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Cadillac: Brasil já foi um paraíso para a divisão de luxo da General Motors

De 1913 até a década de 50, a marca teve forte presença nas ruas brasileiras

Cadillac 1955
Foto de: Jason Vogel

Um esporte-protótipo da Cadillac venceu as 6 Horas de São Paulo, etapa do WEC disputada em Interlagos no último domingo. Enquanto isso, no estacionamento do autódromo, dois modernos SUVs elétricos da marca — Lyriq e Optiq — testavam a receptividade do público, sinalizando uma possível volta da Cadillac ao Brasil. 

Sim, uma volta: entre as décadas de 1910 e 1950, a divisão de luxo da General Motors teve presença marcante em nosso mercado e chegou a figurar entre as dez marcas mais vendidas no país. Mas essa história começa ainda antes. 

História automotiva - Cadillac no Brasil

O GM que nasceu Ford

A origem da Cadillac envolve ninguém menos que Henry Ford. Em 1901, após o fracasso da sua primeira empreitada empresarial, a Detroit Automobile Company, ele fundou a Henry Ford Company, com apoio financeiro de investidores como William Murphy e Lemuel Bowen. 

O relacionamento, contudo, azedou rapidamente: Ford estava mais interessado em desenvolver carros de corrida e protótipos do que começar a vendê-los. Em 1902, após desentendimentos sobre os rumos da companhia, ele deixou o negócio.

Os investidores decidiram então reorganizar a fábrica e convidaram o engenheiro Henry M. Leland, conhecido por sua obsessão por precisão, para assumir a parte técnica. Leland sugeriu manter a linha de produção e usar um motor monocilíndrico (de 1,6 litro e 9 cv) que ele próprio havia desenvolvido. Com isso, a antiga Henry Ford Company foi rebatizada como Cadillac Automobile Company, em homenagem a Antoine de Lamothe-Cadillac, explorador francês que fundou Detroit em 1701.

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Origem da Cadillac envolve ninguém menos que Henry Ford

O primeiro modelo foi o Cadillac Model A, de 1903. Com seu motor monocilíndrico instalado entre eixos, sob o único banco, conquistou o público pela qualidade de construção e confiabilidade mecânica, atributos raros na época. E, não muito longe dali (a exatos 4 km de distância), Henry Ford fundava sua nova companhia, ainda em 1903: a Ford Motor Company, criada para fazer um carro que também se chamava Model A e era quase idêntico ao Cadillac homônimo. Só mudava o motor (um boxer bicilíndrico).

O reconhecimento internacional à Cadillac veio em 1908, quando a marca conquistou o Dewar Trophy — prêmio concedido pelo Royal Automobile Club, do Reino Unido, aos maiores avanços da indústria automobilística. Três carros Cadillac Model K foram totalmente desmontados, tiveram suas peças misturadas e, em seguida, foram remontados com ferramentas manuais. Ao fim, todos funcionaram perfeitamente, dando 10 voltas no circuito oval de Brooklands. 

Hoje isso pode parecer algo simples, mas, em 1908, os padrões de medida não eram tão precisos, e os componentes dependiam de ajustes antes de serem instalados. Com essa demonstração, a Cadillac provou ser pioneira na intercambialidade de peças — conceito fundamental para a produção em série e para outra novidade da época: as linhas de produção. Desde então, a Cadillac passou a ser conhecida como Standard of the World (“o Padrão do Mundo”).

1913 - o carro sem manivela - anúncios da Casa Pratt (1)

1913 - o carro sem manivela - anúncios da Casa Pratt 

Foto de: Jason Vogel

Partida sem manivela

Em 1909, a Cadillac foi adquirida pela General Motors, o que garantiria recursos e estrutura para crescer ainda mais. Seria, daí em diante, a divisão responsável pelos carros de maior luxo do grupo. Poucos anos depois, em 1912, a marca apresentou um dos inventos mais importantes da história do automóvel: o motor de partida elétrico, como substituto da manivela. O arranque facilitou muito a vida dos motoristas, especialmente das mulheres.

