Chegamos ao pico da potência, e agora?
As empresas vêm testando cada vez mais o limite de potência em carros mundanos; com isso, próximo passo pode ser apelar para menos
Há não muitos anos, mais de 100 cv em um carro mundano era tratado como algo hiper especial. Hot hatches, sedãs e peruas apostavam nos maiores motores disponíveis na gama de seus fabricantes, geralmente colocados nas menores carrocerias possíveis. Era o equilíbrio entre potência e peso - algo divertidíssimo quando bem feito.
Tomando os EUA como exemplo, hoje, nenhum carro 0km é vendido com menos de 100 cv. Também não é algo incomum - e isso se estende ao Brasil - SUVs elétricos e híbridos dirigidos essencialmente por mães a caminho de um shopping ou escola com potências dignas de Lamborghinis ou Ferraris até os anos 1980. É o que se chama de acessibilidade da potência.
Mas, agora que a cavalaria alta pode estar em literalmente qualquer coisa, para onde iremos? Uma análise feita pelo Motor1 dos EUA com dados da EPA (agência ambiental de lá) mostra que os carros novos estão cerca de 15% mais potentes do que há uma década. A potência média subiu aproximadamente 35 cv no período. Desde 2006, esse aumento chega a 26%, com um acréscimo médio de 55 cv por veículo.
Caminho livre
Para alguns, a resposta é simples: mais força. Pegue a maior bateria ou motor a combustão que encontrar e garanta que ele será maior do que a do seu vizinho quando estiver falando sobre ele em uma mesa de bar. Até pouco tempo, no entanto, isso não era tão fácil.
Desde o recorde de 100 cv da francesa Darracq em 1904, a humanidade levou um século para atingir os 1.000 cv em escala comercial. Mas, uma vez que chegamos lá, as comportas se abriram.
Em apenas 20 anos desde o Bugatti Veyron original, a potência dos hipercarros dobrou - ou até triplicou. A Lotus (da Geely) foi a primeira grande marca a atingir 2.000 cv com o Evija. Já o Yangwang U9 Ultra, da BYD, ostenta absurdos 3.000 cv. Para muitas startups, adicionar o máximo de potência virou a solução padrão para ganhar destaque.
No entanto, há um preço. O Yangwang U9, por exemplo, pesa cerca de 2.477 kg - o mesmo que uma picape média moderna. O Rimac Nevera, de 1.914 cv, também não é leve, com seus 2.313 kg.
Longbow Speedster Concept
A física como aliada
É aqui que entram empresas como a Caterham e a startup britânica Longbow. A primeira apresentou o Project V, um elétrico de apenas 1.190 kg e 272 cv. A segunda, liderada por Daniel Davey (ex-Tesla e Lucid), quer criar o segmento dos FEV (Featherlight EV), com veículos abaixo de uma tonelada.
"Todos os ingredientes que você precisa para entregar um veículo elétrico leve estão aí", afirma Davey. "É uma questão de progressão de escopo. Se você tem um motor de 600 cv, precisa de mais arrefecimento e mais rigidez torcional - tudo no carro precisa crescer para suportar esse número. Se você reduz a potência, tudo fica mais leve. Você precisa de menos refrigeração e baterias menores. É apenas uma questão de dizer 'isso é o suficiente'."
Caterham Project V Concept
Davey resgata o mantra de Colin Chapman: ser leve torna o carro mais rápido em todos os lugares. "A engenharia necessária para compensar o peso e a potência não é necessária se o carro for leve. Se o veículo é pesado, ele tenta 'escapar' da curva."
Se for leve, não. A física para você em somente 40% da distância de um carro pesado. A 'armamentização' da potência adiciona peso, e aí você precisa fazer coisas para compensar a física, como melhorar os freios. "Removê-lo significa que a física está controlada."
O mercado está saturado?
Mate Rimac afirmou que os compradores já não se interessam pela potência estratosférica dos carros da Rimac. Christian von Koenigsegg disse que o apetite por esses modelos é "extremamente baixo". Até a Chevrolet declarou que não fará um Corvette elétrico agora por não acreditar que exista mercado.
Não faltam formas de criar carros mais potentes; faltam motivos. Com o excesso de peso e a complexidade eletrônica, o foco em leveza e simplificação faz todo o sentido para a próxima geração. Em um mundo onde adicionar potência é fácil, a contensão se torna o verdadeiro desafio de engenharia.
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