Leapmotor B10 mostra maturidade e acerto acima da média
SUV elétrico de R$ 182 mil combina eficiência, bom desempenho e dirigibilidade equilibrada
O Leapmotor B10 chega ao Brasil em um momento em que a faixa dos R$ 180 mil já concentra algumas das opções mais relevantes entre os SUVs elétricos. É um segmento que deixou de ser de entrada, mas também ainda não chegou ao nível dos modelos médios mais refinados, um meio-termo onde eficiência, tecnologia e custo-benefício acabam falando mais alto.
Dentro desse cenário, o B10 deixa clara a sua proposta. Trata-se de um SUV elétrico médio, com 4,51 metros de comprimento, motor de 218 cv, tração traseira e bateria de 56,2 kWh. São medidas próximas às de um Jeep Compass, por exemplo, e um conjunto que, na teoria, o coloca exatamente no centro da disputa, olhando para rivais como BYD e GAC.
Mas será que o atual caçula da marca por aqui consegue se destacar em meio a tantas opções?
Antes de entrar no carro em si, vale olhar um pouco para a origem da Leapmotor, uma das marcas chinesas mais recentes a buscar expansão fora do seu mercado doméstico. Fundada em 2015, cresceu rapidamente apoiada no desenvolvimento próprio de tecnologias e em uma estratégia agressiva de eletrificação. Nos últimos anos, passou a mirar com mais força os mercados internacionais, e o B10 faz parte justamente dessa nova fase.
O modelo já nasceu com esse direcionamento. Diferente de alguns produtos mais voltados ao mercado interno chinês, ele foi concebido como um carro global, com proposta mais equilibrada e alinhada a mercados como Europa e, agora, América Latina.
No Brasil, a chegada acontece dentro de um movimento mais amplo, que envolve a parceria com a Stellantis para estrutura, distribuição e produção local nos próximos anos. Tudo isso ajuda a explicar por que o B10 surge como um dos modelos mais relevantes dessa nova fase da marca.
Design técnico
Talvez um dos pontos mais comentados, o visual do B10 não traz nada de muito novo. Aliás, há uma percepção recorrente de que os modelos da marca seguem uma linha muito próxima entre si, com diferenças mais ligadas ao porte do que a uma identidade visual claramente distinta.
É um caminho bastante comum dentro do que já vemos entre SUVs elétricos chineses mais recentes. As linhas são limpas, bem resolvidas e sem excessos, com superfícies suaves e uma dianteira que aposta mais na integração dos elementos do que em criar destaque isolado.
A assinatura de LEDs e os recortes da carroceria ajudam a dar um ar moderno ao conjunto, mas sem querer ser o centro das atenções. É um desenho que funciona, agrada com facilidade, mas dificilmente chama atenção à primeira vista.
Ao vivo, eu achei que passa uma sensação de robustez maior do que nas fotos, principalmente pelo bom equilíbrio de proporções. Os 4,51 metros de comprimento e o entre-eixos de 2,73 metros se traduzem em um porte bem distribuído, sem exageros visuais ou tentativas de parecer maior do que realmente é.
Ainda assim, falta um pouco de identidade própria. Em um segmento cada vez mais homogêneo, o B10 vai pelo caminho mais seguro, sem assumir riscos. Não é necessariamente um problema, especialmente considerando a proposta do carro, mas também não ajuda a criar uma conexão mais imediata. Só não deve ser o principal motivo de escolha para quem busca algo mais marcante, algo que alguns rivais conseguem entregar melhor, especialmente o GAC.
Mais funcional, menos emocional
Logo ao entrar no B10, a proposta já começa a ficar mais clara. O interior é bem funcional e segue uma linha minimalista, já bastante comum entre os elétricos mais recentes, com poucos comandos físicos e foco quase total na central multimídia: até aí nada de muito novo.
Mas temos boas notícias. A qualidade de construção agrada bastante e os materiais não chegam a ser sofisticados, mas ainda assim têm texturas bem desenhadas e montagem adequada, sem folgas, rebarbas ou plásticos baratos. É um acabamento simples, porém muito bem executado.
E aqui o B10 começa a manifestar sua personalidade: a central de 14,6 polegadas domina o ambiente e concentra praticamente todas as funções do carro. O sistema é rápido, intuitivo e fluído, o que ajuda bastante na convivência diária. O Android Auto sem fio funciona de forma estável, e a integração com o sistema do carro é simples, sem aquelas limitações, onde precisa ficar alternando entre sistemas para acessar funções do carro e do espelhamento.
