Teste Hyundai i20 Ultimate: um hatch muito superior ao HB20 em vários aspectos
Apesar de compartilharem a mecânica, temos um carro bem melhor e evoluído que seu antecessor
A Hyundai precisava urgentemente de um novo hatch compacto no Brasil. Embora o HB20 ainda sustente bons números em 2026, o mercado brasileiro mudou radicalmente nos últimos três anos com a enxurrada de carros elétricos chineses acessíveis. Também chegaram novos SUVs de entrada que, pouco a pouco, começam a substituir os hatches. Ou seja, era hora de se mexer, e a marca escolheu a nova geração do i20, um modelo inédito por aqui.
Produzido em Piracicaba (SP), o novo hatchback compacto estreia no País em sua nova geração e antes da Coreia do Sul e da Europa. Comparado ao HB20 (que continua nas lojas), o i20 apresenta dimensões maiores, mais espaço interno e um projeto claramente mais refinado. Para este primeiro teste, eis a versão topo, o Hyundai i20 Ultimate.
Mais do que o novo HB20
Convivendo com o i20 em diferentes cotidianos, ficaram ainda mais evidentes as evoluções em relação ao HB20. O novo hatch cresceu por fora e por dentro e passa a ser uma das referências da categoria em espaço interno e capacidade do porta-malas, que comporta 346 litros — volume superior aos 300 litros de rivais como Chevrolet Onix e Volkswagen Polo.
A versão Ultimate é equipada com o motor 1.0 turbo de três cilindros, com injeção direta, 115 cv e 17,5 kgfm. Ele vem associado ao câmbio automático de seis marchas, com tração dianteira. É uma receita conhecida dos modelos compactos da Hyundai, mas o i20 mostra que a qualidade de um carro não está apenas no motor que ele utiliza. Suspensão, direção, freios, carroceria e acerto geral mudam bastante a experiência ao volante, conforme veremos a seguir.
Consumo real surpreende na estrada
Começando pelos números mais importantes para quem pretende usar o carro todos os dias. Abastecido com gasolina, o i20 Ultimate registrou 10,8 km/l no circuito urbano e 16,2 km/l no trecho rodoviário. O resultado é interessante quando colocado lado a lado com os números oficiais. Na cidade, representam uma diferença de aproximadamente 14% em relação ao número de homologação (12,6 km/litro). No rodoviário, porém, os 16,2 km/l são cerca de 13% melhores que os 14,3 km/l divulgados.
O resultado rodoviário é especialmente interessante porque, considerando o tanque de 50 litros, a média de 16,2 km/l permitiria uma autonomia teórica próxima de 810 km. É um alcance bastante robusto para um hatch compacto, ainda que a conta real dependa das condições de uso, do ritmo de condução, da carga transportada e de outros fatores.
No desempenho, o resultado foi ainda melhor diante da referência oficial. A Hyundai declara 11,7 segundos para o 0 a 100 km/h, mas o i20 Ultimate precisou de apenas 10,8 segundos para cumprir a mesma prova nos testes do Motor1.com Brasil.
A diferença de 0,9 segundo não transforma o i20 em um hatch esportivo, mas mostra que o conjunto consegue entregar desempenho ligeiramente superior ao número divulgado pela fabricante. Nas retomadas, os resultados também foram consistentes: 7,7 segundos de 40 a 100 km/h e 7,4 segundos de 80 a 120 km/h, medições que ajudam a traduzir melhor o comportamento do carro em situações comuns de estrada.
Ao volante, entretanto, há uma característica que merece ser observada. Para enquadrar em novas regras de impostos, a Hyundai reduziu a potência do motor 1.0 turbo Smartstream de injeção direta em relação a aplicações anteriores, mas na verdade isso você não sentirá no pé. Por normas de emissões cada vez mais exigentes para veículos sem eletrificação, existe um certo atraso do turbo e das respostas do acelerador quando o motorista pede uma reação mais forte em baixa rotação, algo que pode incomodar em uma saída rápida ou durante uma retomada, apesar de ainda ser melhor que muitos outros motores turbo concorrentes.
O i20 também não oferece modos de condução, e a ausência de um programa Sport é sentida principalmente porque o carro traz paddle shifts atrás do volante. Um modo mais agressivo poderia explorar melhor essas trocas manuais e dar ao hatch uma personalidade um pouco mais divertida. Ainda assim, quando o giro sobe, o motor mostra elasticidade e o conjunto mecânico passa a trabalhar com bastante competência.
É justamente na estrada que o i20 mostra uma de suas melhores facetas. O 1.0 turbo não sucumbe em acelerações mais fortes, o câmbio automático de seis marchas faz seu trabalho sem chamar atenção e o carro mantém bom ritmo em velocidades mais altas. Os números de retomada confirmam uma impressão que já aparecia ao dirigir o modelo: ele pode não ser rápido nas primeiras respostas, mas tem bastante fôlego quando é solicitado.
