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Gol GTi: o esportivo que apresentou a injeção eletrônica ao Brasil

Com desempenho forte e estilo exclusivo, versão marcou a chegada de uma nova era

VW Gol GTi (1991–1994)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Nos anos 70, a Volkswagen apostava na criatividade e na engenharia para fazer modelos exclusivos para o mercado brasileiro. Foi nesse contexto que a empresa começou a desenvolver, em 1976, a Brasília II – iria usar uma carroceria quase idêntica à da Brasília normal, mas com motor dianteiro, do Passat.

A ideia, contudo, foi abortada para dar lugar ao projeto BX. Seria um pequeno hatch no espírito do Audi 50 (1974) e da primeira geração do Polo (lançada na Alemanha em 1975). Seu estilo teria toques do esportivo Scirocco.

A parte mecânica, porém, era bem semelhante à de um protótipo alemão que jamais entrou em linha: o EA-276, de 1969. Tratava-se de um compacto com tração dianteira e o motor refrigerado a ar do Fusca. Esses ingredientes foram misturados e, assim, nasceu o Gol. Nas palavras de Wolfgang Sauer, então presidente da Volkswagen do Brasil, o modelo substituiria o Fusca "a médio prazo".

Deu certo. Com um nome que remete ao hatch alemão VW Golf, e também ao esporte mais popular do Brasil, o Gol viria a ser produzido ao longo de 42 anos (1980-2022) e até hoje é o recordista histórico de vendas no país.

Gol 1300 L 1980

Gol 1300 L 1980

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Do ar para a água: nasce o GT

Os primeiros Gol chegaram em 1980, com o motor boxer refrigerado a ar, semelhante ao do Fusca. Era um 1.300 com apenas um carburador, o que resultava em desempenho decepcionante: aceleração de 0 a 100 km/h em 30 segundos e máxima de 125 km/h.

Comparado ao Fusca e à Brasília, porém, o Gol representava um enorme avanço em estabilidade, com sua suspensão McPherson (na dianteira) e por eixo de torção (na traseira). Os freios eram bem superiores e o câmbio, bastante robusto. E havia, ainda, a bela carroceria, calcada em trabalhos de Giorgetto Giugiaro. Apesar de não fazer sucesso imediato, o novo modelo mostrava que tinha potencial.

Volkswagen Gol GT _1984

Volkswagen Gol GT _1984

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Apenas nove meses depois do lançamento, o Gol ganhou um motor maior. Ainda era o boxer refrigerado a ar, mas com 1,6 litro de cilindrada e dupla carburação. Hoje, esse modelo é conhecido como "batedeira", dado o seu barulho peculiar e a dificuldade de equalizar a carburação, o que deixa a mecânica chacoalhando sob o capô.

Desde o início do projeto, porém, a Volks queria dar ao Gol o motor de quatro cilindros em linha, refrigerado a água. Isso não foi possível inicialmente por questões de logística de produção. Eis que, em 1984, deu-se enfim o grande salto: foi lançada uma caprichada versão esportiva.

Gol GT (1984)

Gol GT (1984)

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Era o Gol GT, carro de fazer garotos sonharem e marmanjos babarem de desejo. Tinha motor 1.8 do Santana, mas com comando de válvulas mais brabo, igual ao do Golf GTi alemão.

Era um carrão: com 99 cv, conseguia manter velocidades de 140 km/h sem que o motorista percebesse que estava andando tanto. Os faróis e as lanternas dianteiras eram as mesmas do Voyage. Havia ainda um par de faróis de milha redondos. As rodas eram as Avus (hoje mais conhecidas como snowflake), iguais às do Rabbit GTI vendido nos EUA.

Volkswagen Rabbit GTI 1983-1984 - o pioneiro das rodas Avus (ou Snowflake)

Volkswagen Rabbit GTI 1983-1984 - o pioneiro das rodas Avus (ou Snowflake)

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Os bancos eram envolventes, da alemã Recaro — uma revolução diante do que tínhamos aqui. E, como o charme mora nos detalhes, havia um enorme adesivo com as letras GT no vidro traseiro. Era um esportivo de verdade e decorado com elegância. Em apelo visual e desempenho, foi o único bicho-papão capaz de assustar o Ford Escort XR3.

