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Análise: estamos assistindo à volta das minivans?

Conceito Citroën ELO desafia febre dos SUVs e prova que utilitários focados em linhas contínuas e conforto podem ditar novas tendências

A minivan volta a desenhar o espaço
Foto de: Motor1 Italia visual (AI-assisted)

Há algumas décadas, quem buscava algo ainda mais versátil do que um sedã ou uma perua tinha como escolha óbvia as minivans. Elas nasceram de um conceito quase oposto ao de um cupê: primeiro define-se o espaço necessário para pessoas e bagagens, para depois desenhar uma carroceria contínua ao redor, sem divisões claras entre capô, cabine e traseira.

Esse tipo de veículo não precisa parecer esportivo, agressivo ou mais alto do que o necessário. Sua principal virtude vem da capacidade de transformar cada centímetro externo em área útil na cabine - fazendo da praticidade o ponto central de todo o design.

 

Desenhada de dentro para fora

A Citroën ELO Concept, apresentada em 2025, é um dos exemplos mais recentes a deixar esse princípio evidente de imediato. Com rodas próximas aos extremos da carroceria, para-brisa avançado, laterais quase verticais e ampla área envidraçada, o protótipo constrói um volume compacto em que as linhas parecem envolver diretamente os ocupantes.

O capô e o balanço dianteiro não ficam em destaque, e a traseira não forma um volume separado. Tudo converge para uma silhueta contínua, quase como uma sala móvel, onde a posição de dirigir central e os bancos reconfiguráveis passam a ditar a forma externa do carro.

Fiat 600 Multipla (1956-1967)

Para criar o Fiat 600 Multipla, Dante Giacosa teve a intuição de engenharia de posicionar os bancos dianteiros sobre as rodas, criando uma minivan com frente plana e traseira em forma de gota, que abrigava motor e tração, como no 600.

Foto de: Fiat
Renault Espace I (1984-1990)

Em um clima de grande fantasia de design, o Renault Espace I de 1984 redefiniu o conceito de multiespaço, com um carro de volume único e um habitáculo confortável, espaçoso e bem equipado, distante da ideia de veículo comercial, mas mais espaçoso do que qualquer automóvel disponível no catálogo

Foto de: Renault

Antes do estilo vem o espaço

A Fiat 600 Multipla, projetada por Dante Giacosa, já antecipava essa proposta em 1956 ao trazer cabine avançada, três fileiras de bancos e máximo aproveitamento do comprimento. A forma podia parecer inusitada para a época, mas era a consequência direta do espaço interno exigido - conceito que hoje volta ao debate com o projeto da Fiat Multiplina.

Anos mais tarde, a primeira geração da Renault Espace transformou essa lógica em um modelo ideal para longas viagens. O projeto trazia volume único, grandes vidros, bancos individuais e formato quase arquitetônico, sendo capaz de tornar comercialmente atraente um conceito que até então era restrito aos furgões de carga.

<p>Fiat Multiplina</p>

Fiat Multiplina

Foto de: Fiat

Quando a minivan vira automóvel

Modelos como Xsara Picasso e C4 Picasso - e mais tarde a C4 Spacetourer - provaram que as minivans podiam ser práticas sem parecerem necessariamente veículos comerciais. O para-brisa bastante inclinado, o teto em arco, as superfícies suaves e os vidros generosos transformavam o espaço interno em um elemento reconhecível também pelo lado de fora.

Citroen Xsara Picasso, fotos históricas

De alguma forma, a linha Citroen ficou sem um modelo como a minivan média, da categoria do primeiro Citroen Xsara Picasso, símbolo perfeito do habitáculo-ovo, símbolo de acolhimento, proteção e gestão dos espaços

Fiat Multipla

Poucos carros tiveram reações tão contrastantes ao design quanto o Fiat Multipla, que hoje, porém, é reconhecido por todos como um objeto de design bem-sucedido e coerente, com uma das melhores formas automobilísticas para acomodar seis passageiros e bagagens de modo confortável e prático

A polêmica Fiat Multipla de 1998, criada por Roberto Giolito, seguiu por um caminho ainda mais radical. Com seis lugares divididos em duas fileiras, o modelo exibia uma carroceria visualmente dividida em duas faixas. O projeto não buscava proporções esportivas, focando totalmente na largura e na liberdade de movimento a bordo.

Após a recepção fria do público ao visual exótico, a reestilização suavizou as linhas ousadas, dando à minivan um aspecto de "Fiat Idea tamanho GG". Apesar disso, a primeira série do modelo era extremamente coerente com o conceito original de minivans.

Citroen Berlingo 2024

A atual Citroen Berlingo é a herdeira da primeira série que inaugurou o multiespaço moderno: não um automóvel com uma caçamba adicionada, mas um projeto único, prático e facilmente transformável também em veículo de trabalho.

Hyundai Staria

Em uma época de SUVs, surpreendeu a chegada da Hyundai Staria, que retomou a forma um pouco abandonada da minivan em formato de gota, uma grande viajante de estrada capaz de acomodar muitos passageiros sem ser um ônibus e com o conforto de um automóvel.

Do utilitário à grande viajante

Hoje, parte dessa versatilidade sobrevive nas chamadas multivans derivadas de veículos comerciais, como as irmãs Citroën Berlingo, Peugeot Rifter e Fiat Doblò. Elas são racionais e espaçosas, mas a origem profissional ainda se faz notar nas proporções verticais, na simplicidade das superfícies e em certas concessões de acabamento.

Por outro lado, a Hyundai Staria prova que um veículo de grande volume pode se tornar um ícone de estilo. O para-brisa bastante inclinado, a assinatura luminosa em barra de LED e as janelas contínuas aliviam o peso visual, transformando um modelo de 5,20 metros de comprimento em uma minivan de aspecto futurista.

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Espaço pode voltar a ser desejável

As minivans não precisam simular esportividade e dispensam os apliques plásticos ou a musculatura visual típica dos SUVs. A personalidade desses modelos vem da continuidade da linha do teto, da cabine iluminada e da correspondência imediata entre o formato externo e o espaço disponível a bordo.

A Citroën ELO aponta para uma nova fronteira. Não se trata apenas de um retorno nostálgico ao jeitão da Picasso, mas sim de propor um carro compacto, altamente transformável e desenhado genuinamente ao redor da comodidade das pessoas dentro dela. Após anos de carrocerias que prometem apenas espírito aventureiro, a modernidade pode voltar a ser definida pelo espaço real.

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