Opinião: no balanço do Festival Interlagos, as vencedoras foram as chinesas
Das 32 marcas presentes, 14 eram chinesas, enquanto gigantes tradicionais ficaram de fora ou levaram poucas novidades
O Festival Interlagos vem se consolidando como um evento que combina experiência e exposição em um ambiente que atrai pessoas por um único motivo: a possibilidade de dirigir na pista do Autódromo de Interlagos. Neste ano, o espaço virou palco de uma verdadeira ofensiva chinesa. Das 32 marcas presentes, 14 eram da China.
Só entre as estreias, Interlagos deu as boas-vindas à BAIC, DFM, iCaur e IM, divisão premium da MG. Algumas chegaram falando abertamente em produção nacional no médio prazo, outras já mirando segmentos de volume ocupados hoje com sucesso por nomes como BYD Dolphin Mini e Geely EX2. Houve ainda espaço de sobra para SUVs grandes, elétricos de alto desempenho e marcas premium, mostrando como a desconfiança que cercava os carros chineses até o começo desta década já perdeu boa parte da força.
BYD Mako resume bem a nova fase das chinesas
A BYD talvez tenha dado o exemplo mais claro dessa mudança de perfil tanto dos produtos quanto do próprio gosto do consumidor. Depois de muito antecipar sua primeira picape intermediária, a chinesa resolveu não só mostrar um protótipo bem mais próximo do modelo final como o deixou à disposição de quem quisesse experimentá-lo na pista.
Com produção confirmada em Camaçari (BA), a Mako é um projeto pensado especialmente para o mercado brasileiro. Terá cerca de 5 metros de comprimento e porte próximo ao da Fiat Toro, da Ram Rampage e da futura Volkswagen Tukan, justamente um dos segmentos em que as chinesas ainda têm pouca presença por aqui. A expectativa é de preços entre R$ 180 mil e R$ 200 mil.
Seu principal diferencial estará na eletrificação. O protótipo apresentado foi desenvolvido sobre a base do Song Prol, compartilhando com ele o conjunto híbrido plug-in flex, formado pelo motor 1.5 aspirado e por um propulsor elétrico. A estimativa é de cerca de 100 km de autonomia em modo elétrico, colocando a Mako como a primeira PHEV entre as picapes intermediárias vendidas no Brasil.
Hoje, a Fiat Toro já oferece eletrificação, mas com um sistema híbrido leve. A Ford Maverick Hybrid, por sua vez, usa um conjunto HEV, sem recarga externa, além de trabalhar com volumes bem menores. A BYD pretende entrar no meio dessa disputa com uma picape eletrificada, produzida no Brasil e pensada para um tipo de consumidor que ela já sabe que existe por aqui.
Volkswagen Tukan 2027
A aposta da marca foi grande o bastante para render até uma provocação - ainda que velada - à Volkswagen Tukan. Apresentada dias antes na Festa do Peão de Barretos (SP), a futura picape da alemã apareceu sem camuflagem pela primeira vez usando justamente o Amarelo Canário como sua cor de lançamento.
A BYD respondeu levando a Mako também vestida de amarelo e, mesmo ainda camuflada, deu a cara a tapa ao público ao deixá-la à disposição de quem quisesse conhecer o carro de perto e dar uma voltinha com ela na pista.
BAIC fez sua primeira apresentação ao público
Anunciada pelo Motor1.com Brasil durante o E-Days, em junho, a BAIC fez em Interlagos sua primeira apresentação oficial no país. Os Arcfox T1 e T5, dois elétricos que abrirão a operação brasileira, foram mostrados ao público antes do início das vendas, previsto para novembro.
O T1 será o modelo de entrada, disputando espaço com BYD Dolphin, Geely EX2, GAC Aion UT e MG4 Urban. Acima dele estará o T5, um SUV médio com arquitetura de 800 volts e recarga de até 230 kW. Preços e configurações para o Brasil ainda não foram anunciados.
Até 2028, a BAIC pretende ter cinco SUVs, quatro crossovers e uma picape no país, totalizando dez modelos. A chinesa também fala em produção nacional e quer transformar o Brasil em sua maior operação fora da China. A meta é aparecer entre as cinco marcas mais vendidas do país até 2030.
VW e Chevrolet perderam oportunidade de exposição
Embora a disputa pela disputa por mercado já tenha mudado o ranking de marcas, as até então chamadas “quatro grandes”, apenas Fiat e Ford estavam presentes em Interlagos. A italiana chegou acompanhada por boa parte das marcas da Stellantis, enquanto a norte-americana apostou justamente no que faz melhor hoje no Brasil, levando produtos de imagem e alto valor agregado como Mustang e F-150 Raptor.
A Volkswagen concentrou boa parte de seus esforços na Festa do Peão de Barretos, onde investiu pesado para ser a única patrocinadora automotiva. A escolha faz sentido para uma marca que vende Amarok justamente ao público agro e quer crescer entre as picapes, mas não impedia uma participação em Interlagos poucos dias depois.
Uma unidade camuflada da nova Amarok provavelmente seria o centro das atenções no autódromo. Golf GTI, Jetta GLI e até o novo Tiguan poderiam fazer muito bonito na pista, enquanto a Tukan chamaria a atenção até de forma estática. Em vez disso, a Volkswagen deixou essa exposição para marcas que ainda estão construindo nome e confiança no país.
A Chevrolet também tinha o que levar sem necessariamente fazer um lançamento. Dentre as opções, poderia levar seus elétricos, caso de Spark EUV e Captiva EV, ou até um protótipo físico da versão híbrida plug-in do SUV médio, confirmada pela marca durante o mesmo período do evento. Pela GM, ainda poderia colocar estaticamente os futuros Cadillacs para que o público pudesse, ao menos, sentir a imponência da marca.
