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Passat TS, 50 anos: quatro faróis redondos que acenderam desejos

Numa época de esportivos de mentirinha, a VW lançou uma versão braba de verdade

Passat TS 1976
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Para quem não viveu aqueles tempos, é difícil imaginar o quanto o lançamento do Passat foi revolucionário para a Volkswagen do Brasil. Até junho de 1974, todos os carros da marca feitos no país tinham motor traseiro refrigerado a ar. Em suas propagandas, a empresa justificava essa característica e fazia questão de ressaltar que “ar não ferve”.

Mas a tecnologia avançou. Com a chegada dos sistemas de radiador selado, os motores com refrigeração a água já não superaqueciam tanto e se mostravam cada vez mais superiores. Além disso, a tendência de adotar tração dianteira se firmava.

Chegou um momento em que a gigante alemã não teve mais como escapar. Sua primeira experiência em tração dianteira foi com o modelo K 70, lançado na Europa em 1970. O carro era derivado de um sedã da fábrica NSU (comprada no ano anterior pelo Grupo Volkswagen AG). Não teve sucesso, mas representou um passo importante.

A essa altura, a Volks também já era dona da Audi — e, a partir desse ponto, a história do Passat começa para valer...

Lançado na Alemanha em 1973 o Passat chegou ao Brasil menos de um ano depois

Lançado na Alemanha em 1973 o Passat chegou ao Brasil menos de um ano depois

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Um dos carros da marca das quatro argolas era o Audi 80, um moderno e elegante sedã médio que estreou no mercado europeu em 1972. O carro tinha motor longitudinal, com quatro cilindros em linha e comando no cabeçote, suspensão dianteira do tipo McPherson e traseira por eixo de torção.

O sedã Audi 80 agradou tanto na Europa que decidiram fazer também uma versão hatch — esta, contudo, seria vendida nas concessionárias Volkswagen. O estilista italiano Giorgetto Giugiaro modificou a traseira da carroceria, a grade do radiador recebeu o escudinho VW e assim nasceu, em 1973, o Passat. Seu nome vinha de um vento equatorial.

Passat TS 1976 - primeiro ano da versão no Brasil

Passat TS 1976 - primeiro ano da versão no Brasil

Foto de: Redação Motor1 Brasil

A nova era no Brasil

Eram tempos de transformações tecnológicas — e, já no ano seguinte, o Passat começou a ser fabricado também no Brasil. Trazia, inicialmente, motor 1.5 de 78 cv brutos e estreou em duas versões: L (a mais simples) e LS (com tapetes melhores, painel mais completo e bancos reclináveis forrados de tecido sintético).

O Passat custava apenas 10% a mais do que o TL, o outro hatch médio da Volkswagen. Significava, porém, um gigantesco salto tecnológico.

Pelo mesmo preço de um Ford Corcel, a Volks oferecia aos brasileiros o que tinha de mais novo na Alemanha. E mais: o Passat era um carro gostoso de dirigir, muito estável e seguro para os padrões da época. Tinha pneus radiais, coluna de direção retrátil para o caso de batida e cintos de três pontos — um equipamento para o qual ninguém dava a mínima naquele tempo...

Outro avanço em segurança eram os freios com circuito duplo, na diagonal (se houvesse problema em um dos circuitos, o outro continuava freando a roda dianteira direita e a traseira esquerda, por exemplo). E, pela primeira vez, um carro nacional tinha geometria de suspensão com raio de rolagem negativo, algo que facilita o controle do carro em situações-limite.

Passat TS 1973 alemão - quatro portas (1) (1)

Passat TS 1973 alemão - quatro portas 

Foto de: Redação Motor1 Brasil

A vez do TS

Em janeiro de 1976, para a felicidade dos playboys brasileiros, a Volks anunciou orgulhosamente o lançamento da versão esportiva TS (que já existia na Alemanha). Agora, essa história está para completar meio século.

As diferenças visuais estavam na cara: o Passat de briga trazia quatro faróis redondos (em vez de apenas dois). Em torno da grade, havia um friso cromado. As laterais ostentavam faixas pretas com as letras TS, sigla de Touring Sport, subindo pelas colunas C. Os para-choques eram protegidos por um borrachão, e as rodas eram largas, calçadas por pneus radiais 175/70 R13, superiores aos 155/80 R13 das versões normais (vale lembrar que, na época, perfil 70 era considerado “perfil baixo”).

Passat TS 1976 (2)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Por dentro, mais novidades, a começar pelo volantão de três raios de metal. Era lindo, com boa pega, mas o diâmetro era grande demais para um esportivo. Os bancos dianteiros eram anatômicos e, quem pagasse à parte, recebia encostos de cabeça (coisa rara por aqui naquele tempo).

O painel era bem completo, com um pequeno conta-giros à frente do motorista. O TS ganhou também um console central com relógio, voltímetro e medidor de pressão do óleo. Havia ainda um compartimento para o garotão instalar um toca-fitas e ouvir um som da pesada (o rádio Bosch original só sintonizava AM).

Mas o que fazia do Passat TS um esportivo de verdade (e não um “me engana que eu gosto”, como o Chevrolet Chevette GP, lançado no mesmo mês) eram as alterações na parte mecânica.

