Ir para o conteúdo principal

Citroën prepara volta do 2CV como elétrico de baixo custo

Marca levará conceito ao Salão de Paris de olho em nova faixa de entrada

Citroën Revolte, conceito de 2009
Foto de: Divulgação

Após anos de rumores, avanços e recuos, a Citroën decidiu levar adiante o renascimento de um de seus modelos mais emblemáticos. O ultra popular 2CV (1948-1990) voltará à cena como carro elétrico e já tem apresentação prevista: um conceito será revelado no próximo Salão de Paris, em outubro.

Segundo o site britânico “Auto Express”, o CEO Xavier Chardon deu sinal verde ao desenvolvimento do carro e já programou sua estreia, alinhando o lançamento ao avanço de novas regulamentações da União Europeia que incentivam a produção de compactos elétricos mais acessíveis.

Galeria: Renault 5 E-Tech elétrico (2024) em teste

Essa guinada estratégica não ocorre por acaso. O bom desempenho comercial do Renault 5 E-Tech, que já supera 120 mil pedidos, e a expectativa em torno do novo Twingo indicam uma demanda crescente por compactos elétricos com identidade histórica.

O projeto está sob o comando do diretor de design Pierre Leclercq. Sua ideia é transportar para os dias atuais os princípios que nortearam o 2CV original — extrema simplicidade construtiva, baixo custo, conforto e praticidade — reinterpretando-os dentro das exigências modernas de eletrificação e mobilidade. Trata-se de atualizar o conceito de “quatro rodas sob um guarda-chuva”, lançado em 1948, sem que o novo carro seja um pastiche do antigo.

Alguns elementos clássicos estão em discussão, como o tradicional teto de enrolar em lona, um dos maiores charmes do 2CV original. Sua adoção dependerá de limitações estruturais da nova arquitetura. De qualquer forma, a proposta não é recorrer a soluções caricatas, mas adotar uma abordagem neo-retrô com referências discretas (em 2009, a Citroën já tentou algo parecido com o conceito Revolte, que não foi adiante).

Citroën 2CV Hermès

Citroën 2CV Hermès

Foto de: Divulgação

“Se você pensar no 2CV como um carro barato para áreas rurais, é fundamental preservar sua filosofia e seus valores. Se for possível reinterpretá-los em um carro atual, então vamos em frente”, disse Leclercq ao site britânico.

Agora, a base escolhida é uma evolução da plataforma “Smart Car” (SCP), já presente nos atuais C3 e C3 Aircross, além do Fiat Grande Panda europeu e do futuro Argo nacional. Essa arquitetura foi pensada para reduzir custos e permitir diferentes tipos de motorização.

Engenheiros avaliam até onde a SCP pode ser simplificada para dar origem a um veículo posicionado abaixo do C3 e acima do pequenino Ami, que sequer é considerado automóvel pela Citroën, mas sim uma “solução de mobilidade”. O objetivo é ocupar a faixa próxima dos 20 mil euros (R$ 120 mil), hoje ainda pouco explorada pelos elétricos europeus.

Embora a Citroën não divulgue especificações, projetos equivalentes trabalham com baterias próximas de 27,5 kWh, autonomia ao redor de 260 km e motores elétricos de cerca de 80 cv. A proposta, portanto, deve priorizar leveza, eficiência energética e custo reduzido, deixando o desempenho em segundo plano, exatamente como ocorria no 2CV original.

A estratégia também passa pela cadeia de fornecimento. A Stellantis já anunciou uma joint venture com a chinesa CATL para produzir baterias na Espanha a partir de 2026, o que pode ajudar a reduzir custos e atender às exigências europeias de conteúdo local.

Se o cronograma for seguido, o conceito servirá de base para um modelo de produção a ser lançado até o fim da década — possivelmente no Salão de Paris de 2028, marcando os 80 anos da estreia do 2CV original na mesma exposição.