Stellantis fez a lição de casa
Das 32 marcas presentes, boa parte delas estava sob um mesmo guarda-chuva, o conglomerado Stellantis. Não conhece? É a companhia responsável por marcas como Fiat, Jeep, Ram e Peugeot, apenas para citar algumas, e que não economizou em espaço e ativações no evento, tal como faz também no Salão do Automóvel.
O grupo levou boa parte de seu portfólio e colocou ao menos uma novidade, versão ou série especial de cada marca diante do público. Os grandes lançamentos previstos para os próximos meses, no entanto, ficaram de fora, mas a Stellantis se mostrou esforçada e fez a lição de casa.
Projeção | Fiat Argo X 2027
A francesa Peugeot contou com uma edição personalizada do hatch 208, focada no mundo do rali. Totalmente modificada, conta com motor, suspensão e preparação próprios.
Comemorando 50 anos de fábrica no país, a Fiat está nos "finalmentes" para lançar a nova geração do seu hatch compacto, batizada de Argo X. Derivado do Grande Panda, ele será a grande novidade da marca ainda em 2026, marcando o começo de uma nova família e de vários lançamentos que a italiana terá até o fim da década.
Em vez disso, quem ocupou boa parte do espaço foi a Abarth - com uma série especial do Pulse - e uma leve mostra de seu acervo histórico, com um já clássico Stilo Schumacher exibido no Salão do Automóvel de 2004, um Palio de rali e uma Marea Weekend preparada para as pistas.
Ao menos, o grupo aproveitou a ocasião para dar foco à norte-americana Jeep. Com participação menor nos últimos anos, coube ao Avenger, novo SUV de entrada, mostrar que a empresa está correndo atrás do volume perdido e sabe reagir às demandas do mercado. Foi lá a primeira apresentação do modelo ao público, que só o tinha visto até então por matérias e conteúdos on-line.
Novatas também apostaram no luxo
Eventos automotivos costumam ser muito esperados pelo público como uma grande oportunidade de ver esportivos caros, raros e difíceis de encontrar nas ruas, mas a edição deste ano pode ter sido um verdadeiro banho de água fria para quem esperava uma presença forte das marcas tradicionais de alto luxo e desempenho.
Audi e Mercedes-Benz, por exemplo, ficaram de fora, ainda que alguns espaços menores, como o da Dream Car, tenham repetido a receita do Salão do Automóvel do ano passado e levado alguns bólidos já conhecidos do público.
Entre premiums alemãs, BMW foi uma das únicas
Quem aproveitou a ausência foram novamente as chinesas. A DFM, nome adotado pela DongFeng por aqui, ainda nem começou a vender oficialmente seus carros no Brasil, mas colocou à prova parte de sua linha de modelos off-road de luxo para quem quisesse experimentá-los. Enquanto isso, a britânica MG, hoje controlada pelo grupo chinês SAIC, usou Interlagos para apresentar a IM, sua divisão premium.
MG IM6 2027 em Interlagos (SP)
O primeiro representante da divisão será o IM6, um SUV cupê elétrico luxuoso e carregado de tecnologia que ainda levará algum tempo para chegar às lojas, mas já estava disponível para o público conhecer de perto.
A aposta deixa claro até onde as novatas estão dispostas a ir, não limitando-se só a disputar apenas o consumidor que procura um elétrico ou híbrido acessível, mas olhando também para quem está com a cabeça e o bolso abertos a gastar algumas centenas de milhares de reais em um carro de imagem.
Chinesas aproveitaram todas as oportunidades
Geely EX2 Street e Track
No fim das contas, foram as fabricantes chinesas que melhor aproveitaram Interlagos. Elas já não estão limitadas a colocar um SUV ou elétrico barato no estande esperando a curiosidade do público, mas falando em produção nacional, desenvolvendo produtos especificamente para o Brasil, entrando em segmentos de volume e, ao mesmo tempo, tentando conquistar até um consumidor entusiasta que historicamente torce o nariz para carros vindos da China.
A Geely foi um bom exemplo disso. O EX2, que já se consolidou entre os elétricos mais vendidos do país, apareceu em uma versão conceitual preparada para drift, algo completamente distante da proposta racional e urbana do modelo vendido nas lojas.
Não vai existir um EX2 daquele jeito nas concessionárias, mas colocar o hatch andando de lado em Interlagos certamente ajudou a quebrar um pouco aquela imagem de produto da linha branca associada aos modelos 100% a bateria e, quem sabe, até converter alguns haters no processo.
Some a isso novas marcas, promessa de produção local, elétricos de entrada, SUVs grandes e até uma ofensiva no mercado premium, e fica claro que boa parte dessas empresas já passou da fase de simplesmente testar a receptividade do brasileiro. Elas querem vender em volume e ocupar os espaços que encontrarem.
Talvez as fabricantes tradicionais estejam certas ao escolher com cuidado onde gastar dinheiro e exposição, até porque várias delas ainda vendem centenas de milhares de carros por ano e têm uma estrutura que as novatas levarão bastante tempo para construir.
Mas Interlagos também mostrou o risco desse conforto. Enquanto algumas decidiram não ir, outras foram com pouco produto novo ou concentraram esforços em carros de imagem, as chinesas aproveitaram praticamente cada oportunidade que apareceu. Em tempos de consumidor cada vez menos preso à marca, esse conforto pode virar uma cilada no médio a longo prazo. É esperar para ver.
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