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Fiat Argo: os bastidores do projeto X6H que reorganizou a linha Fiat no Brasil

Criado para ocupar o espaço de Palio e Punto, hatch estreou plataforma, motores Firefly e uma nova fase de Betim

Fiat Argo Drive 1 (1)
Foto de: Reprodução
Jason Vogel Jason Vogel

Em 2014, a Fiat enfrentava uma sobreposição de modelos que encarecia a produção em Betim. Para começar, duas gerações do Palio (a original 178 e a nova 326) conviviam no mercado e faziam bonito no ranking de emplacamentos, usando bases resistentes, simples e de manutenção barata. Mais acima estava o Punto nacional (Projeto 310), com componentes mais caros e refinados. Além disso, ainda estava em linha por aqui o hatch médio Fiat Bravo (Projeto 198) que, apesar de sofisticado, era um fracasso comercial no Brasil e estava em vias de ser aposentado na Europa.

Foi nesse cenário que o projeto X6H começou a tomar forma em meados de 2014 — sim… desde o seu nascimento, o Argo já trazia um “X”! Sua missão era reorganizar e simplificar a gama da Fiat no Brasil, ocupando sozinho o espaço de alguns modelos. O Punto sairia de cena, as versões superiores do Palio (326) perderiam sua razão de existir e o novo hatch ainda cobriria parte do espaço deixado pelo Bravo.

Inicialmente, pensou-se em manter o nome Palio, mas a diretoria da Fiat quis marcar que era um carro realmente novo. Assim, depois de longas pesquisas, o projeto X6H virou o Fiat Argo. O nome definitivo escolhido fazia referência à mitologia grega: Argo era o navio com que Jasão e os Argonautas se meteram em mil aventuras e desafios em busca do Velocino de Ouro.

Quando foi apresentado, em 30 de maio de 2017, o Argo não era apenas mais um hatch. Para a Fiat, aquele carro representava uma mudança de geração de produtos, engenharia e até da maneira de fabricar automóveis em Betim (MG).

Fiat Argo Drive 1

Fiat Argo Drive 

Foto de: Reprodução

Por isso sua gama era tão ampla. Havia motores 1.0, 1.3 e 1.8, câmbios manual, automatizado GSR e automático, além de versões que iam da Drive 1.0 à HGT 1.8. A Fiat pretendia vender cerca de 6 mil unidades mensais, enfrentando principalmente Chevrolet Onix, Hyundai HB20, VW Gol e Ford Ka.

Fiat Argo Drive 1 (4)
Foto de: Reprodução

Por baixo, um Punto aprimorado

O X6H inaugurou a plataforma MP1 (Modular Platform 1). Embora apresentada como uma nova arquitetura, ela tinha parentesco com a do Punto brasileiro e a do primeiro Palio. No Argo, somente uns 20% dos componentes da base foram mantidos, enquanto 80% eram novos.

Foi uma revisão profunda. Mesmo cerca de 8% mais leve que a do Punto, a carroceria do Argo ganhou em rigidez torcional e à flexão, graças, entre outros fatores, ao amplo uso de aços de alta e ultra-alta resistência. Houve também atenção especial a ruídos e vibrações.

Fiat Argo Drive 1 (2)
Foto de: Reprodução

Boa parte desse desenvolvimento aconteceu antes que existisse um Argo físico. Estrutura e comportamento dinâmico foram inicialmente simulados por modelos matemáticos.

Depois vieram mais de 150 protótipos reais, usados para crash-tests, controle dimensional, avaliações de qualidade e validação daquilo que havia sido previsto virtualmente. Foram mais de 1,5 milhão de quilômetros, incluindo testes nos lagos de gelo de Arjeplog, na Suécia.

“Saiu um carro bem acertadinho”, lembra o engenheiro Robson Cotta, que era o responsável pela validação final.

O Fiat Tipo hatch europeu (357) _2016–20

O Fiat Tipo hatch europeu 

Foto de: Reprodução

Desenhado em Betim

O estilo também nasceu no Brasil. O projeto foi realizado pelo centro de design da FCA (Fiat Chrysler Automobiles) em Betim, comandado por Peter Fassbender, que naquele período também estava envolvido com projetos como Mobi e Toro.

