Jaguar Type 01: depois de muita polêmica, modelo elétrico é finalmente revelado
Com 1.030 cv, três motores e 720 km de autonomia, eis o primeiro modelo da nova era da marca britânica
Poucos carros chegaram ao mercado cercados de tanta polêmica antes mesmo de serem conhecidos. Em novembro de 2024, a Jaguar resolveu apagar seu longo passado, apresentou uma nova identidade visual e lançou uma campanha publicitária sem mostrar um único automóvel. Dias depois, o extravagante conceito Type 00, pintado de rosa fosco, deixou claro que a marca pretendia romper com tudo o que havia feito até então.
Vieram críticas, memes e discussões sobre a decisão de abandonar os modelos tradicionais para subir de patamar no mercado de luxo. Agora, quase dois anos depois, finalmente é possível julgar a estratégia pelo que realmente interessa: um carro de produção. A Jaguar revelou em Nova York o Type 01, GT elétrico de quatro portas que inaugura sua nova geração de modelos e começará a chegar aos clientes em 2027.
São 5,24 metros de comprimento, 3,20 m de entre-eixos e apenas 1,40 m de altura, com capô desproporcionalmente longo, cabine recuada, rodas de até 23 polegadas e traseira sem vidro. A visão para trás fica por conta de uma câmera instalada no teto.
O estilo leva ao extremo proporções pouco comuns em um carro elétrico. O balanço dianteiro é curto, mas há nada menos que 898 mm entre o centro da roda dianteira e o início da porta — 17% do comprimento total, proporção quase idêntica à do E-Type. O enorme capô praticamente horizontal e a cabine recuada reforçam a aparência de um clássico grand tourer de motor dianteiro, mesmo que não haja um grande motor a combustão escondido ali.
As superfícies, por outro lado, têm poucos vincos e detalhes. Na frente, quatro faróis de LED muito finos ficam nas extremidades da carroceria e ajudam a acentuar os dois metros de largura. Não há grade propriamente dita, mas uma série de elementos horizontais cria uma referência visual a ela. O mesmo tema reaparece na traseira, onde as lanternas ficam escondidas entre lâminas horizontais e só se revelam quando acesas.
Apesar da ruptura visual, a Jaguar cita dois carros de seu passado como referências para as proporções do novo modelo: o E-Type e, principalmente, o XJS, que em 1975 também causou celeuma ao substituir o esportivo mais famoso da marca.
O Type 01 foi desenvolvido pela equipe de design então comandada por Gerry McGovern, principal responsável pela controversa reinvenção visual da Jaguar, enquanto o desenho exterior ficou a cargo de Constantin Varga. McGovern deixou a JLR em março deste ano, antes de ver o carro chegar à produção.
Um dos maiores desafios foi transformar as formas imaginadas pelos designers em componentes que pudessem ser produzidos em série. A enorme peça de alumínio que forma a lateral traseira reúne cinco planos e três vincos que convergem num mesmo ponto. Batizada internamente de “Impossible Panel”, exigiu cerca de 1.500 horas de desenvolvimento e é estampada em seis etapas.
A carroceria incomum trouxe outro problema: não havia uma plataforma elétrica existente capaz de acomodá-la. Os engenheiros chegaram a procurar uma arquitetura de outro fabricante que pudesse servir como base, mas nenhuma se enquadrava nas medidas do projeto.
A solução foi desenvolver tudo do zero. Nasceu assim a JEA (Jaguar Electric Architecture), plataforma de alumínio exclusiva da nova geração da marca. Seu desenvolvimento faz parte de um programa de cerca de £ 2,25 bilhões (R$ 14,9 bilhões) e gerou mais de 360 pedidos de patente.
Até a bateria precisou fugir da receita usual dos elétricos atuais. Em vez de simplesmente formar uma grande placa sob o piso, no conhecido arranjo “skateboard”, suas células são distribuídas de maneira a abrir espaço para que os quatro ocupantes se sentem mais perto do chão.
Segundo os engenheiros da Jaguar, uma bateria convencional sob o assoalho acrescentaria 20 cm à altura do carro e tornaria impossível manter as proporções imaginadas pelos designers.
O conjunto de baterias é dividido em cinco módulos e usa mil células de apenas 120 mm de altura. Espaços que normalmente seriam ocupados pelo escapamento em um carro a combustão também foram aproveitados para acomodar componentes elétricos.
O resultado não é leve: o carro pesa perto de 2,9 toneladas. Em compensação, a integração entre bateria e estrutura permitiu chegar a uma distribuição de peso de 50:50 entre os eixos e ao baixo centro de gravidade pretendido pelos engenheiros.
O mais potente dos Jaguar de série
O Type 01 é o Jaguar de produção mais potente já construído. São até 1.030 cv gerados por três motores elétricos, com tração integral e vetorização de torque.
Há um motor dianteiro, de 353 cv, e dois traseiros independentes, de 421 cv cada. A soma das potências máximas nominais dos três chega a 1.195 cv, mas a potência máxima combinada do conjunto é limitada aos 1.030 cv pelo gerenciamento do sistema e pela capacidade de fornecimento de energia da bateria.
