E-Days: Geely acelera produção nacional e encurta caminho entre China e Brasil
Ariel Montenegro, Presidente da Renault Geely do Brasil, explica com foi traçada a estratégia da Geely desde o primeiro dia
Nos últimos anos, o mercado brasileiro recebeu diversas marcas. Algumas desembarcaram apostando em preços agressivos e muitas ainda trabalham para conquistar a confiança de um consumidor que já viu diversas fabricantes chegarem e partirem. A Geely decidiu ser diferente. Em vez de tratar o Brasil apenas como destino para veículos importados, a empresa já avança em produção nacional, desenvolvimento industrial e transferência de tecnologia. Esse foi o principal tema da conversa que tive com Ariel Montenegro, presidente da Renault Geely do Brasil, durante o primeiro dia do E-Days 2026.
Logo no início do painel, a discussão caminhou para uma dúvida que acompanha praticamente toda nova operação automotiva no país: afinal, o Brasil é apenas um mercado consumidor ou ocupa um papel estratégico dentro da expansão global da Geely? Ariel deixou claro que a resposta nunca esteve condicionada ao desempenho comercial dos primeiros modelos. Segundo ele, a industrialização sempre fez parte da estratégia da companhia para o mercado brasileiro.
Ariel Montenegro, Presidente da Renault Geely do Brasil, e Fábio Trindade no E-Days 2026
“Desde o começo, a estratégia de industrialização e de localização das tecnologias esteve presente.”
A declaração ajuda a entender uma diferença importante em relação a outras operações recentes. Enquanto muitas fabricantes iniciam suas atividades avaliando o comportamento do mercado antes de anunciar investimentos mais robustos, a Geely desenhou sua chegada ao Brasil já prevendo uma segunda etapa baseada em produção local. A parceria com a Renault foi decisiva nesse processo. Mais do que compartilhar uma fábrica, ela permitiu acelerar acesso à rede de concessionárias, pós-venda, logística e fornecedores, reduzindo o tempo necessário para estruturar uma operação nacional.
Ariel Montenegro, Presidente da Renault Geely do Brasil, no E-Days 2026
Essa estratégia começa a sair do papel ainda este ano. Ariel confirmou que a fábrica de São José dos Pinhais (PR), que recebeu investimentos para adaptação à plataforma modular GEA, iniciará a produção do EX5 EM-i no segundo semestre. O EX2, inicialmente previsto para uma etapa posterior da operação, também teve seu cronograma antecipado em função da resposta do mercado brasileiro.
“Estamos começando a produção já do EX5 EM-i, que vai ser o primeiro carro produzido em Curitiba a partir do segundo semestre, e o EX2 a partir do final do ano.”
A antecipação da produção local tem um significado que vai além da redução de custos ou da nacionalização dos veículos. Ela sinaliza um compromisso de longo prazo com o mercado brasileiro em um momento em que a indústria discute justamente o equilíbrio entre importação e fortalecimento da cadeia produtiva nacional. Produzir localmente significa desenvolver fornecedores, gerar empregos, ampliar conteúdo nacional e criar condições para tornar a operação mais competitiva no futuro.
Ariel Montenegro, Presidente da Renault Geely do Brasil, no E-Days 2026
Ao longo da conversa, outro tema chamou atenção. Nos últimos anos, a indústria chinesa passou a lançar novos produtos em um ritmo que obrigou fabricantes tradicionais a reverem seus próprios processos de desenvolvimento. Questionei Ariel sobre essa velocidade e de onde ela realmente vem. A resposta mostra que a vantagem competitiva está muito menos no carro em si do que na forma como ele é desenvolvido.
“A indústria automotiva levava quatro anos desde que o produto saía do papel até chegar às lojas. Hoje esse ciclo se cortou à metade.”
Reduzir pela metade o tempo de desenvolvimento significa muito mais do que lançar carros com maior frequência. Permite incorporar novas tecnologias com rapidez, responder às mudanças do mercado quase em tempo real e reduzir custos de engenharia ao longo do processo. É justamente esse modelo que ajudou a transformar as fabricantes chinesas em protagonistas da atual transição da indústria automotiva.
Essa velocidade está diretamente ligada ao avanço do software e da inteligência artificial embarcada. Ariel explicou que a Geely desenvolve sistemas capazes de interpretar padrões de condução, otimizar o gerenciamento de energia e receber atualizações remotas ao longo da vida útil do veículo. O automóvel deixa de ser um produto estático para se tornar uma plataforma tecnológica em constante evolução, conceito que vem redefinindo a forma como os fabricantes pensam seus próximos lançamentos.
Ariel Montenegro destacou a modernidade do Complexo Ayrton Senna, São José dos Pinhais - PR
Outro ponto pouco conhecido pelo consumidor brasileiro é o nível de digitalização da fábrica paranaense. Segundo Ariel, a unidade é hoje a única operação automotiva do país reconhecida pelo World Economic Forum como uma referência em Indústria 4.0. O reconhecimento leva em conta processos altamente automatizados, integração digital da produção e uso intensivo de dados para aumentar eficiência e qualidade. Mais do que um selo de prestígio, esse reconhecimento ajuda a explicar por que a Geely escolheu justamente essa estrutura para iniciar sua produção nacional.
A operação brasileira também foi desenhada para olhar além das fronteiras nacionais. Ariel explicou que, depois da consolidação da produção local, a expectativa é utilizar o Brasil como plataforma para abastecer outros mercados da América Latina, aproveitando a experiência exportadora construída pela Renault ao longo das últimas décadas. Trata-se de uma estratégia que reforça a importância do país dentro da operação global da companhia e amplia o potencial de escala da fábrica paranaense.
“A Geely está enxergando o Brasil com um olhar de médio e longo prazo.”
A frase resume bem a mensagem deixada durante o painel. O mercado ainda acompanhará, nos próximos anos, a capacidade da Geely de consolidar sua participação em um setor cada vez mais competitivo. Mas uma conclusão já pode ser tirada. A empresa não estruturou sua chegada ao Brasil apenas para vender veículos importados. Ela desenhou uma operação industrial completa, capaz de produzir, desenvolver tecnologia e crescer junto com o mercado brasileiro. Em um momento em que tantas fabricantes ainda procuram seu espaço, talvez essa seja a principal diferença da estratégia adotada pela Geely.
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