O parentesco visual com o Fiat Tipo europeu (Egea, projeto 356) não era coincidência. Fassbender explicou que Tipo e Argo foram desenvolvidos quase que simultaneamente, daí compartilharem a linguagem visual que a Fiat adotava naquele período. Até detalhes como a trama da grade eram iguais.

Fiat Argo Drive 1 (3)
Foto de: Reprodução

Em dimensões, o Argo se equivalia ao que havia de melhor na concorrência direta: 2,52 m de entre-eixos (como o Onix) e 300 litros de porta-malas (como o HB20), vencendo todos eles no comprimento total de 4 metros.

Na cabine, o objetivo era aumentar a percepção de qualidade em relação aos compactos anteriores. O painel horizontal trazia três saídas de ventilação circulares, teclas do tipo piano e, em posição elevada, uma central multimídia Uconnect de 7 polegadas, com Apple CarPlay e Android Auto, muito moderna para a época. Alguns componentes, como elementos do quadro de instrumentos e comandos do ar-condicionado, tinham parentesco com os usados pela Toro.

Fiat Argo HGT 1

Fiat Argo HGT usava motor 1.8 E.TorQ

Foto de: Reprodução

Duas gerações de motores no mesmo carro

Sob o capô, o Argo era um bom exemplo do momento de transição da engenharia da FCA. As versões 1.0 e 1.3 utilizavam os então novos Firefly, família desenvolvida no Brasil com participação de equipes internacionais. Ambos usavam bloco de alumínio e apenas duas válvulas por cilindro, solução adotada para reduzir atritos, favorecer o torque em baixa rotação e, é claro, baixar custos.

O Firefly 1.0 tinha três cilindros, rendia até 77 cv e sempre saía com o câmbio manual C513 de cinco marchas.

Fiat Argo Drive 1 (5)

Fiat Argo 1.3 chegou a usar o GSR, versão mais atualizada do Dualogic 

Foto de: Reprodução

Já o Firefly 1.3, de quatro cilindros, rendia até 109 cv. Podia vir acoplado à caixa manual de cinco marchas ou à automatizada GSR, com seletor por botões e uma única embreagem. De triste memória, esse câmbio robotizado de cinco velocidades era um Dualogic que não ousava dizer o nome. A partir de 2022, um CVT tomaria o lugar dessa transmissão automatizada.

Nas versões superiores Precision e HGT havia ainda um conhecido motor da geração anterior: o E.torQ 1.8 16V “Evo VIS”, de até 139 cv. Era uma evolução do Tritec Chrysler-BMW, com bloco de ferro e cabeçote de alumínio. Seu coletor de admissão tinha comprimento variável (longo e curto): um sistema de borboletas acionadas a vácuo comutava automaticamente quando o motor atingia 4.250 rpm. O percurso longo favorecia o torque em baixa, enquanto o curto priorizava a potência em alta rotação. Havia ainda um variador de fase no comando de válvulas.

Fiat Argo HGT Opening Edition Mopar (358) 2017

Fiat Argo HGT Opening Edition Mopar 2017

Foto de: Reprodução

Usado até o final de 2021, o E.torQ 1.8 16V podia ser combinado ao câmbio AT6, um automático convencional de seis marchas. Era uma grande novidade para a marca — e, certamente, uma decisão bem pensada: fornecida pela japonesa Aisin, ligada ao grupo Toyota, essa caixa custava para a Fiat mais do que o próprio motor!

Em abril de 2019, veio ainda a versão aventureira Argo Trekking — uma derivação do Argo Drive 1.3 manual. Com alterações em molas e amortecedores, ficou 40 mm mais alto e com 210 mm de vão livre do solo. Também ganhou pneus 205/60 R15 de uso misto.

Fiat Argo Trekking

Fiat Argo Trekking

Foto de: Reprodução

Argo modernizou Betim

O X6H não foi apenas um projeto de automóvel. Ele fez parte de uma transformação da fábrica inaugurada pela Fiat em Betim em 1976.

A FCA havia acabado de construir em Goiana (PE) uma unidade ultramoderna para Jeep Renegade, Compass e Fiat Toro. A pioneira fábrica mineira precisava acompanhar esse salto tecnológico.

