Teste: Toyota Yaris Cross XRX 1.5 aposta na força da marca para vender
Versão sem eletrificação se apoia na tradição e preço, mas não lembra os irmãos
Em cada marca, já esperamos algumas características próprias, sem falar nas evoluções que cada geração de produtos recebem dentro de cada catálogo. Na Toyota, esperamos a qualidade já conhecida da marca japonesa, bastante experiente nos seus projetos, e o refinamento que vemos em Corolla, Corolla Cross, RAV4 e outros nomes.
A chegada do Yaris Cross finalmente colocou a Toyota na briga dos SUVs compactos. Segmento que tem uma grande fatia do mercado brasileiro, com clientes que exigem bastante tanto pelo preço quanto pela quantidade de opções que já estão nas lojas e até o que ainda está para chegar. Este é o Toyota Yaris Cross 1.5 XRX, a versão topo sem a eletrificação e que custa R$ 178.990. É um Toyota de verdade?
Uma base nada Toyota
Por anos, ficou o mistério sobre o primeiro SUV compacto da Toyota no Brasil, já que diversas opções existem ao redor do mundo, inclusive um Yaris Cross europeu. Ficamos com um projeto desenvolvido pela Daihatsu, marca hoje de propriedade da Toyota, apresentado pela primeira vez na Indonésia em 2023 e com foco em mercados emergentes.
Sua base é a DNGA-B, plataforma modular que não tem ligação com a TNGA da Toyota. Está pronta para a eletrificação e assistentes de condução, itens que encontramos no Yaris Cross produzido em Sorocaba (SP). Com 4.310 mm de comprimento, é pouco menor que o Honda WR-V (4.325 mm), e seu entre-eixos de 2.620 mm é pouco maior que o do HR-V (2.610 mm), mas menor que do T-Cross (2.651 mm), por exemplo.
Seu visual remete ao RAV4 da geração anterior. Nascido em 2023, trouxe um DNA que a Toyota está abandonando aos poucos globalmente e sentirá isso em um futuro próximo, quando for diferente dos demais modelos da marca dentro do showroom. Difícil é ignorar alguns gaps exagerados de carroceria, já observado em diversas unidades, em um carro de uma Toyota tão exigente com o nível de qualidade de seus modelos.
Ao mesmo tempo, é um carro sóbrio e discreto. Nesta versão, as rodas de 18" e o teto panorâmico (que não abre e tem uma barra estrutural central) são destaques sem apelar ao exagero, mas vale uma reclamação: a batida de porta é seca e parece que a estrutura é bem rígida, mas as portas não, dando uma sensação estranha em um carro, mais uma vez, produzido pela Toyota, sendo que nem Etios ou Yaris passavam essa impressão.
Por dentro, os sinais do tempo pegam mais do que por fora. O desenho geral do painel não impressiona, usa bastante plástico e não tem a tal qualidade esperada de um Toyota. Os comandos do ar-condicionado automático são bem simples, assim como os botões no geral, como a ausência do um-toque nos vidros além do motorista. Nesta versão, há uma mistura de materiais para melhorar isso, como o couro no painel e o acabamento todo em preto em teto e colunas.
A dupla de telas é outro ponto. No sistema multimídia, 10" com boa resolução instalada no topo do painel, espelhamentos sem fios e até carregador por indução. Contrasta com a tela de 7" configurável do painel de instrumentos, que não tem tão boa resolução, e acompanha o velocímetro digital com aparência simples. É até melhor na versão XR, com ponteiros e computador de bordo central.
Mais potente que o híbrido
A Toyota colocou no Yaris Cross e evolução do 1.5 aspirado que estava em Etios e Yaris. Segue com duplo comando variável e recebeu injeção direta, que resultou em 110/122 cv e 14,3/15,3 kgfm, números que ao menos são melhores que nas versões híbridas. O câmbio CVT simula 6 marchas e deixa a última em engrenagem física para melhoras consumo, arquitetura ao contrário do 10 marchas do Corolla/Corolla Cross 2.0.
Apesar dos detalhes de acabamento bastante simples, o Yaris Cross é um Toyota para dirigir? Bom, não como um Toyota. A suspensão é firme demais e incomoda como os eixos não se conversam em algumas situações, apesar da direção com bom peso e comunicação. Pode não ter a mesma plataforma do Corolla Cross, por exemplo, mas o conjunto está abaixo do esperado para a marca, mais uma vez, mesmo como um carro de entrada.
O motor 1.5 responde bem em baixas, apesar de aspirado, suficiente para o uso urbano. Os 11,8 segundos no nosso teste de 0 a 100 km/h não foge do que vemos nos 1.0 turbo concorrentes, por exemplo, mas o motor invade a cabine em acelerações mais fortes, com vibrações e acusticamente, uma falha do projeto que acabou ficando muito no custo e não se refinou tanto. Em viagens com carro carregado, por exemplo, essa potência menor vai ficar bem clara em ultrapassagens carregado. Vazio, já registrou retomadas na faixa dos 9 segundos em nosso teste e piora com peso.
Por outro lado, é um conjunto relativamente eficiente. Sem eletrificação, foram 11,5 km/litro na cidade e 16,5 km/litro na estrada, com gasolina, que ao menos compensa uma parte de não ser um motor tão potente. Como referência, o híbrido fez 16,6 km/litro na cidade e 15,3 km/litro na estrada, seguindo sempre nosso padrão de teste.
Por R$ 178.990, vale?
E como o Yaris Cross está vendendo tanto? O espaço interno é bom, mas não o mais amplo da categoria, com um bom banco traseiro, que recebeu saídas de ar-condicionado, e o porta-malas de 400 litros vai bem para quem tem uma família com crianças.
Seu pacote de equipamentos também é bom, com pacote ADAS bem completo, porta-malas com abertura elétrica, faróis e lanternas em LEDs, freio de estacionamento eletrônico com autohold, rodas de 18" e teto panorâmico como destaques. Nesta faixa, os concorrentes estão nas versões intermediárias e, em diversos casos, menos equipados que o Yaris Cross XRX.
Mas vale a pena? Se você espera (ou tem) um Toyota, vai sentir as diferenças de um projeto que não foi assinado totalmente pela empresa japonesa. Por outro lado, há a confiabilidade, rede grande, pós-vendas e revenda conhecidas e 10 anos de garantia, aspectos importantes que as marcas japonesas ainda estão dominando em nosso mercado.
No caso desta versão, já estamos em uma faixa de preço com clientes mais exigentes. Um XR ou até XRE parecem mais negócio no pacote geral, mas a quantidade de concorrentes pede aquela negociação na hora de fechar o negócio. E para um carro que demorou tantos anos para chegar, poderia ser melhor e, para isso, bastava ter mais...o DNA da Toyota.
Fotos: Mario Villaescusa (para o Motor1.com)/Teste: David Costa
Toyota Yaris Cross 1.5 CVT
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