Grupo Volkswagen: plano detalhado da marca quer ajuda do governo europeu contra chineses
Oliver Blume pede incentivos e mudanças nas regras ambientais para salvar competitividade do grupo
Pressionada pelo avanço das fabricantes chinesas, a Volkswagen quer ajuda da União Europeia para recuperar a competitividade, mas não quer desistir dos carros elétricos, mesmo reconhecendo que ainda é difícil produzi-los a preços acessíveis e com lucro. O recado veio de Oliver Blume, CEO global do grupo, que defendeu mais vantagens para veículos fabricados na Europa e mudanças nas regras ambientais, em meio à crise enfrentada pela companhia.
Durante um encontro com jornalistas realizado no último domingo (11/10), na véspera do Salão de Paris 2026, Blume apresentou o plano "For Europe" e deixou claro que a Volkswagen considera insuficiente apenas cortar custos e desenvolver novos produtos para enfrentar rivais como BYD e Leapmotor. A empresa quer que os governos europeus também participem dessa disputa, oferecendo incentivos à produção local e abrindo mão de parte do rigor na cobrança das metas de emissões, embora continue defendendo a eletrificação como principal caminho para o futuro.
Oliver Blume, CEO do Grupo Volkswagen, durante a apresentação do plano For Europe
Alemã quer elétricos baratos, mas contas não fecham
Uma das principais dificuldades reconhecidas por Blume é conseguir produzir carros elétricos pequenos, acessíveis e rentáveis dentro da Europa, onde os custos de fabricação e desenvolvimento dificultam a competição com modelos de fabricantes chinesas, algo especialmente importante para a Volkswagen hoje, que precisa vender grandes volumes de veículos relativamente baratos, justamente um dos segmentos em que as margens de lucro costumam ser menores.
"Nossos veículos precisam ser totalmente elétricos, genuinamente europeus e acessíveis ao mesmo tempo. O desafio não é alcançar um desses objetivos isoladamente, mas combinar os três", afirmou o executivo, defendendo que a indústria faça sua parte, mas também receba condições mais favoráveis para continuar produzindo no continente.
A tentativa de reduzir os custos já aparece na nova família de elétricos compactos do grupo, formada por Volkswagen ID. Polo e ID. Cross, Cupra Raval e Skoda Epiq. Os quatro modelos compartilham mais de 80% dos componentes e tecnologias, apesar de terem propostas e identidades diferentes, permitindo que a empresa dilua os investimentos em desenvolvimento e fabricação entre várias marcas.
Essa estratégia faz parte de uma reorganização mais ampla da companhia, que pretende simplificar processos e reduzir gastos para enfrentar a concorrência. Ainda assim, a Volkswagen argumenta que cortar custos por conta própria não será suficiente se as fabricantes europeias continuarem enfrentando condições diferentes das oferecidas a seus concorrentes em outros mercados.
VW ID.Polo é a grande aposta da marca contra os rivais chineses
Alemã quer mudar regras para escapar de multas bilionárias
Embora reafirme seu compromisso com os carros elétricos, Blume reconheceu que a transição não está acontecendo da maneira imaginada pela indústria, já que a procura dos consumidores, a infraestrutura de recarga e as condições econômicas variam bastante entre os países europeus. Para a Volkswagen, isso significa que as metas ambientais precisam continuar existindo, mas as fabricantes deveriam ter mais liberdade para cumpri-las.
Uma das propostas apresentadas pelo grupo permitiria contabilizar, entre 2030 e 2032, as vendas de elétricos realizadas em 2028 e 2029 que superassem as exigências previstas para aqueles anos. Na prática, a Volkswagen quer aproveitar um eventual desempenho acima das metas no fim desta década como uma espécie de crédito para os anos seguintes, reduzindo o risco de punições financeiras caso o mercado desacelere.
VW ID.Tiguan substituirá o atual ID.4
Blume argumenta que a mudança incentivaria as fabricantes a antecipar a comercialização de elétricos, mas a proposta também daria à indústria uma margem de segurança contra multas que poderiam chegar à casa dos bilhões de euros. Outro efeito seria diminuir a necessidade de acordos com fabricantes concorrentes, inclusive chinesas, para compensar as emissões das frotas vendidas na Europa.
A Volkswagen insiste que não está pedindo o abandono dos objetivos climáticos, mas quer alterar as condições para alcançá-los, numa tentativa de equilibrar os investimentos necessários à eletrificação com a pressão sobre seus resultados financeiros.
Responsabilidade também é dos governos, diz VW
A cobrança por apoio político vai além das regras ambientais, já que a Volkswagen também quer que a União Europeia ofereça vantagens aos veículos desenvolvidos e fabricados no continente. A proposta faz parte do conceito "Made in EU", que considera não apenas a origem das peças, mas também a pesquisa, a engenharia, a produção e os empregos gerados pelas fabricantes na região.
Para Blume, a Europa precisa valorizar sua própria indústria diante de países que já oferecem incentivos e políticas de apoio às montadoras locais, embora ele afirme que a intenção não é fechar o mercado aos concorrentes estrangeiros. Na prática, porém, a criação de benefícios específicos para veículos produzidos no continente poderia dificultar a concorrência para empresas que dependem de importações, incluindo diversas fabricantes chinesas.
Entre as medidas defendidas pela Volkswagen estão vantagens no cálculo das emissões para elétricos que atendam aos critérios de produção europeia e apoio temporário à fabricação de células de bateria. A companhia reconhece que ainda precisa da experiência de fornecedores asiáticos nesse setor, mas quer que as parcerias sejam acompanhadas de transferência de tecnologia e contribuam para reduzir a dependência industrial da Europa.
O Volkswagen ID.Every1 visto ao vivo
Volkswagen Mission Efficiency Concept
O discurso do executivo deixa clara a contradição enfrentada pela Volkswagen: enquanto a empresa defende mercados abertos e continua apostando nos elétricos, também pede mecanismos que protejam sua produção e reduzam os riscos financeiros da transição.
Resta saber se os novos modelos compactos e a redução de custos serão suficientes para recuperar a competitividade do grupo, especialmente porque as fabricantes chinesas não devem interromper sua expansão enquanto a indústria europeia tenta reorganizar suas operações.
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