Renault quer acelerar eletrificação no Brasil e aposta em parceria com Geely
Em entrevista ao Motor1.com em Paris, Ivan Segal, VP global de Vendas da Renault, explica os planos para o futuro fora da Europa
A Renault quer acelerar sua estratégia de eletrificação nos mercados internacionais, incluindo o Brasil, onde a parceria com a chinesa Geely terá papel importante na ampliação da oferta de veículos híbridos e elétricos. A estratégia foi detalhada por Ivan Segal, vice-presidente global de Vendas da Renault, durante uma entrevista ao Motor1.com Brasil no Salão do Automóvel de Paris (FRA).
O executivo reconheceu que a fabricante francesa está em um estágio mais avançado de eletrificação na Europa, onde aproximadamente dois em cada três veículos vendidos pela marca já são eletrificados. Questionado pelo Motor1.com Brasil sobre os fatores que impulsionaram essa transformação e como a experiência europeia poderá ser aplicada ao mercado brasileiro, Segal explicou que a estratégia global está baseada em duas tecnologias principais: híbridos plenos e veículos 100% elétricos.
“Há quatro anos, começamos a desenvolver na Europa o que chamamos de estratégia de duas frentes. Isso significa ter uma gama dedicada aos híbridos plenos e outra aos veículos 100% elétricos”, explicou o executivo.
Segundo Segal, essa decisão permitiu à Renault acompanhar o crescimento dos dois segmentos na Europa. Agora, a empresa pretende reproduzir a estratégia em outras regiões, respeitando as particularidades de cada mercado e as diferentes velocidades de adoção das novas tecnologias.
Renault reconhece atraso na eletrificação fora da Europa
O executivo admitiu que a expansão internacional da estratégia de eletrificação aconteceu mais lentamente do que o planejado. Durante a pandemia, a Renault concentrou seus investimentos e esforços comerciais no mercado europeu, deixando a ampliação da oferta de veículos eletrificados em outras regiões para uma segunda etapa.
“Estamos um pouco atrasados fora da Europa porque, durante a Covid, concentramos nossos esforços primeiro na Europa. Agora estamos na fase internacional e começamos a chegar com soluções híbridas plenas”, afirmou.
No Brasil, a parceria com a Geely será fundamental para acelerar essa transformação. A utilização de uma plataforma capaz de receber diferentes sistemas de propulsão permitirá à Renault desenvolver produtos adequados às características do mercado nacional, incluindo alternativas híbridas, elétricas e flex.
Segal explicou que a fabricante já trabalha no planejamento de sua futura gama brasileira a partir dessa estrutura industrial e tecnológica. A intenção é oferecer diferentes opções de motorização sem depender exclusivamente de projetos desenvolvidos para a Europa.
“No Brasil, estamos começando agora. Nossa parceria permite planejar uma gama com os sistemas de propulsão adequados, incluindo elétricos e também flex, que são necessários para o mercado brasileiro”, declarou.
Embora tenha reforçado o compromisso com a eletrificação, o executivo não estabeleceu prazos para a chegada de novos modelos nem detalhou quais tecnologias serão priorizadas nos próximos lançamentos nacionais.
Alta dos combustíveis acelera vendas de elétricos na Europa
Um dos pontos mais interessantes da entrevista foi a avaliação de Segal sobre a mudança no comportamento dos consumidores europeus. Segundo ele, a instabilidade no mercado internacional de petróleo e o aumento dos preços dos combustíveis estão acelerando a procura por veículos elétricos.
O executivo citou os efeitos da crise envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz como fatores que levaram consumidores a reconsiderar os custos de utilização de automóveis a combustão. A avaliação é que o cálculo econômico passou a favorecer os elétricos para uma parcela maior dos compradores.
Esse movimento também estaria provocando uma mudança no perfil dos clientes. De acordo com Segal, consumidores que tradicionalmente compravam veículos usados estão antecipando a troca de seus automóveis e migrando diretamente para modelos elétricos novos, atraídos pela perspectiva de menores despesas com energia.
“Temos na Europa um fenômeno de antecipação de compras. Pessoas que sempre compraram veículos usados estão entrando no mercado de carros novos. É algo que não acontece todos os dias, mas o choque do petróleo está provocando uma mudança muito rápida”, explicou.
A Renault afirma estar se beneficiando desse cenário. Segal destacou o desempenho comercial de modelos como Twingo, Renault 5 e Renault 4, além da renovação do Megane elétrico, que passa a contar com uma bateria de tecnologia LFP para melhorar sua competitividade.
Segundo os números apresentados pelo executivo durante a entrevista, as vendas de veículos 100% elétricos da Renault na Europa registram crescimento superior a 74%. O desempenho levou a fabricante a avaliar um aumento da capacidade de produção para acompanhar a demanda.
Parceria com a Geely será decisiva para o Brasil
A estratégia brasileira também está diretamente relacionada à necessidade de enfrentar a crescente concorrência das fabricantes chinesas. Para Segal, a competitividade de uma plataforma é determinante para o sucesso comercial, especialmente em mercados sensíveis ao preço, como o Brasil.
A parceria com a Geely oferece à Renault acesso a uma arquitetura que poderá sustentar diferentes categorias de veículos e sistemas de propulsão. Isso permite reduzir custos de desenvolvimento e ampliar as possibilidades de produtos, sem necessariamente compartilhar o mesmo desenho ou posicionamento comercial entre as duas marcas.
O executivo também deixou claro que a colaboração não significa simplesmente colocar o emblema da Renault em automóveis desenvolvidos pela Geely. A intenção é aproveitar componentes e plataformas comuns para criar produtos com identidade própria.
Essa flexibilidade será importante para a expansão da eletrificação no Brasil. Enquanto a Europa já conta com uma gama consolidada de híbridos plenos e elétricos, a operação brasileira poderá utilizar a parceria para desenvolver uma oferta mais alinhada às condições locais, incluindo a utilização de combustíveis flex.
A mensagem de Segal é que a Renault pretende levar sua estratégia de eletrificação para além da Europa, mas sem repetir exatamente o mesmo roteiro em todos os países. No Brasil, a combinação entre desenvolvimento local, competitividade de custos e parceria tecnológica com a Geely deverá determinar a velocidade dessa transformação.
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