições bastante exigentes. Para completar, havia chovido muito no dia anterior. Portanto, além dos obstáculos naturais, tínhamos bastante lama.
Ranger T1 e T1+ do Rally dos Sertões
As duas picapes são preparadas pela Neil Wooldridge Motorsports (NWM), empresa sul-africana parceira da Ford. A Ranger T1 utiliza um motor V8 5.0 de 385 cv e 57,6 kgfm, enquanto a T1+ é equipada com um V6 3.5 EcoBoost biturbo de 390 cv e 57,1 kgfm. Ambas contam com transmissão sequencial de seis marchas, tração integral permanente e suspensões com amortecedores duplos BOS. São máquinas desenvolvidas para suportar condições extremas, com uma configuração muito distante daquela encontrada nos veículos de produção.
Ranger T1 e T1+ do Rally dos Sertões
Tive a oportunidade de andar com Beco Andreotti, um dos nomes mais conhecidos do rally brasileiro. E, embora já tivesse experimentado a Raptor T1+ ao lado de Carlos Sainz no deserto argentino, a experiência brasileira reservou suas próprias surpresas. Principalmente porque o percurso preparado na fazenda concentrava uma quantidade impressionante de situações diferentes em uma distância relativamente curta.
Salto com a Ranger T1 é prova de robustez do conjunto
Os saltos eram, digamos, interessantes. A velocidade de aproximação, a forma como o carro deixava o solo e, principalmente, a capacidade da suspensão de absorver o impacto na aterrissagem ajudam a compreender o nível de preparação dessas máquinas. Tudo acontece muito rapidamente, mas existe uma sensação impressionante de controle. A lama acrescentava outra variável, exigindo ainda mais precisão do piloto.
Velocidade e controle chamam a atenção na Ranger T1
Entretanto, foi uma passagem aparentemente simples que produziu o momento mais marcante do dia. Depois de uma descida enorme, havia uma pequena porteira, extremamente estreita, pela qual precisávamos passar. Do banco do navegador, minha percepção era de que seria necessário reduzir bastante a velocidade para conseguir alinhar a picape.
Só que Beco tinha outros planos.
Conforme nos aproximávamos, comecei a pensar: "Não vai passar. Precisa reduzir. Não vai, não vai...". Enquanto isso, Beco acelerava ainda mais, corrigindo a trajetória e alinhando a picape com uma precisão impressionante. Quando percebi, já estávamos do outro lado. Naquele momento, lembrei imediatamente do famoso meme: "Passamoooo, p****!".
Ranger T1 e T1+ do Rally dos Sertões
O mais impressionante é que não se tratava de uma demonstração isolada. Os pilotos repetiram aquele percurso diversas vezes, durante dois dias, para dois grupos diferentes de convidados. Sempre com velocidades elevadas, saltos, lama e obstáculos que exigiam precisão absoluta. É uma demonstração de desempenho, mas também da confiança que existe entre pilotos, navegadores e equipamentos.
A Ranger T1 conquistou o Rally do Jalapão de 2026, enfrentando um percurso superior a 1.300 quilômetros, enquanto a T1+ estreou no Rally dos Sertões do mesmo ano, em uma prova de aproximadamente 4.000 quilômetros. São competições nas quais velocidade e potência representam apenas parte do desafio. A resistência mecânica e a capacidade de manter o desempenho durante vários dias são igualmente importantes.
Terminei a experiência com uma combinação difícil de descrever: muita performance, segurança, precisão e uma quantidade considerável de lama. Foi incrível. E, depois de acompanhar a operação mundial da Ford Racing na Argentina, encontrar esse nível de preparação no Brasil reforçou minha percepção sobre a dimensão do projeto que a marca está construindo.
Segundo dia: da competição à Ranger que encontramos nas concessionárias
A segunda parte da programação começou em Campos do Jordão. Antes do rally de regularidade, percorremos cidades da região em um comboio de veículos da Ford, enfrentando estradas de terra, trechos com muita lama e condições meteorológicas bastante variáveis. Em determinados momentos, estávamos acima das nuvens, cercados por uma paisagem espetacular. Pouco depois, a chuva voltava a aparecer e transformava o percurso em um desafio completamente diferente.
Ranger: picapes prontas para o rally de regularidade
O comboio impressionava, mas outro aspecto chamou ainda mais minha atenção: o nível de confiança da Ford em seus veículos. A marca colocou motoristas com diferentes graus de experiência, incluindo pessoas com pouquíssima vivência no off-road, para enfrentar situações que normalmente seriam consideradas bastante complexas. E a chuva dos dias anteriores havia deixado algumas passagens especialmente difíceis.