Gol GTS 1987

Gol GTS 1987

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Sarney, Plano Cruzado e o GTS

Chegamos a 1987, tempos de Plano Cruzado, preços tabelados e vendas em alta. Para driblar o congelamento dos preços, muitas empresas modificavam a apresentação e o nome de seus produtos. Foi nessa onda que o Gol GT virou GTS.

A frente ficou mais baixa, os para-choques se tornaram envolventes e faixas plásticas foram aplicadas às laterais. Mudaram as rodas e entrou em cena um vistoso aerofólio. Já o motor AP-800S não mudou — ao menos oficialmente…

Gol GTS

Gol GTS

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Explica-se: na época, a cobrança do IPVA era calculada de acordo com a potência. Carros com motores acima de 100 cv pagavam mais caro. Assim, a Volks preferia divulgar que o Gol GTS rendia 99 cv, quando a potência real já devia andar na casa dos 105 ou 110 cv!

Salão de 1988 - Gol GTI foi a grande sensação

Salão de 1988 - Gol GTI foi a grande sensação

Foto de: Redação Motor1 Brasil

GTi, a revolução

Pouco depois, a história dos Gol esportivos chegou a seu apogeu: o lançamento da revolucionária versão GTi, que fez com que o Brasil entrasse na era da injeção eletrônica (o "i" do nome). Era o fim de 1988 e, até então, todos os nossos carros traziam carburador — peça que vinha se tornando obsoleta na Europa desde os anos 70.

Apresentado como modelo 1989, o Gol GTi trazia o motor AP-2000 do Santana, alimentado pela injeção multiponto analógica Bosch LE-Jetronic — a sigla LE vinha de Luft, “ar” em alemão, e Elektronisch.

Gol GTi-2 (1)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Por conta das proibições à importação de materiais eletrônicos, então vigentes no país, os técnicos da Bosch e da VW tinham que recorrer à criatividade – alguns viajavam ao exterior e traziam, como bagagem pessoal, componentes a serem reproduzidos aqui.

O sistema de injeção era analógico, já que a Lei de Informática então vigente proibia a importação de processadores digitais. Mas essa designação “analógico” para o LE-Jetronic não significa totalmente sem eletrônica — já que havia uma ECU (unidade de comando), porém de arquitetura mais simples, sem auto-diagnose digital (não armazenava falhas, não se comunicava via scanner etc). Também não havia sonda lambda: a mistura ar/combustível era ajustada com base em parâmetros como abertura da borboleta, RPM e temperatura.

Gol GTi (10)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Diferentemente dos motores atuais com injeção sequencial (em que cada bico dispara individualmente no momento exato da abertura da válvula), o sistema do primeiro Gol GTi operava em modo simultâneo — conhecido tecnicamente como batch fire. O módulo enviava um pulso único que fazia os quatro bicos injetores dispararem ao mesmo tempo. Isso significava que, em três dos quatro cilindros, o combustível pulverizado ficava brevemente “estacionado” no duto de admissão, aguardando a abertura das válvulas para ser aspirado.

Já a ignição era gerenciada por um módulo totalmente independente, o Bosch EZK. Diferentemente da injeção analógica, o EZK utilizava mapas de ignição gravados em memória e processamento digital para controlar o avanço da faísca e gerenciar a detonação ponto a ponto.

Gol GTi (8)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

O resultado era surpreendente para quem estava acostumado aos carros com carburador. Mesmo frio, o motor pegava na hora, sem ratear. E, que espanto: nem precisava de afogador! Um detalhe é que o Gol GTi só tinha versão a gasolina – na corrida contra a General Motors para ver quem estrearia a injeção no Brasil, não houve tempo para desenvolver uma opção a álcool. Um detalhe curioso é que os exemplares pré-série simplesmente apagavam o motor ao passar perto de redes de alta tensão na estrada, e foi preciso melhorar o isolamento do sistema. 