O interior dos primeiros TS

O interior dos primeiros TS

Foto de: Redação Motor1 Brasil

A cilindrada do TS era maior que a dos Passat comuns, passando de 1.471 cm³ para 1.588 cm³. A taxa de compressão subiu e o carburador simples deu lugar a um de corpo duplo. Havia ainda um escapamento mais sofisticado. Com tudo isso, a potência pulou para 96 cv brutos (o que daria uns 82 cv pela norma ABNT, hoje utilizada no Brasil).

Aos olhos de hoje, parece pouco. Mas, em 1976, tal vigor impressionava. Era o suficiente para fazer o TS acelerar de 0 a 100 km/h em 13 segundos e alcançar a máxima de 158 km/h — para comparação, as marcas de um Passat normal eram, respectivamente, 18 segundos e 145 km/h. Vale dizer que o carro era bem leve para os padrões atuais, pesando apenas 902 kg.

Passat TS 1976 - interior

Passat TS 1976 - interior

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Em desempenho, o esportivo da Volks dava um banho nos rivais Chevette GP e Ford Corcel GT. E não faria feio se fosse desafiado por carrões como Chevrolet Opala, Ford Maverick e Dodge Dart, de seis ou oito cilindros. Mesmo com todo o veneno, o consumo mudou pouco. Eram tempos de crise do petróleo.

Falando em economia, o TS de 1976 custava Cr$ 53 mil — ou 16% a mais do que um Passat L básico. Uma pechincha. Na época, o Opala SS 4.1 custava Cr$ 72 mil, o Maverick GT saía por Cr$ 77 mil e o Charger R/T era vendido por Cr$ 97 mil. Outro sonho de consumo da época era o Puma GTE, por Cr$ 68 mil.

Um TS de 1977-1978 exposto em evento de carros antigos (1)

Um TS de 1977-1978 exposto em evento de carros antigos 

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Bom de curva, não de câmbio

Em ação, o TS mostrava as ótimas qualidades de estabilidade de qualquer Passat, bem como a direção levinha. E havia os tradicionais problemas do modelo: câmbio com engates imprecisos e suspensão que fazia barulho e transmitia vibrações.

O esportivo fez sucesso e não demorou a receber as primeiras modificações. No modelo 1977, as decorativas faixas pretas desceram para a parte inferior das laterais. O acabamento interno passou a ser monocromático, todo preto.

O mecanismo da troca de marchas foi modificado para ficar mais preciso. Como efeito colateral, seu acionamento ficou duro.

O discreto TS 1979-1982

O discreto TS 1979-1982

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Facelift tirou a graça

Chegou 1979 e... que pena: mudaram a frente do carro. Os quatro faróis redondinhos, maior charme do TS, foram trocados por dois retangulares, adotados também no restante da linha Passat.

As faixas pretas ficaram fininhas e foram escondidas na base dos vidros laterais. Com essas alterações, o esportivo ficou com um visual comum demais — era difícil identificá-lo à primeira vista.

Ao menos o volante foi trocado por um de menor diâmetro, com quatro raios, aro emborrachado e ótima empunhadura, com o lobinho e o castelo de Wolfsburg em seu miolo. Também muito bom era o rádio Bosch 253, agora com FM. Outra novidade foi a opção de acabamento interior bege, em vez de sempre preto. A parte mecânica não foi alterada.

O ótimo volante que chegou em 1979

O ótimo volante que chegou em 1979

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Já sem tanto apelo, a versão TS foi aposentada em 1982. No ano seguinte, a Volks mudou novamente a dianteira de toda a linha Passat, que passou a trazer quatro faróis retangulares — e o motor 1.6 passou a ser o padrão da gama.

Numa época em que a VW do Brasil se destacava nas exportações, nosso TS teve direito a uma prorrogação em mercados estrangeiros, onde recebeu algumas configurações exclusivas. Para a Nigéria, por exemplo, havia um TS de quatro portas (combinação que nunca existiu aqui), já com os quatro faróis quadrados dos últimos Passat brasileiros. Lembrava o “Iraque”, mas tinha para-choques de metal (em vez de plástico envolvente) e aerofólio.

Passat GTS Pointer

Passat GTS Pointer

Foto de: Redação Motor1 Brasil

O que você pensa sobre isso?

Por fim, criaram uma última versão esportiva do Passat para o Brasil: o GTS, lançado em 1983 e rebatizado de GTS Pointer em 1984. Tinha motor 1.8 (99 cv, agora pela norma ABNT) do Gol GT, bancos Recaro, câmbio de cinco marchas e rodas Avus, hoje mais conhecidas como “snowflake”. Como opcionais, havia até ar-condicionado e teto solar - curiosamente, era preciso escolher um ou outro, nunca os dois juntos! 

Acelerava de 0 a 100 km/h em 10s9 e alcançava a máxima de 169 km/h, números excelentes para a época. Mas, a essa altura, o Passat já vendia pouco e enfrentava modelos mais novos, como o Chevrolet Monza. Em 1988, sua produção foi encerrada.

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