Em velocidade constante, o Type 01 pode rodar apenas com o motor dianteiro para economizar energia; os traseiros entram em ação quando é necessária maior aceleração.
A Jaguar anuncia o 0 a 100 km/h em 3,2 segundos. Para os engenheiros, porém, outro número representa melhor a proposta de um GT capaz de manter desempenho elevado por longos períodos: de 100 a 180 km/h, a aceleração leva apenas quatro segundos.
A suspensão também foi criada especificamente para o modelo. Há braços sobrepostos na dianteira, multilink na traseira, molas pneumáticas de duas câmaras e amortecedores ativos. O Type 01 também tem esterçamento nas quatro rodas e, apesar dos 5,24 m de um para-choque ao outro, a Jaguar afirma ter conseguido um diâmetro de giro comparável ao de um Volkswagen Golf.
Míssil de longo alcance
A arquitetura elétrica trabalha com até 850 volts e alimenta uma bateria de 118 kWh, que admite recarga rápida em corrente contínua a 350 kW. A Jaguar fala em até 720 km de autonomia (WLTP) e jura que é possível recuperar aproximadamente 321 km em apenas 13 minutos numa estação capaz de fornecer a potência necessária.
A aerodinâmica teve papel importante para conseguir esses números sem sacrificar as proporções. O coeficiente de arrasto é de 0,23, o menor já registrado em um Jaguar de produção.
Há elementos ativos para reduzir a resistência ao ar ou aumentar a refrigeração quando necessário. Aletas dianteiras controlam a passagem de ar para bateria e freios, enquanto um aerofólio traseiro retrátil pode assumir três posições e gerar até 75 kg de carga aerodinâmica.
Sem cheiro de couro e madeira
Por dentro, a ruptura com o passado é igualmente evidente. A cabine é cortada longitudinalmente por uma estrutura central que separa os quatro lugares individuais. Materiais tradicionais da marca, como grandes superfícies de madeira e couro, dão espaço a tecidos, metais e materiais alternativos. Antes, de olhos vendados, era possível reconhecer um Jaguar pelo característico cheiro de couro e madeira. Provavelmente, não será mais assim.
Na falta de vigia, o Type 01 não traz um retrovisor interno convencional. Em seu lugar, uma tela do sistema ClearSight Rear View exibe as imagens da traseira e fica integrada à barra panorâmica instalada na base do para-brisa. A Jaguar posicionou o display na mesma altura dos retrovisores externos.
A instrumentação é predominantemente digital, mas a Jaguar evitou instalar simplesmente uma tela enorme no centro do painel. Um pequeno display de sete polegadas no console reúne funções de climatização e entretenimento.
Na base do para-brisa há uma barra de som desenvolvida pela Meridian, complementada por outros alto-falantes e cancelamento ativo de ruído. A nova arquitetura eletrônica também reduziu em cerca de um quilômetro a quantidade de fiação em comparação com Jaguars anteriores e diminuiu em 40% o número de unidades eletrônicas de controle.
A marca de Coventry passou anos tentando enfrentar BMW, Mercedes-Benz e Audi no mercado premium tradicional, muitas vezes com produtos tecnicamente competitivos, mas sem alcançar os volumes necessários. A estratégia agora é abandonar essa disputa e subir vários degraus, ocupando um espaço entre os modelos mais caros das marcas alemãs e fabricantes como Bentley.
No Reino Unido, estima-se que o preço inicial será de aproximadamente £ 120 mil (R$ 790 mil na conversão direta), enquanto unidades bem equipadas deverão ficar próximas de £ 150 mil (R$ 990 mil) e configurações personalizadas poderão ultrapassar £ 200 mil (R$ 1,32 milhão). As encomendas serão abertas no início de 2027 e as primeiras entregas estão previstas para meados do ano. Mais tarde, outros dois modelos baseados na plataforma JEA deverão ampliar a nova família.
O célebre designer industrial Raymond Loewy, que ajudou a revolucionar o estilo dos carros da Studebaker, formulou nos anos 1950 o princípio MAYA, sigla para Most Advanced Yet Acceptable: um produto deveria ser tão avançado quanto possível, mas permanecer dentro dos limites do que o público estava preparado para aceitar. Mais de 70 anos depois, a Jaguar parece disposta a testar exatamente onde fica essa fronteira.
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Novo VW ID. Tiguan vai a 600 km e substitui o ID.4 que acabou de chegar ao Brasil
Enquanto Brasil espera, Renault já tem Duster híbrido de 29 km/l na Índia
Novo BMW iX4 2027 mantém visual de cupê mas agora roda até 828 km
Eletrificados em setembro: Geely EX2 perde espaço e Jeep Avenger aparece no pódio
Novo Honda WR-V ganha itens de carro de luxo e tem até ventilação no banco de trás
Nissan Frontier Pro: picape híbrida chinesa estreia no México e mira o Brasil
Grupo VW volta a investir nos híbridos HEV: novidade da vez é o Skoda Octavia