Com 120 cv, o novo VW esportivo andava mais do que o Opala de seis cilindros, que tinha o dobro da cilindrada. O melhor eram os 18,3 kgfm de torque, que se faziam sentir bem cedo. Nas acelerações, o GTi ganhava velocidade sem engasgar nem vacilar — fazendo o 0 a 100 km/h em 9,5 segundos e alcançando 185 km/h. Hoje são marcas comuns mas, na época, esse Gol era o recordista de aceleração entre os nacionais.

Gol GTi (6)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Mesmo com tamanho vigor, o “pocket rocket” de 997 quilos era econômico, capaz de fazer 13,5 km/l na estrada e cerca de 8,5 km/l na cidade. O consumo reduzido era mais uma surpresa para os brasileiros desacostumados às mágicas da injeção.

Havia ainda toda uma preparação especial, com pneus 185/60 R14 (bem largos e de perfil baixo para os padrões da época), freios a disco ventilados na dianteira e câmbio com relações mais curtas. A embreagem pesada garantia um bom exercício de musculação para a perna esquerda…

O Gol GTi era um dos automóveis mais caros do Brasil. Por restrições às importações dos componentes eletrônicos, a produção inicial era limitada (2 mil carros em 1989) e seu preço era 55% mais alto que o do Gol GTS.

Gol GTi (14)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Visual exclusivo

Com características estéticas bem peculiares, o GTi era um ímã de olhares por onde passava. A decoração, mais uma vez, saiu no capricho, transmitindo uma ideia de vigor, sem apelar para o exagero.

Para começar, os GTi do primeiro ano só saíam com a carroceria pintada na cor "azul Mônaco", um tom marinho metálico. Os para-choques e acabamentos laterais de plástico eram em cinza-claro, criando um contraste interessante.

As rodas eram as mesmas “pingo d’água” do Gol GTS, que continuava em produção. O GTi trazia ainda um novo aerofólio, de formas mais arredondadas. As lanternas traseiras fumê e a antena de atarraxar (na parte de trás do teto) eram bossas diferentes para a época. Num instante, foram copiadas por todos os playboys.

Gol GTi (12)
Foto de: Redação Motor1 Brasil

Por dentro, mais detalhes para surpreender os brasileiros. Os bancos Recaro, que abraçavam o motorista, passavam a trazer apoios de cabeça vazados, para melhorar a visibilidade. Eram forrados com capricho, em tecido cinza-escuro com debrum azul. O motorista se sentia um piloto de caça com a iluminação vermelha do painel — seu manche era o volante revestido com couro. O único opcional era o ar-condicionado.

Da pureza inicial, o GTi foi modificado ao passar dos anos. Em 1991, sofreu uma plástica com o resto da linha Gol, ganhando frente mais baixa e arredondada. Grade e faróis foram estreitados, rendendo ao modelo o apelido de “chinesinho”. O grande apelo da versão esportiva eram as novas rodas, batizadas de Orbital. Tinham desenho bem fechado, mas, ao mesmo tempo, passavam a ideia de velocidade.

Volkswagen Gol GTI 16V _1995–2000

Volkswagen Gol GTI 16V foi vendido de 1995 a 2000

Foto de: Redação Motor1 Brasil

Bolinha nunca teve o mesmo charme

Eis que, em setembro de 1994, a Volks lançou a segunda geração do Gol, com 11 cm extras de distância entre eixos e linhas arredondadas — modelo que hoje conhecemos como "Bolinha".

A versão GTS saiu de cena, restando apenas a GTI (agora com "I" maiúsculo). A sigla chegou à Parati e foi usada também em versões de 16 válvulas, que ostentavam uma protuberância no capô. Os carros ganharam ABS como opcional. Mas o charme já não era o mesmo e a injeção eletrônica já havia se tornado algo trivial. A produção foi encerrada em 2000.

O primeiro Gol GTi hoje é um clássico e está no topo de qualquer lista de melhores esportivos feitos no Brasil. É até difícil explicar aos mais jovens o impacto que representou a sua chegada às ruas.

Envie seu flagra! flagra@motor1.com