Ranger no Ford Off-Road Cup
Havia subidas bastante escorregadias, nas quais a aderência mudava constantemente. Nessas situações, os modos de tração da Ranger demonstravam sua importância, permitindo avançar com controle mesmo quando o terreno parecia oferecer pouca aderência. Nas descidas, o desafio era diferente. Em determinados trechos, um veículo convencional poderia facilmente perder o controle. Com a tração adequada e o controle eletrônico de descida (HDC) ativado, conseguimos superar os obstáculos com segurança.
Ranger no Ford Off-Road Cup
Outro recurso interessante foi a possibilidade de acompanhar o comportamento da picape pela central multimídia. As informações sobre os ângulos de inclinação e a operação do sistema 4x4 permitiam visualizar o que estava acontecendo durante o percurso. Em situações nas quais estamos concentrados em escolher a melhor trajetória, esses dados ajudam a compreender o comportamento do veículo e ampliam a confiança ao volante.
Naturalmente, os recursos eletrônicos não eliminam a necessidade de técnica e atenção. Mas foi interessante observar como a tecnologia tornou acessíveis situações que poderiam intimidar motoristas com pouca experiência. A proposta da Ford ficou bastante evidente durante o trajeto: demonstrar, na prática, as capacidades off-road dos seus veículos.
Para o rally de regularidade, formei dupla com Flávio Verna, do portal 4x4 Brasil. Nosso carro foi uma Ranger Limited, equipada com o motor 3.0 V6 turbodiesel de 250 cv e 61,2 kgfm, associado à transmissão automática de dez marchas. Além da força disponível em baixas rotações, a picape conta com recursos como tração 4x4, reduzida e bloqueio eletrônico do diferencial, fundamentais para enfrentar terrenos de baixa aderência.
Gosto desse tipo de competição porque ela exige uma mudança completa de mentalidade. Depois de um dia experimentando a velocidade e a brutalidade dos carros da Ford Racing, nosso desafio agora era controlar o ritmo. Em um rally de regularidade, acelerar demais pode ser tão prejudicial quanto andar devagar. É preciso interpretar as instruções, acompanhar as médias estabelecidas, administrar o tempo e manter uma boa comunicação entre piloto e navegador.
Ranger no Ford Off-Road Cup
Flávio e eu conseguimos encontrar um bom ritmo durante a prova. A chuva, entretanto, continuou interferindo na programação e obrigou a organização a eliminar um trecho final do percurso. Mesmo assim, conseguimos terminar na terceira colocação, um resultado que acrescentou uma dose especial de diversão aos dois dias de atividades.
À nossa frente ficaram Diógenes de Oliveira, do Automais, e Camilla Camanzi, vencedores da competição. A segunda colocação foi conquistada por Eduardo Bernasconi, da Fullpower, e Karina Simões. Foi uma disputa divertida, especialmente pelas condições do terreno e pela necessidade de manter a concentração durante todo o percurso.
Ford Racing: uma estratégia que começa nas competições
Depois dessas duas experiências, minha percepção sobre a estratégia da Ford Racing ficou ainda mais clara. Existe uma conexão entre diferentes categorias, mercados e aplicações. No W2RC, a Raptor T1+ enfrenta algumas das provas mais exigentes do automobilismo mundial. No Brasil, as Ranger T1 e T1+ encontram no Jalapão e no Sertões condições extremas para colocar à prova desempenho, resistência e confiabilidade. Já as experiências com Ranger, Maverick Tremor e Bronco Sport permitem demonstrar como os recursos off-road dos veículos de produção funcionam em situações reais.
Evidentemente, existe uma distância técnica considerável entre um carro de competição e uma Ranger Limited. Entretanto, o automobilismo oferece oportunidades importantes de desenvolvimento, coleta de dados e aprendizado. Também permite construir uma cultura técnica na qual pilotos, engenheiros e mecânicos precisam encontrar soluções para situações que dificilmente seriam reproduzidas com a mesma intensidade em ambientes convencionais de testes.
Ranger no Ford Off-Road Cup
Foi justamente essa continuidade que mais me chamou a atenção. Na Argentina, conheci uma estrutura mundial preparada para disputar o W2RC e tive a oportunidade de experimentar a brutalidade da Raptor T1+ ao lado de Carlos Sainz. No Brasil, encontrei uma operação igualmente comprometida com os desafios do rally nacional e pude experimentar, em condições bastante exigentes, os recursos de uma Ranger de produção.
Ranger T1 e T1+ do Rally dos Sertões
Voltei do deserto argentino impressionado com a capacidade da Raptor T1+ e com a estrutura da Ford Racing. Desta vez, retornei da Serra da Mantiqueira com muita lama na memória, a lembrança daquela passagem inacreditável com Beco Andreotti e um terceiro lugar conquistado ao lado de Flávio Verna.
Foram duas experiências que ajudaram a compreender como a Ford Racing está avançando no automobilismo e utilizando diferentes competições para desenvolver conhecimento, testar soluções e fortalecer a identidade off-road da marca.
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