Interior 2018–20 Fiat Argo HGT (358) _2017–20

Interior do Argo HGT 

Foto de: Reprodução

Na época, a FCA na América Latina era comandada pelo engenheiro Stefan Ketter, que já havia passado por BMW, Audi e VW na Alemanha. Muito exigente quando o assunto era qualidade e manufatura, ele não economizava em processos industriais. Muitos métodos manuais foram robotizados com o que havia de melhor e mais moderno na Europa.

Foi um momento brilhante: mais de R$ 1 bilhão foram investidos no desenvolvimento do Argo. Considerando também a preparação industrial, há registros de aproximadamente R$ 1,5 bilhão. A FCA utilizou mais de 45 mil horas de simulações virtuais para estudar o processo de produção. Betim tinha na época cerca de 900 robôs, dos quais mais de 300 trabalhavam diretamente na fabricação do Argo.

Fiat Cronos (X6S), o sedã da linha

Fiat Cronos (X6S), o sedã da linha

Foto de: Reprodução

A família cresceu


O “H” de X6H também ajuda a contar outra parte dos bastidores: o hatch Argo havia sido concebido como integrante de uma família.

O X6S tornou-se o sedã Cronos, lançado no início de 2018 e produzido em Córdoba, na Argentina. Também estavam previstos a picape X6P e o utilitário esportivo X6U.

Fiat Pulse Drive Turbo 200 (X6U)

Fiat Pulse Drive Turbo 200 (X6U)

Foto de: Reprodução

A história da picape acabou tomando outro rumo. O projeto X6P original foi congelado e, quando reapareceu, já não tinha muito a ver com o plano inicial - tanto que seu código interno passou a ser 2810. Lançada em junho de 2020, a nova geração da Strada saiu mais próxima do Mobi que do Argo.

Já o projeto de SUV X6U tornou-se o Pulse (363), lançado em outubro de 2021. Mantiveram-se a célula de sobrevivência, as estampagens das portas e o formato do teto, mas com carroceria profundamente revista e estrutura reforçada, além de suspensões de nova geometria e direção elétrica específica. O resultado foi um carro cerca de 10 cm mais comprido, 5 cm mais largo e 7 cm mais alto que o Argo.

Fiat Argo HGT Opening Edition Mopar _2017

Fiat Argo HGT Opening Edition Mopar 2017

Foto de: Reprodução

Renascimento como carro de locadora

Quando desembarcou nas concessionárias em junho de 2017, o Argo custava entre R$ 46.800 e R$ 70.600 e condensava em um único produto boa parte das mudanças que aconteciam dentro da Fiat brasileira. Em seus primeiros anos, porém, ficou à sombra de Chevrolet Onix, Hyundai HB20 e Ford Ka.

A grande virada veio em 2021, quando alcançou 84.644 unidades e terminou como o segundo carro de passeio mais vendido do país, beneficiado pela crise de produção do Chevrolet Onix e pelo súbito fechamento da fábrica do Ford Ka.

Depois de uma retração em 2022 e 2023, o Argo encontrou uma inesperada segunda juventude. Já sem o 1.8 E.torQ e reposicionado como um compacto mais simples e racional, ganhou a opção 1.3 CVT e voltou a crescer: foram 91.139 unidades em 2024. No ano passado, com um recorde histórico de 102.630 unidades, o Argo superou os eternos rivais Onix e HB20.

Depois de nove anos no mercado, o Argo ainda vende em média 8 mil carros por mês (bem mais que aqueles 6 mil previstos inicialmente!), sem contar os 2.100 Cronos mensais. Boa parte desse desempenho, porém, vem das vendas diretas (73% dos emplacamentos até agosto de 2026), o que mostra como o hatch se tornou forte entre frotistas.

O que você pensa sobre isso?

De acordo com relatórios da ABLA (Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis), o Fiat Argo Drive hoje é o modelo mais emplacado do Brasil pelas locadoras.

E é esse o caminho que garantirá uma sobrevida ao velho hatch: a geração lançada aqui em 2017, e sem grandes modificações nesses anos todos, continuará em linha nas versões Argo Urban 1.0 manual e Argo Urban 1.3 CVT, bem voltadas para frotistas, com a chegada de um sucessor totalmente novo — o Argo X — dentro de algumas semanas.

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