Teste Jeep Avenger Longitude: versão intermediária se destaca e mostra a nova receita da marca
Como um dia fez o Renegade, novidade tem armas para um mercado que mudou muito nos últimos anos
Em 2014, a Jeep nem aparecia entre as 21 marcas mais vendidas do Brasil. Com apenas importados nas lojas, vivia da imagem de marca premium e desejada construída ao habitar as garagens de famosos. Em 2015, o Renegade chegou e transformou esse desejo em possibilidade, mesmo que não fosse um carro premium. Apresentado em abril, foi o responsável por colocar a Jeep na 10ª posição naquele ano.
Atualize este cenário: eletrificados, chineses, novos SUVs menores de olho no mercado de hatches e, ao mesmo tempo, para cobrir a faixa onde os outros estavam e saíram com os aumentos de preços. O Renegade ainda existe, mas está com o novo Jeep Avenger a missão de repetir aquele 2015 e renovar o desejo dos compradores. E será o Avenger Longitude que você verá aos montes nas ruas.
Um Jeep com alma de Peugeot
O Jeep Avenger é o primeiro modelo fora da Peugeot e Citroën a chegar ao Brasil com a plataforma CMP, de origem ainda da era PSA. A produção em Porto Real (RJ) também coloca pela primeira vez um modelo que não é Peugeot ou Citroën na planta, que ficou famosa por boas eras de 206 e C3, mas ficou no passado.
Isso não é algo negativo, mas também nos traz aspectos que é impossível não lembrar de 208 e 2008. Primeiro, o Jeep Avenger não é grande como as imagens sugerem e estão mais pra um SUV menor que para o Renegade, por exemplo. Mais uma vez, o design engana e temos que encarar a realidade de uma ficha técnica: são 4.084 mm de comprimento, ou menos que o Tera, e longe até dos 4.270 mm do seu irmão Renegade. Parece loucura, mas até seu primo de plataforma, o Peugeot 2008, é maior, com 4.309 mm.
No entre-eixos, o Avenger chegou com 2.557 mm, enquanto o 2008 tem 2.612 mm, e fica na mesma faixa de Chevrolet Sonic e VW Tera. Deu para entender que espaço interno não é seu forte, como no 2008, principalmente no banco traseiro. Com o dianteiro ajustado para mim, com 1,65 m de altura, o espaço para as pernas já é mais limitado, apesar de bom para a cabeça e ombros de dois ocupantes. O terceiro terá um problema tanto para seus ombros quanto como uma discussão com o console e o túnel centrais, área nem saídas de ar-condicionado recebeu, apenas as opcionais portas USB-C.
Com 321 litros, o porta-malas não fica fora da média do segmento, mas ainda é menor que o do 2008 e seus 419 litros e que os de Sonic (392) e Tera (350), seus concorrentes naturais mais recentes. Essas características de usabilidade até fazem sentido na Europa, mas podem ser impeditivos para quem o procura como uma opção ao carro da família, principalmente com filhos. Na loja, terá que olhar o Renegade, pelo menos.
Conquistando pelo visual
Não dá para negar que o Jeep Avenger é bonito e ainda é um Jeep, mesmo com a base de Peugeot. Os faróis em LEDs com máscara negra estão bem escondidos no conjunto que coloca a grade de sete fendas, aqui fechadas, em um preto brilhante que, nesta versão, não recebe ainda a iluminação. É imponente com caixas de rodas destacadas e limpo com a maçaneta das portas traseiras camufladas na coluna.
Os elementos Jeep aparecem também nas rodas de 17", com a calotinha central exibindo um clássico Jeep, e nas lanternas traseiras em LEDs com o formato quase quadrado e a assinatura em X. É bonito, mas não poucas vezes percebi as pessoas olhando e com aquele olhar de "achei que fosse maior", como falei no começo. É, a Stellantis acertou em cheio no material publicitário e deu essa impressão, como já fez com Pulse, Fastback e até Rampage.