Novo i20 está em outro nível diante do HB20
A maior evolução, porém, não está no motor. Está no carro como um todo. O novo i20 tem 4.130 mm de comprimento, 1.780 mm de largura e 2.580 mm de entre-eixos, enquanto o porta-malas comporta 346 litros. São dimensões que colocam o modelo em uma posição bastante competitiva entre os hatches compactos e ajudam a explicar o ganho de espaço percebido na cabine.
A bordo, o i20 também representa uma mudança significativa em relação ao HB20. O painel adota um novo padrão para os compactos da Hyundai e, na versão Ultimate, reúne duas telas de 12,3 polegadas. O conjunto cria uma espécie de cockpit virtual, com a central multimídia posicionada para o motorista.
Há, contudo, uma ressalva no quadro de instrumentos. Apesar do tamanho da tela, ela não funciona como um painel totalmente configurável. O velocímetro e o conta-giros permanecem fixos nas laterais, enquanto um pequeno display central concentra gráficos do veículo e informações de bordo. A solução lembra a adotada no HB20 e pode decepcionar quem esperava uma evolução.
A central multimídia, por outro lado, é um dos pontos altos do i20. A tela é consideravelmente maior que a do HB20, responde muito bem aos comandos e oferece espelhamento sem fio para Android Auto e Apple CarPlay. É uma solução que eleva bastante a conectividade do carro, embora ainda falte uma oferta mais completa de aplicativos nativos que aproveitem a conexão de internet integrada.
Ao volante, i20 mostra maturidade
É dirigindo que o novo Hyundai mais se distancia do HB20. O i20 é estável, transmite maior sensação de solidez e entrega um nível de refinamento de suspensão e direção que não encontramos no irmão menor. O acerto de molas e amortecedores é relativamente firme, mas sem comprometer o conforto, e essa característica acaba sendo uma qualidade quando o carro ganha velocidade.
O i20 está longe de ser um dos carros mais macios da categoria, e isso é positivo. A carroceria controla bem os movimentos, o hatch não fica excessivamente solto em curvas e a direção transmite uma sensação de maior precisão. Em velocidades mais altas, o conjunto passa uma segurança que combina bem com a proposta de um carro global.
Outro ponto alto é a frenagem. A versão Ultimate utiliza discos nas quatro rodas, com discos ventilados na dianteira e sólidos na traseira, e o acerto do pedal está entre os melhores que encontramos nessa faixa de preço. Em frenagens mais fortes, o carro mantém estabilidade e transmite ao motorista uma resposta bastante previsível.
É um daqueles casos em que a engenharia aparece mais ao volante do que na ficha técnica. O novo i20 parece um projeto mais maduro e muito bem calibrado para as condições brasileiras, especialmente quando colocado diante de alguns concorrentes mais recentes que apostam em uma lista extensa de equipamentos, mas nem sempre entregam o mesmo refinamento dinâmico.
Tecnologia avançou, acabamento nem tanto
O problema do i20 está justamente em um aspecto que fica mais evidente conforme o preço sobe: o acabamento. A versão Ultimate custa a partir de R$ 139.990, e a cabine ainda é toda revestida de plástico rígido. O acabamento bicolor ajuda a quebrar a impressão de simplicidade, mas não elimina a percepção de que a Hyundai economizou em alguns pontos.
Em uma faixa de preço que recebeu produtos chineses com interiores mais sofisticados, a diferença fica gritante. Há detalhes pequenos que reforçam essa percepção. As partes internas do capô e da tampa do porta-malas, por exemplo, não recebem o mesmo acabamento da pintura externa. Isoladamente, isso não compromete a utilização do carro, mas são escolhas que revelam onde houve redução de custos.
Por outro lado, o pacote de equipamentos da versão Ultimate é bem equilibrado. O carro traz rodas de liga leve de 17 polegadas, bancos com ótimo tamanho de assento e revestidos com couro sintético, chave presencial, partida por botão, freio de estacionamento eletrônico com Auto Hold e um pacote ADAS bastante completo.
Entre os recursos de segurança estão frenagem autônoma de emergência, controle de cruzeiro adaptativo, farol alto automático, alertas de ponto cego nos retrovisores, alerta de tráfego cruzado traseiro e alerta de saída segura. Este último avisa o ocupante quando existe outro veículo ou até um ciclista se aproximando no momento de abrir a porta.