Assim, funções básicas, como o ajuste do ar-condicionado, dos retrovisores e até da cortina do teto solar, dependem da tela. Não chega a comprometer, principalmente porque o sistema é bem resolvido, mas exige adaptação e nem sempre é a solução mais prática, especialmente em movimento.
O quadro de instrumentos, posicionado na coluna de direção, é um ponto positivo. Ele fica montado na própria coluna e se mantém sempre no campo de visão, independentemente do ajuste do volante, o que melhora a leitura e reduz a necessidade de desviar o olhar.
Mas nem tudo são flores. Um ponto que chama atenção é o uso de um cartão para destravamento e partida. A proposta é claramente trazer um ar mais tecnológico, mas na prática acaba sendo menos conveniente do que uma chave tradicional. É o tipo de solução que nem sempre melhora a experiência. Imagine retirar sacolas do porta-malas e ter que voltar para encostar o cartão no retrovisor e travar o carro. A Stellantis lembra que o aplicativo pode facilitar algumas tarefas, mas algo como uma chave presencial faria mais sentido.
Apesar da lista de equipamentos honesta, há também algumas ausências que aparecem no dia a dia, como o ajuste elétrico do banco do motorista e a abertura elétrica do porta-malas. Em contrapartida, o B10 traz teto solar panorâmico e um pacote completo de assistências, o que mantém as coisas equilibradas.
O bom aproveitamento das dimensões aparece logo de cara. Com 4,51 metros de comprimento e 2,73 metros de entre-eixos, o B10 acerta bem no equilíbrio entre espaço interno e praticidade no dia a dia.
Na frente, a posição de dirigir é confortável e sem aquela altura exagerada de alguns SUVs (ainda que não tenha ajuste elétrico). A sensação geral é de um carro que não exige adaptação: em poucos minutos, tudo já parece familiar.
No banco traseiro, há bom espaço para as pernas, com folga suficiente para acomodar adultos sem aperto, o que me surpreendeu pelo tamanho do carro. O assoalho praticamente plano também facilita a vida de quem vai no meio, algo já comum em elétricos.
E apesar do bom espaço na cabine, o porta-malas, com 365 litros, é um dos pontos que fica abaixo da média da categoria, principalmente quando comparado a modelos como o GAC Aion Y, que entrega mais volume e versatilidade.
Ainda assim, na prática, não chega a ser um limitador em muitos casos. Para famílias menores ou uso cotidiano, atende sem dificuldades, e o rebatimento dos bancos traseiros ajuda a ampliar a capacidade quando necessário.
Ao volante: equilíbrio é tudo
Logo nos primeiros metros, o B10 deixa clara a proposta de equilíbrio. A combinação de tração traseira, suspensão traseira multilink e distribuição de peso próxima de 50:50 resulta em um comportamento firme, direto e previsível. Passa confiança e não precisa ficar “brigando” com o carro para se manter na trajetória.
De modo geral, o objetivo não é causar impacto. O motor elétrico de 218 cv entrega respostas rápidas e progressivas, sem aquela sensação mais agressiva de alguns elétricos, mas com força para qualquer situação. Em nossos testes, o B10 acelerou de 0 a 100 km/h em 6,9 segundos, mais de um segundo abaixo do número oficial, e retomadas muito fortes, mostrando um desempenho com sobra para um SUV com essa proposta e faixa de preço.
Mas não é somente uma questão de desempenho. A suspensão é um dos pontos fortes, com ajuste mais firme que o padrão do que costumamos ver em elétricos chineses, mas ao mesmo tempo sem comprometer o conforto. O carro lida bem com imperfeições do asfalto, mantendo controle e estabilidade, sem aquela sensação mais “solta” que alguns concorrentes apresentam — a Stellantis fez um bom ajuste para o mercado brasileiro.
O volante tem boa pegada e acabamento, mas a direção, por outro lado, não se destaca pelo nível de comunicação. Falta um pouco mais de feedback, principalmente em condução mais rápida, mas isso não compromete o conjunto, principalmente se olharmos para a proposta.
No uso urbano, o B10 é fácil de dirigir, leve nas manobras e previsível nas respostas. Detalhe: os assistentes de condução atuam de forma discreta, sem incomodar ou “invadir” a condução do motorista. Em estrada, mantém o mesmo comportamento equilibrado, com boa estabilidade e sensação de segurança. E aqui, o isolamento acústico também cumpre bem o papel, com bom filtro de ruídos externos e de rodagem.