Até a invenção do arranque elétrico, era preciso ter força, certas manhas e alguma sorte para dar a partida. Era comum o motor a explosão dar um retrocesso ao ser posto em funcionamento, fraturando um braço ou torcendo o pulso do infeliz chauffeur. Byron Carter, fundador da efêmera fábrica de automóveis Cartercar, de Detroit, sofreu uma lesão ainda mais grave: levou uma manivelada no queixo, e o ferimento acabou causando sua morte. O incidente foi o que motivou Henry Leland e Charles F. Kettering a desenvolverem o novo sistema de acionamento.

E foi em 1913, logo depois da adoção do arranque elétrico, que os Cadillac começaram a ser vendidos no Brasil. Até onde conseguimos pesquisar, a primeira representante da marca no país foi a Casa Pratt, que também importava itens como caixas registradoras, calculadoras mecânicas e máquinas de escrever, além de móveis para escritórios. Aproveitando a inauguração de sua nova sede, na Rua do Ouvidor, 125, a empresa tornou-se agente geral da Cadillac no Rio de Janeiro. Tinha ainda filiais em São Paulo (Rua Direita, 19) e Curitiba (Rua 15 de Novembro, 66).

1925 - preços a partir de 45 contos

1925 - preços a partir de 45 contos

Foto de: Jason Vogel

Na época, os carros europeus, principalmente franceses e alemães, dominavam o mercado brasileiro com ampla margem. E o motor de arranque era um grande apelo para atrair os clientes a uma marca norte-americana. 

“O automóvel Cadillac não tem manivela” — era assim que a Casa Pratt anunciava a novidade. A propaganda afirmava que o invento ajudaria até a economizar combustível: pelo incômodo e pelo risco de girar a manivela, muitos motoristas simplesmente não desligavam o motor enquanto o carro estava estacionado por curtos períodos.

No Recife, onde a Cadillac era representada pela Casa Pinto da Silva, a propaganda do modelo 1914 dizia: “O carro é posto em marcha por meio de um aparelho que substitui a manivela”. E mais: “As molas e os pneumáticos dos Cadillac vindos para Pernambuco são especialmente construídos para o calçamento das ruas desta cidade”.

A revolução seguinte veio em 1915, com o lançamento do primeiro motor V8 produzido em larga escala. Potente e suave, o novo propulsor consolidou a Cadillac como uma marca de prestígio e desempenho superior no mercado de luxo.

1928 - Cadillac La Salle, a pioneira do departamento de estilo

1928 - Cadillac La Salle, a pioneira do departamento de estilo

Foto de: Jason Vogel

Nos tempos da Mesbla

A Casa Pratt não durou muitos anos como agente geral da marca, repassando a bola para outros importadores. Em 1921, havia 21 automóveis Cadillac na cidade de São Paulo e 38 no Rio. As vendas no Brasil só começaram a decolar para valer quando a empresa franco-brasileira Mestre e Blatgé (futura Mesbla) assumiu a representação da Cadillac no país, em 1922. Essa parceria seria mantida até a década de 1950, com ótimos resultados.

Durante os anos 1920, a Cadillac refinou ainda mais seus produtos. Em 1927, apresentou a divisão LaSalle, uma submarca de categoria “ligeiramente inferior” (palavras do anúncio), mas com um papel fundamental na história da indústria: foi o primeiro carro a ser projetado por um estilista profissional. O jovem designer Harley Earl, recém-contratado pela companhia, deu ao LaSalle linhas elegantes e modernas que marcaram o nascimento do departamento Art & Colour Section — núcleo de design da GM — e iniciaram uma nova era em que o estilo passou a ter o mesmo peso que a engenharia.

1925-1926 - tempos de GMB e Mestre e Blatgé (Mesbla)

1925-1926 - tempos de GMB e Mestre e Blatgé (Mesbla)

Foto de: Jason Vogel

Mesmo com a fundação da General Motors do Brasil, em 1925, a Mestre e Blatgé/Mesbla manteve-se como importante concessionária das marcas do grupo GM. Em 1926, foram emplacados 33 Cadillac zero-quilômetro no Rio de Janeiro. Em 1929, a frota local já contava com 152 carros da divisão de luxo.