Um desenho global que mantém certa tradição
O novo i20 também não abandonou completamente soluções tradicionais. Ainda existem botões físicos para controle de volume, estação de rádio e algumas funções da central multimídia, em vez de concentrar tudo na tela. A alavanca convencional do câmbio também permanece entre os bancos, em uma época em que alguns modelos já transferiram o comando para a coluna de direção ou adotaram pequenos seletores eletrônicos.
Pode parecer conservador diante de carros mais recentes, mas existe uma vantagem nessa escolha. Há consumidores que preferem justamente a possibilidade de tocar em um botão ou girar um comando sem precisar procurar a função correspondente em uma tela, sobretudo entre aqueles que não se adaptaram tão bem às interfaces cada vez mais digitais dos carros modernos.
Gostei bastante do novo volante da Hyundai. Além dos paddle shifts, ele traz os quatro pontos no centro, uma referência ao "H" em código Morse que passou a fazer parte da identidade global da Hyundai. É um detalhe simples, mas que ajuda a diferenciar o interior do i20 do encontrado no HB20.
A lista de tecnologia inclui ainda o botão SOS, que permite contato com a central de atendimento da fabricante em situações de emergência, além de conectividade pelo aplicativo da marca, com possibilidade de acompanhar informações do veículo e realizar alguns comandos remotamente.
O i20 não tenta ser premium
Também vale destacar o que o i20 não entrega. Por R$ 139.990, não há teto solar, sistema de som assinado, banco do motorista com ajustes elétricos, park assist ou iluminação ambiente. São equipamentos que aparecem em alguns concorrentes nessa faixa de preço e ajudariam a construir uma percepção mais sofisticada, um toque premium.
Não considero isso um problema para a proposta do carro. O pacote de equipamentos é bom e cobre justamente aquilo que considero mais importante em um hatch dessa categoria: segurança, conectividade, conforto e boa posição ao volante. O ponto é que o acabamento simples fica mais evidente porque o preço já não é da versão de entrada.
Isso se torna ainda mais evidente quando olhamos para o mercado. O i20 não chegou em uma categoria tranquila: além dos hatches tradicionais, os modelos chineses passaram a disputar essa faixa de preço oferecendo muito conteúdo, interiores mais chamativos e, em alguns casos, conjuntos eletrificados.
O mercado já coloca i20 e HB20 em disputa
Os números de julho mostram que o consumidor brasileiro parece ter entendido rapidamente a proposta do novo Hyundai. O i20 emplacou 2.668 unidades em seu segundo mês de vendas, enquanto o HB20 registrou 3.037. A diferença entre os dois caiu para apenas 369 carros.
A comparação com junho, seu mês de estreia, é ainda mais significativa. O HB20 despencou de 6.914 para 3.037 unidades, queda de 56,1%, enquanto o i20 saltou de 676 para 2.668, alta de 294,7%. Com isso, o novo hatch alcançou 5,28% de participação entre os hatches no mês, contra 6,01% do HB20.
É cedo para transformar dois meses de vendas em algo definitivo, principalmente porque o i20 ainda está ampliando sua presença nas lojas. Mas o resultado chama atenção. No acumulado de 2026, o HB20 ainda está muito à frente, com 41.971 unidades, enquanto o i20 soma 3.344. A diferença é explicada principalmente pelo tempo de mercado de cada um.
Veredicto: uma nova geração que faz sentido
Depois de dirigir o i20 Ultimate em pista e no uso cotidiano, minha impressão inicial ficou ainda mais forte: este é um carro claramente superior ao HB20 em praticamente tudo que interfere na experiência ao volante. Ele é mais espaçoso, mais estável, mais refinado e tem uma calibração de suspensão, direção e freios que demonstra maturidade.
O acabamento é seu principal ponto fraco. Em um carro de R$ 139.990, a quantidade de plástico rígido e alguns sinais de economia destoam. Ainda assim, não é um problema que apague os avanços do projeto, principalmente porque o i20 entrega bons equipamentos de segurança, excelente ergonomia, espaço generoso e uma dinâmica acima da média do segmento.
Talvez seja essa combinação que explique sua rápida ascenção. O i20 que estreia agora no Brasil é a nova geração de um hatch global da Hyundai, produzido localmente com uma configuração específica para o nosso mercado. A versão brasileira não será exatamente igual ao carro que chegará à Europa no último trimestre, onde o modelo terá diferenças de conteúdo e configuração, mas compartilha a mesma identidade de um produto para diferentes mercados.
Por isso, mais do que um carro colocado acima do HB20, o i20 representa a chegada ao Brasil de uma nova geração que já tinha seu espaço lá fora. E, olhando para os primeiros números de vendas, parece que o mercado brasileiro estava carecendo de um hatch compacto da Hyundai com esse nível de evolução.
Fotos: Mario Villaescusa (para o Motor1.com)/Teste: David Costa
Hyundai i20 1.0T AT6
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