Teste: GWM Ora 5 coloca a marca de vez na briga dos elétricos
Vale a pena encarar mais de 90 dias de espera pelo SUV elétrico?
Enquanto rivais diretos apostaram todas as fichas em compactos de entrada para eletrificar as ruas, a GWM escolheu o caminho da diversificação, apostando em híbridos maiores e mais caros e modelos a diesel robustos. Mas é com o GWM Ora 5 que a marca quer virar o jogo de vez no segmento elétrico.
Vendido por R$ 163.990, o Ora 5 chega com porte de Jeep Compass, visual que flerta com o universo de Stuttgart e uma lista de equipamentos que já virou obrigação entre os importados chineses. É a alternativa natural para quem flerta com os elétricos menores de R$ 150 mil, mas consegue esticar o orçamento para levar um carro maior, sem contar que mira direto nos donos de SUVs tradicionais a combustão. Mas afinal, estamos diante de uma revolução real ou de mais um produto sustentado puramente pelo hype?
Porsche Macan das massas?
Não sei quantas vezes ouvi que o Ora 5 lembra um Porsche Macan. Não posso discordar, principalmente quando pintado neste Electric Blue (uma clara referência ao Miami Blue da marca alemã) e pela dianteira com os faróis ovais e o formato do capô, uma herança do Ora 03, que também passou ao irmão maior as polêmicas lanternas integradas no vidro traseiro.
É diferentão nas ruas, como o próprio hatch, e as fotos não dão a real sobre seu tamanho. Com 4,47 m de comprimento, ele é pouco maior que um Jeep Compass (4,40 m), mas seu entre-eixos de 2,72 m é o mesmo de modelos como o Jetour S06 e pouco menor que o Jeep Commander (2,79 m), que nasceu para levar sete pessoas e já atua na faixa dos SUVs grandes.
Sob esse visual, há uma plataforma versátil. Por enquanto, o Ora 5 vendido no Brasil é puramente elétrico, equipado com um motor síncrono no eixo dianteiro que entrega 204 cv e 26,5 kgfm de torque. É alimentado por baterias LFP de 58,3 kWh úteis, aceitando recarga de até 120 kW em corrente contínua (DC) e 11 kW em corrente alternada (AC).
Ao volante: equilíbrio e fôlego convincente
Não temos o desempenho dinâmico de um Macan autêntico, mas o Ora 5 está longe de fazer feio. No uso diário, a entrega de torque é dócil e linear, mesmo no modo de condução mais focado em eficiência. Se você afundar o pé, os pneus chegam a destracionar, mas isso diz mais respeito ao composto ecológico escolhido que ao gerenciamento eletrônico do SUV. Não é um carro assustador de guiar; ao contrário, cumpre com sobra o que se espera no trânsito diário e deixa para trás muitos modelos a combustão tradicionais.
A eficiência energética é um dos pontos altos. Em nosso teste padrão, no modo Eco, registramos 7,3 km/kWh, o que garante um alcance real de 426 km com a bateria útil, mantendo o ar-condicionado ligado em trajeto misto. Na estrada, como boa parte dos elétricos deste porte, o consumo recuou para 6,5 km/kWh, mas ainda assegura uma autonomia de 379 km para rodar a 120 km/h sem drama e com a cabine climatizada.
Quando os 204 cv são exigidos a fundo no modo Sport, a telemetria não mente: o 0 a 100 km/h foi cumprido em 7,2 segundos, enquanto as retomadas de velocidade cravaram 4,8 segundos. Tudo isso de forma controlada, embora merecesse um jogo de pneus de melhor aderência para fechar o pacote.
Nesse quesito, a recarga faz diferença na prática: comparado aos hatches compactos, o Ora 5 leva vantagem na tomada DC de alta potência (120 kW), superando a média da categoria, que costuma estacionar abaixo de 100 kW. Entre os SUVs, empata com o Captiva EV, mas já na turma dos R$ 200 mil.
Dinâmica: acerto firme e direção comunicativa
A dinâmica do Ora 5 é elogiável. A direção tem bom peso, e a suspensão mais elevada cai como uma luva no piso castigado das cidades, resolvendo o calcanhar de Achilles dos hatches elétricos que raspam em qualquer valeta. Com arquitetura independente nos dois eixos, a calibração é firme, abandonando de vez o comportamento "molenga" de alguns rivais chineses do passado, mas sem sacrificar o conforto. Só há um batimento seco mais perceptível ao passar por buracos agudos, mas são exceções.
Até o tato do pedal de freio, problema histórico dos eletrificados, foi bem resolvido pela engenharia. Ele responde com progressividade e o conjunto torna a convivência agradável. Em dias de trânsito pesado, a atuação precisa dos assistentes de condução (ADAS) alivia bastante a fadiga do motorista.
Evolução real na cabine (mas com deslizes nas telas)
O interior mantém a identidade visual dos irmãos da linha Ora, mas evolui onde o 03 pecava. O acabamento agrada, especialmente nesta combinação com o interior claro e o charmoso padrão xadrez no painel e nas portas. Fica o alerta: o couro claro exige manutenção constante, inclusive no volante de dois raios e ótima empunhadura. Como o interior escuro abre mão do tecido xadrez, fica a sugestão para a GWM disponibilizar essa textura retrô também nos tons escuros.
Alguns comandos básicos foram mantidos em botões físicos, como o ajuste dos retrovisores. Porém, a mania irritante de esconder funções na central multimídia persiste: ajustes do modo de condução e até a cobertura do teto panorâmico exigem explorar em menus na tela. Pelo menos as teclas estilo aviação no console central poderiam ter absorvido esses atalhos, e o ar-condicionado ao menos ficou bem posicionado na base da tela de 14,6".
O sistema operacional CoffeeOS roda com fluidez e comandos intuitivos. O painel de instrumentos digital de 10,25" tem excelente resolução e entrega as informações vitais sem poluição visual. As atualizações OTA garantem longevidade ao sistema, complementadas pelo aplicativo remoto.
No espaço físico, o entre-eixos generoso faz a diferença frente aos hatches: bancos dianteiros confortáveis com ajustes elétricos, e um banco traseiro com espaço de sobra para pernas e ombros, beneficiado pelo assoalho totalmente plano e saídas de ar dedicadas. O porta-malas de 362 litros, contudo, fica mais próximo do território dos hatches do que de um SUV médio, embora traga tampa com acionamento elétrico.
Vale encarar a fila de espera?
Se você for a uma concessionária GWM hoje, é provável que encare uma fila de espera superior a 90 dias pelo Ora 5. A alta demanda e os gargalos de importação têm gerado certa frustração na rede, embora quem já recebeu o carro esteja elogiando (ou até revendendo acima da tabela).
Dá para entender o apelo. O Ora 5 entrega um acerto dinâmico maduro, boa eficiência energética, espaço interno de sobra e um pacote de segurança recheado. É um projeto global que não mira apenas o mercado chinês, pecando apenas na insistência de concentrar funções demais na central tátil.
Vale a pena entrar na fila se você busca um elétrico espaçoso, quer fugir dos hatches de entrada ou deseja migrar de um SUV a combustão para a eletrificação sem abrir mão de robustez. A grande dúvida é: o que acontecerá quando a GWM iniciar a produção nacional de versões híbridas do Ora 5, derrubando preços e destravando volume? Mas isso é conversa para os próximos capítulos.
Fotos: Mario Villaescusa (para o Motor1)/Teste: David Costa
GWM Ora 5 EV
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