Em 1928, a Cadillac foi pioneira no uso de uma caixa de câmbio totalmente sincronizada, o que tornava as trocas de marchas mais suaves e simples. Eram carros muito caros: um Chevrolet custava de 7 a 9 contos, um DeSoto saía por 13 contos, e um Packard de seis cilindros, por 30 contos — já o Cadillac custava impressionantes 45 contos!

Nos anos difíceis da Grande Depressão, a Cadillac não recuou. Pelo contrário: subiu o sarrafo. Em 1930, lançou o motor V16, de 7,4 litros; um ano depois, foi a vez do V12, com 6 litros. Extremamente potentes e silenciosas, essas mecânicas eram vestidas sob medida por encarroçadoras como a Fleetwood e a Fisher, oferecendo luxo sob encomenda para uma clientela altamente exclusiva. 

La Salle 1939 - divisão da Cadillac

La Salle 1939 - divisão da Cadillac

Foto de: Jason Vogel

Os Cadillac, porém, não eram apenas carros de luxo, mas também de serviço. Adaptações nas carrocerias transformavam os sedãs em ambulâncias ou carros fúnebres. Outro exemplo: a Auto Viação Esplanada operava uma linha expressa de passageiros entre Curitiba e São Paulo, com partidas diárias e tempo estimado de “apenas” dez horas, aproveitando o ótimo desempenho do motor V8 “cabeça chata”. No Rio, a Transportes Meteoro mantinha uma frota de Cadillac alongados (com 12 lugares) no translado entre os aeroportos da cidade.

Mesmo com concorrentes tradicionais fechando as portas, a Cadillac sobreviveu à crise da década de 1930 e saiu fortalecida. No Brasil, chegou a ter uma linha de montagem especial nas grandes instalações da General Motors em São Caetano do Sul (SP). 

Em 1948, os rabos de peixe - em 1949, o novo V8 OHV

Em 1948, os rabos de peixe - em 1949, o novo V8 OHV

Foto de: Jason Vogel

Rabo de Peixe nasceu no avião

Com a chegada dos anos 1940, inovou mais uma vez ao lançar a Hydra-Matic, a primeira transmissão automática produzida em grande escala, inicialmente desenvolvida pela Oldsmobile. A combinação de motor V8 e câmbio hidramático tornava a condução muito mais fácil e consolidava a Cadillac como símbolo de conforto absoluto.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a marca interrompeu a produção de automóveis civis e passou a fabricar equipamentos militares, como motores para blindados e até mesmo um carro de combate completo: o M5 Stuart, que utilizava dois motores V8 Cadillac postos lado a lado.

Com o fim das batalhas, a marca voltou a mirar no luxo — e, agora, o estilo assumia o protagonismo. Em 1948, a Cadillac lançou um dos elementos de design mais icônicos do século XX: os “rabos de peixe”. Inspirados na dupla cauda do caça Lockheed P-38 Lightning, esses ressaltos nos para-lamas traseiros inauguraram a “era espacial” no design automotivo dos Estados Unidos. Criados por Frank Hershey e aprovados por Harley Earl, os rabos de peixe logo se tornaram símbolo de status, sendo copiados por todos os fabricantes norte-americanos na década seguinte.

Em 1949, veio outro salto técnico importante: um novo V8, agora com válvulas no cabeçote (OHV) e alta taxa de compressão, mais leve e eficiente. Com 331 polegadas cúbicas (5,4 litros) e 160 cv, o novo motor levava a Cadillac à frente de qualquer concorrente em termos de desempenho e engenharia. Com aumentos de cilindrada, ficaria em linha até 1963.

Cadillac nas capas de revista dos anos 50 (1) (1) (1)

Cadillac nas capas de revista dos anos 50 

Foto de: Jason Vogel

No Rio, a febre do 'Cadilaquismo'

No distante Brasil, que havia acumulado divisas durante a guerra, existia uma grande demanda por automóveis novos. Assim, entre 1946 e o comecinho dos anos 50, houve uma corrida desenfreada pelas importações de carros. Quem realmente tinha grana comprava um Cadillac. Até a Presidência da República aderiu à marca.

