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Opinião: o que está rolando com a Jaguar?

Teriam os britânicos exagerado no marketing? Analisamos a situação da Jaguar e como ela pode reagir

Chegando de perto com o Jaguar Type 00
Foto de: Jaguar

A Jaguar sempre foi lembrada como uma marca de muita história e também muito luxo, mas não necessariamente do tipo que busca holofotes. Quase uma Volvo britânica pensada para agradar o público old money que prefere discrição.

Esse charme contido funcionou por décadas enquanto rivais apostavam em performance, design extravagante e tecnologia, como Porsche, BMW M e Mercedes-AMG. O problema é que discrição não paga contas em um mercado em transformação. Sem produtos novos, o apelo esvaziou. Nos últimos anos, a linha foi encolhendo, envelhecendo e morrendo aos poucos, sem sucessores à vista.

A resposta da marca veio no ano passado com o Type 00 Concept. Era para marcar uma nova fase totalmente elétrica, ainda mais exclusiva e sofisticada. Só que a divulgação parecia teaser de coleção da semana de moda, com muitas cores berrantes, modelos desfilando e quase nada de carro. Difícil evitar a sensação de que a Jaguar tentava vender lifestyle antes de vender produto. Para quem sempre associou a marca ao ronco grave de seus motores, o vídeo soou como abandono de identidade. E nem é preciso dizer que donos antigos ficaram revoltados.

Enquanto o marketing olhava para um horizonte pomposo e fashion, o portfólio real encolhia até quase desaparecer. Hoje, a Jaguar vive basicamente só de F-Pace, que já se aproxima de uma década de mercado. O F-Type saiu, o XF saiu, o XE saiu. O elétrico I-Pace, que deveria simbolizar o futuro, virou raridade ou virou frota de robô-táxi, dependendo de onde você mora. Concessionária nenhuma sustenta showroom apenas com banners.

A justificativa oficial foi a migração definitiva para powertrains elétricos. No papel, parecia condizente com metas ambientais europeias. Na prática, significou vendas quase zeradas em 2025 porque não havia produto para entregar. O colapso lembrou crises anteriores, como o período pré-Ford nos anos 1980, quando a Jaguar também chegou perto do abismo antes de ser resgatada.

Em meio à travessia, rumores fortes sobre a demissão do chefe de design Gerry McGovern se espalharam rapidamente. Fizemos, inclusive, uma nota sobre o assunto aqui no Motor1.com. Após alguns dias de silêncio constrangedor, a marca negou à imprensa a informação. A dúvida pública, porém, reforçou a percepção de falta de comando.

JLR Design Boss Gerry McGovern

Gerry McGovern

Foto de: Jaguar

Vale lembrar que McGovern ajudou a reposicionar a Land Rover e modernizar o Defender, algo que parecia impossível há poucos anos. Ainda assim, ao terceirizar parte da estratégia de branding, gerou algo visto por fãs como ruptura gratuita, arriscado para uma marca que constrói valor sobre tradição.

O Type 00, isoladamente, não é o problema. O conceito parece promissor e poderia competir com elétricos esportivos de Mercedes-Benz, Audi e Porsche. Mas sem um cronograma concreto, ficha técnica, plataforma divulgada ou arquitetura confirmada, os vídeos conceituais viram símbolo da incerteza e piada nos fóruns automotivos. Enquanto isso, rivais anunciam plataformas e prazos públicos, deixando claro onde estão e para onde vão.

Jaguar Type 00
Foto de: Jaguar

O que você pensa sobre isso?

Dando um voto de confiança à britânica, esse não é o primeiro rodeio da Jaguar. Ela já precisou renascer outras vezes. No pós-guerra com a mudança definitiva de nome, nos anos 1990 sob o guarda-chuva da Ford, depois com aporte da Tata. Agora, o desafio não é falta de capital, mas falta de direção. O showroom vazio virou metáfora: falta produto, falta clareza e, não menos importante, falta carro.

Se quiser sobreviver para além da nostalgia, a Jaguar precisará mostrar coisas concretas. Um F-Pace renovado, um esportivo digno de seu legado, um sedã alinhado à nova fase elétrica e uma comunicação que lembre ao público por que a Jaguar importa. O Type 00 pode ser o ponto de partida. Mas, desta vez, é bom que a tentativa seja certeira. O público já se cansou de delírios do marketing de rebrandings que não vão a lugar algum. Agora precisa aterrissar.

Envie seu flagra! flagra@motor1.com