Se por fora só dá para perceber os retrovisores como peças de Peugeot, por dentro esse jogo de elementos é mais evidente, ainda que com certa personalidade. Se você conhece os carros da marca francesa, vai perceber um compartilhamento em peças como a chave presencial, o botão de partida, a maçaneta das portas, os comandos de vidros e retrovisores elétricos, o conjunto das luzes de teto, citando os principais.
Isso não é ruim, já que o acabamento tem bastante plástico rígido, comum no segmento, mas é um carro bem montado e com materiais bem escolhidos, como os Peugeot. Nesta versão, um aplique prata atravessa o painel, o tecido sintético está nas portas, no painel e na mistura com tecido dos bancos, que causa uma boa impressão para um carro que está na entrada da marca, apesar do preço que não é baixo para uma boa parte da população.
Se você é familiarizado com Peugeot, vai reconhecer a chave de seta, uma peça que tem o design pouco modificado da que esteve em meu 206 2002. Na tela de 7" do painel, para ver as informações do computador de bordo, os comandos estão nas extremidades das alavancas, algo característico de quem? Pois é. Interessante a opção de escolher as informações exibidas em diversas páginas, disponível nas configurações pela central multimídia.
Uma quebra de tradição
A Jeep sempre destacou que todos os seus modelos em nosso mercado oferecem ao menos uma versão com tração 4x4 ou integral. Bom, oferecia, já que o Avenger quebra essa tradição e, para ter algo assim, só quando chegar uma opção elétrica ou híbrida com motor traseiro, uma limitação desta plataforma. Mas para boa parte dos consumidores, isso não importa.
Também é o primeiro Jeep com motor 1.0 turbo, um conhecido tricilíndrico em par com o câmbio CVT com simulação de sete marchas. Em todas as versões, o Avenger recebe o sistema híbrido-leve de 12 volts, o que já o permite escapar de rodízio em São Paulo (SP), mas foi o primeiro Stellantis a ter a potência reduzida de 125/130 cv para arredondados 116 cv, uma forma de escapar de uma alíquota extra de IPI. O torque segue com os 20,4 kgfm, o número que realmente você sente no uso diário.
Com seus cerca de 1.200 kg, o Avenger se dá bem com este conjunto. Como já vimos nos Peugeot MHEV, a plataforma CMP aceitou muito bem a solução brasileira e o Jeep é um carro gostoso para dirigir. Se você não se enganar e esperar o comportamento de um híbrido HEV, por exemplo, entrega um bom torque em baixas, até um pouco ajudado pelo motor elétrico ligado por correia ao combustão, e o câmbio CVT deixa as rotações baixas principalmente na cidade. Diferente do Renegade, ele segue com o sistema de 12 volts, não 48.
Até mesmo as vibrações características de um 3-cilindros é bem absorvida pelo trabalho de coxins do Jeep e da mesma forma que elogio a suavidade do 208 e 2008, fica a mesma observação ao Avenger. Na verdade, até a posição de dirigir, que pode ser bem baixa, remete aos Peugeot, mas sem o polêmico painel elevado com volante reduzido, algo bem ame-ou-odeie. Eu gosto.
O Avenger é o primeiro Stellantis que testamos com a nova calibração. Como já dito, como o torque não mudou, você não vai perceber nada e, com a ajuda da eletrificação, a engenharia não precisou capar o acelerador para atender normas de emissões, que dá aquela sensação de lerdeza que está atingindo cada vez mais novos carros. A potência em si, só quem realmente vai acelerar, o que não é exatamente a proposta do Avenger.
Abaixo, montamos uma tabela comparando quatro SUVs da Stellantis com o conjunto T200 MHEV, mas lembrando que apenas o Avenger está com 116 cv. Os números são os de teste padrão do Motor1, com gasolina e seguindo sempre a mesma metodologia.