Além das unidades que chegavam oficialmente via GMB, havia inúmeros “jeitinhos” de se  trazer dos EUA um veículo novo ou pouquíssimo rodado. Por algum tempo, quem ia ao exterior podia até vir com um carro como “bagagem acompanhada”... 

Getulio e a limusine Cadillac Fleetwood S75 (1941) da presidência

Getulio e a limusine Cadillac Fleetwood S75 (1941) da presidência

Foto de: Jason Vogel

O Rio, endinheirada capital federal naqueles prósperos anos, tornou-se “O paraíso dos Cadillac”, título de um artigo da “Revista de Automóveis”: 

“Um dos fenômenos sociais deste pós-guerra que mais atropela a geração de ontem é o ‘cadilaquismo’ — obsessão do indivíduo pela posse de um Cadillac. (...) O Cadillac é o amuleto em que o carioca, não podendo trazê-lo pendurado ao pescoço, se senta em cima (...).”

Getulio e a limo Cadillac conversível S75 Derham, ano 1947

Getulio e a limo Cadillac conversível S75 Derham, ano 1947

Foto de: Jason Vogel

E o texto continua:

“O licenciamento do ano de 1953 no Distrito Federal demonstra que, retiradas do páreo as duas marcas hors-concours, Chevrolet e Ford, o carro particular é o Cadillac, à frente de Dodge, Buick, Chrysler e Mercury…” 

Os números eram impressionantes. A Chevrolet liderava o ranking com 10.890 carros particulares licenciados na cidade do Rio, seguido pela Ford (6.351) e, em terceiro lugar, já vinha a Cadillac (4.978 carros). Para se ter uma ideia, no estado de São Paulo, que tinha uma frota total 51% maior que a da capital federal, havia “apenas” 1.370 Cadillac emplacados, e a marca de luxo da GM ficava no final da lista.

Cadillac 1947 no centro do Rio (foto - Antigos Verde Amarelo)

Cadillac 1947 no centro do Rio (foto - Antigos Verde Amarelo)

Foto de: Jason Vogel

A queda

Ironicamente, 1953 também marcou o fim dos anos dourados da Cadillac no Brasil. Foi quando o presidente Getulio Vargas e seu braço direito, Lucio Meira, começaram a restringir as importações de carros prontos para estimular a implantação da indústria automobilística no país. A General Motors — que até então era a líder absoluta em nosso mercado — foi deixando de lado a montagem dos modelos de passeio e escolheu os veículos comerciais para entrar na onda da nacionalização. A partir de 1957 (já no governo Kubitschek), passou a fabricar caminhões localmente.

A importação independente continuou a dar seus jeitinhos para trazer alguns exemplares, especialmente por via diplomática, mas os tempos eram outros. Nas décadas seguintes, o lugar de “marca de luxo” seria ocupado pela Mercedes-Benz. 

Cadillac 1947 no trânsito carioca em pleno 2025 (Foto - Henrique Koifman)

Cadillac 1947 no trânsito carioca em pleno 2025 (Foto - Henrique Koifman)

Foto de: Jason Vogel

O que você pensa sobre isso?

Em 1956, quando os primeiros carros de passeio nacionais começaram a ser fabricados, ainda havia 7.631 Cadillac no Brasil. A divisão de luxo ocupava a 9ª posição no registro de automóveis existentes no país. A partir daí, foram desaparecendo das ruas. Por muito tempo, a única referência à Cadillac por aqui era a música “O Calhambeque” (1964), cantada por Roberto Carlos (que, aliás, é dono de um belo Eldorado conversível 1960).

Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), hoje há 1.904 Cadillac registrados no país, sendo que a maior parte é de 1954 para baixo. Outros tantos são carros antigos (das décadas de 60 a 80), mas de importação recente. Entre os modelos atuais, trazidos por lojistas independentes, predominam os grandalhões SUVs Escalade. Agora é esperar a volta oficial — sem rabos de peixe, mas com baterias.

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