Galeria: A volta do Citroën 2CV

“Kei car europeu”

A União Europeia discute um pacote regulatório que pode reformular o papel dos carros elétricos urbanos. O plano prevê a criação da categoria M1E, específica para veículos compactos, leves e mais acessíveis — um produto de massa, próximo ao conceito de “kei car europeu”. https://motor1.uol.com.br/news/772148/plano-europa-carros-eletricos-baratos/

No centro da proposta “Small Affordable Cars Initiative” (Iniciativa de Carros Pequenos Acessíveis) está a criação de uma categoria específica para elétricos de até 4,2 metros de comprimento e 1,5 tonelada, com exigências mais flexíveis que as dos automóveis convencionais.

Entre as medidas em estudo estão simplificações regulatórias, incluindo trechos das normas de segurança e exigências ligadas ao pacote de impacto ambiental Euro 7, que acabam elevando custos de engenharia mesmo em veículos elétricos.

A ideia é cortar gastos de engenharia e produção, algo essencial diante da pressão dos elétricos chineses e da dificuldade das marcas europeias em oferecer modelos realmente acessíveis. Aplicar nos subcompactos urbanos os mesmos níveis de exigência dos carros maiores tem inviabilizado o segmento.

O pacote também prevê vantagens no uso dos pequenos elétricos, como acesso facilitado a estacionamento, zonas restritas e infraestrutura de recarga. A proposta reforça o papel desses modelos como solução prática para centros congestionados, em linha com o conceito que sustenta os kei cars no Japão.

Citroën 2CV eletrificado com kit R-FIT (foto de digulgação) c

Citroën 2CV eletrificado com kit R-FIT (foto de digulgação) c

Foto de: Divulgação

Retrofit de 2CV já é comum na Europa

Enquanto o novo Citroën 2CV BEV não vem, muitos europeus já vêm convertendo seus velhos Deux Chevaux, modelo que se presta bem à eletrificação por ser extremamente leve (575 kg). Esse tipo de transformação — chamada de retrofit — vem se tornando tão popular que há diversos kits prontos no mercado.

A ideia é retirar o motor a gasolina (boxer de dois cilindros, refrigerado a ar) e instalar o novo conjunto elétrico. Os puristas não precisam se preocupar: essas soluções permitem reverter totalmente o carro às condições originais quando o proprietário bem entender.

O kit mais conhecido para o clássico é o R-FIT, desenvolvido pela MCC Automotive para o 2CV Méhari Club Cassis, que mantém uma parceria histórica com a Citroën. Foi a primeira solução de retrofit homologada oficialmente na França.

Citroën 2CV eletrificado com kit R-FIT (foto de digulgação)

Citroën 2CV eletrificado com kit R-FIT (foto de digulgação)

Foto de: Divulgação

O conjunto utiliza um motor síncrono de 20 kW (27 cv), potência semelhante à do boxer original de 602 cm³, mas com torque instantâneo que melhora a resposta no uso urbano. A bateria de lítio-ferro-fosfato (LFP) tem 10,2 kWh e garante autonomia de apenas 90 km no ciclo WLTP.


O que você pensa sobre isso?

A recarga pode ser feita em tomada doméstica de 220 V, com tempo de 0 a 100% em aproximadamente 3h30. O motor elétrico trabalha acoplado ao câmbio do carro, preservando a característica alavanca “cabo de guarda-chuva” sob o painel. Na prática, porém, é possível rodar a maior parte do tempo em terceira marcha graças ao torque constante do motor elétrico. A instalação leva cerca de 20 horas e inclui montagem das baterias (sob o banco traseiro ou no porta-malas), novo painel e sistema de gerenciamento eletrônico.

O R-FIT não é vendido como kit “faça você mesmo”: a instalação obrigatória em centros autorizados faz parte da homologação, garantindo que o carro convertido possa ser legalizado como elétrico. E o pacote não é barato: custa cerca de 14 mil euros (R$ 84 mil), já com peças, bateria e mão de obra. Em países como a França, incentivos públicos podem reduzir esse valor em até 5 mil euros.

Compartilhe este artigo
Envie seu flagra! flagra@motor1.com