| Fiat Pulse | Fiat Fastback | Peugeot 2008 | Jeep Avenger | |
| 0 a 60 km/h | 4,5 s | 4,2 s | 4,3 s | 4,8 s |
| 0 a 80 km/h | 6,6 s | 6,4 s | 6,8 s | 7,2 s |
| 0 a 100 km/h | 9,7 s | 9,4 s | 9,9 s | 10,5 s |
| 40 a 100 km/h | 7,2 s | 7,2 s | 7,6 s | 7,6 s |
| 80 a 120 km/h | 6,7 s | 6,5 s | 7,5 s | 7,6 s |
| Consumo Cidade | 10,8 km/l | 10,1 km/l | 10,6 km/l | 11,3 km/l |
| Consumo Estrada | 16,9 km/l | 14,8 km/l | 16,3 km/l | 16,1 km/l |
Se no dia a dia não percebemos a redução, nos números isso aparece. O Avenger é mais lento que seus irmãos, mas também precisamos considerar pontos como peso e aerodinâmica, por exemplo. De qualquer forma, seu 0 a 100 km/h em 10,5 segundos ainda é bom, sendo que os demais estão na casa dos 9 a 10 segundos.
As retomadas são similares ao Peugeot 2008, ainda com a potência de 125 cv e a mesma plataforma. No bolso, você sentirá o consumo, que chegou aos 11,3 km/litro na cidade, melhor que os demais primos, e 16,1 km/litro na estrada, número inferior aos de Pulse e 2008. No tanque de 47 litros, ainda é uma autonomia de mais de 750 km rodoviários.
Nem Renegade, nem 2008
Quem acostumou com Renegade e sua suspensão independente na traseira, verá o Avenger com o eixo de torção como um downgrade. Mas a Stellantis sabe que o DNA Jeep precisa aparecer até no menor modelo e não trouxe a calibração do 2008, mas algo próprio para o Avenger que o afasta tanto do irmão maior quanto de seu primo de base.
Enquanto o 2008 perdeu um pouco da suspensão firme que era característico da sua geração anterior, o Avenger trouxe isso. É um estilo da Jeep, que casa bem a estabilidade, com pouca rolagem de carroceria mesmo em curvas mais rápidas, com o conforto, com bom curso e absorção dos impactos, mesmo em asfalto mais acidentado. A posição de dirigir de Peugeot, mas com volante e painel tradicionais, é uma boa parceria até para quem gosta de estar ao volante.
Mas vale a observação: ele não tem componentes tão sólidos quanto os demais Jeep. Enquanto Renegade e Compass sempre se destacam por aguentar pancadas, o Avenger reclama quando mais exigido. Um buraco mais fundo e dá para sentir as bandejas sofrendo e fim de curso dos amortecedores. É como ir trabalhar no feriado, quando você até faz sua função de forma suficiente, mas reclama bastante por isso. Não que as peças irão durar pouco, mas dói no coração a cada impacto tão comum em nossas ruas. Na estrada de terra então, vale o cuidado redobrado, o que não é necessário em um Renegade.
Melhor versão e um novo público
O Jeep Avenger Longitude custa R$ 135.990, mas não vale colocar o pacote que adiciona alerta de ponto-cego, sensor de estacionamento dianteiro, retrovisor interno fotocrômico, rebatimento elétrico dos retrovisores externos e entradas USB-C para o banco traseiro. Perto dos R$ 140 mil, já se aproxima do Limited (R$ 145.990) e, com o Longitude básico, já tem um ACC bem calibrado, alerta de saída de faixas e um aspecto interno e externo mais refinado que da versão Altitude, de entrada. Se for levar o pacote, negocie na concessionária como um bônus.
Mas é uma versão que veremos bastante pelas ruas. Equilibra o pacote de equipamentos e preço, principalmente que o Limited já entra em uma faixa onde as opções se espalham para modelos maiores e, dentro da própria Jeep, há promoções com preços similares para Renegade e até mesmo Compass, dependendo da época.
O Jeep Avenger é um bom carro, mas não será o novo habitante da garagem dos atuais donos de Jeep. Como o Renegade fez em 2015, trará um novo público para as lojas e deve ampliar as vendas da marca, mesmo com a chegada dos chineses e eletrificados. Não será fácil como foi há 11 anos, mas a novidade fará bem, seja para ele mesmo ou, quem sabe, emplacar mais Renegade aos que procuram outros aspectos. Falaremos disso em breve.
Fotos: Leo Fortunatti e divulgação/Teste: David Costa
Jeep Avenger T200 CVT
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