Na estrada, flui muito bem e mantém as boas qualidades dinâmicas, se destacando ainda, como já foi dito, pela autonomia que não foge muito do padrão na cidade. Isso é uma vantagem em viagens curtas para quem não quer parar para carregar tão cedo. E mesmo que isso seja necessário, ele te compensa com uma boa potência de recarga para a categoria, como veremos mais adiante.
Consumo, autonomia e recarga
Diferente do irmão C10, que usa uma bateria maior, o B10 traz um pacote com 56,2 kWh de capacidade bruta utilizando química LFP (fosfato de ferro-lítio), uma solução já bastante difundida por priorizar durabilidade e estabilidade térmica. Lá fora, há versões com a bateria maior, mas que por ora a Stellantis optou por não trazer ao Brasil.
Nos testes do Motor1.com, o consumo ficou em 6,3 km/kWh na cidade e 6,2 km/kWh na estrada, números bem próximos nas duas condições de uso. Na prática, isso se traduz em uma autonomia real na casa dos 340 km na cidade e pouco acima dos 320 km na estrada, valores plenamente plausíveis dentro do uso cotidiano. No entanto, em condições de topografia mais favoráveis, dá para superar os 350 km sem esforço.
Comparando com os principais rivais, o B10 é um SUV elétrico bem consistente. Na cidade, fica muito próximo do que o BYD Yuan Pro entrega, enquanto em rodovia consegue manter melhor eficiência, sem a queda mais acentuada que o modelo da BYD costuma apresentar, mostrando uma eficiência melhor desse conjunto em uso mais intenso, mas lembrando que o Yuan Pro tem uma bateria menor de 45 kWh.
Bem resolvido, o GAC Aion Y ainda leva vantagem em autonomia total, com números que podem chegar perto dos 400 km reais, mas a diferença não chega a mudar de forma decisiva a experiência de uso para a maioria dos cenários.
Na recarga, o B10 também se beneficia da arquitetura moderna. Em corrente alternada (AC), aceita até 11 kW, bem melhor que seus pares chineses, que não passam de 6,6 kW, o que permite uma recarga completa em algo entre 5 e 6 horas em condições ideais. Já em corrente contínua (DC), chega a 140 kW, com recarga de 10% a 80% em cerca de 17 a 20 minutos, também em um patamar muito acima de BYD e GAC, que não chegam a 80 kW.
A conta que fecha
Depois de alguns dias ao volante, inclusive com uma viagem curta ao interior de SP, o B10 foi conquistando aos poucos e se revelou um SUV elétrico competente. É fácil de dirigir, prático e tem um conjunto muito eficiente e equilibrado. Dinâmica e acerto de suspensão, mais bem adaptados ao Brasil, e tração traseira, contam pontos a favor.
Além disso, a relação entre eficiência e desempenho também fecha a conta. O B10 roda com desenvoltura e entrega autonomia real perto dos 340 km, com boa consistência entre cidade e estrada, outra vantagem.
Galeria: Teste - Leapmotor B10 (BR)
Por outro lado, o B10 não tenta ser o melhor em tudo. Como comparação rápida, o GAC Aion Y ainda sai na frente em espaço, capacidade e autonomia, enquanto o Leapmotor responde com um conjunto mais equilibrado, melhor dirigibilidade e uma estrutura de marca mais consolidada no Brasil, com o apoio da Stellantis e produção nacional já confirmada, o que tende a pesar mais na hora compra.
Mas nem por isso ele é perfeito. A dependência total da central multimídia exige adaptação, e o uso do cartão para acesso e partida está longe de ser a solução mais prática. Também há ausências pontuais de equipamentos que seriam esperadas nessa faixa.
Entre prós e contras, por R$ 182.990 o B10 se posiciona como um dos SUVs elétricos mais equilibrados do mercado hoje. Pode não ser o mais espaçoso, nem o mais chamativo, mas é, talvez, um dos mais bem resolvidos, e isso, no uso real, pesa bastante.
Leapmotor B10 BEV
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Teste: Ram Dakota Laramie 2026 é para quem não tem Ram
Mitsubishi mostra como será o Pajero de nova geração
Avaliação: VW T-Cross Extreme 2026 tem várias virtudes, mas preço já desafia a lógica do segmento
Fiat Strada dominante e dois VW no pódio: confira mais vendidos no final de maio
Teste: Novo Jeep Renegade 2027 híbrido melhora onde devia, mas eletrificação não faz milagres
Nova Toyota Hilux já está sendo vendida e produção na América Latina começa ainda em 2026
Teste: Geely EX5 EM-i 2026 tem consumo show na realidade contra os BYD Song Plus e Pro