Avaliação: Honda City Sedan Touring é econômico, silencioso e tem sabor do passado
Sedã aposta em eficiência e conforto, mas não espere grandes inovações tecnológicas
Há carros que passam do ponto ideal. Um exemplo é o Honda Civic. Já foi um sedã com o tamanho certo para o trânsito da cidade e com preços na medida para boa parte da classe média. No auge de sua 8ª geração, o Civic fazia enorme sucesso no Brasil, chegando a 67.676 unidades vendidas em 2008. Na época, dava poeira no arquirrival Corolla (45.634 emplacamentos).
A cada geração, contudo, o modelo da Honda crescia alguns centímetros, tornava-se mais sofisticado e, consequentemente, mais caro. Além disso, passou a sofrer com a concorrência dos SUVs, os novos queridinhos do mercado.
Resultado: o Civic sedã deixou de ser produzido aqui em 2021, retornando somente em 2023, já em sua 11ª geração, numa versão híbrida e importada da Tailândia. Virou um “modelo de nicho” (ainda que não se saiba bem qual) e hoje custa R$ 266.500. Ao longo do ano passado, foram registrados apenas 1.124 emplacamentos.
Todos esses pensamentos vieram à mente ao entrar no Honda City Sedan Touring 2026 — junto com uma sensação de voltar 29 anos no tempo... No banco do motorista, fomos transportados de volta a 1997, ano em que a Honda começou a produzir o Civic no Brasil. E, acredite: isso não é, necessariamente, ruim.
O espaço na cabine é parecido, bem como o porte dos dois Honda: 4,57 m de comprimento e 2,60 m de entre-eixos no City atual, contra 4,45 m e 2,62 m do saudoso Civic de 6ª geração. Peso e potência também se equivalem: o City 0 km dispõe de 126 cv para levar 1.156 quilos (9,17 kg/cv), enquanto o Civic EX de 1997 tinha 127 cv para 1.145 quilos (9,02 kg/cv).
Sente-se claramente o DNA do velho Civic no atual City Sedan. O contorno meio arredondado sobre o quadro de instrumentos, a parte central do painel em trapézio, a altura dos bancos, a boa posição de dirigir, os tons de cinza nas forrações e até o cheiro (será delírio?)… Tudo transmite aquela familiaridade típica da Honda. De “modernidade” o que temos é uma central multimídia — aliás, nem tão moderna assim, com suas 8 polegadas.
É um ambiente extremamente conservador. O que antes impressionava hoje já não causa espanto. Por outro lado, tudo tem aparência de que vai durar décadas sem dar problemas. É um Honda sendo Honda: funcional, correto e discreto.
Em casa, a turma pergunta: “mas o que esse carro tem de novo?”. A resposta, honestamente, não é muita coisa. As últimas modificações vieram no fim de 2024, como modelo 2025: novos para-choques, grade redesenhada (com a barra cromada superior mais fina), freio de mão eletrônico e freios a disco nas rodas traseiras para quase todas as versões (exceto a de entrada LX), além de novo console com carregador por indução e entradas USB-A, daquele tipo maior e mais antigo.
A partir das versões EX, o City traz um pacote de ADAS que inclui controle de cruzeiro adaptativo (ACC) com função para trânsito engarrafado, frenagem automática de emergência (CMBS), assistentes de permanência em faixa (LKAS e RDM) e facho alto automático (AHB) nos faróis full LED. Além disso, há seis airbags (frontais, laterais e de cortina) e estrutura reforçada para maior proteção em impactos.
Os bancos forrados com couro claro (do EXL para cima) são extremamente confortáveis, e o espaço no banco traseiro é generoso. Há saídas de ar para quem vai atrás, algo sempre bem-vindo em um sedã familiar. Esses passageiros têm ainda duas tomadas USB-C.
O sedã oferece ainda um excelente porta-malas, com capacidade de 519 litros. Nesse ponto, supera até o atual Honda e:HEV (495 l). O estepe é de uso temporário.
Vamos à estrada
Se não impressiona pela modernidade, o City conquista pela forma como roda. É um carro extremamente silencioso, com capricho no isolamento acústico e praticamente sem vibrações na estrada, especialmente em velocidades de cruzeiro, com o conta-giros por volta das 2.000 rpm. Os instrumentos combinam tela TFT com velocímetro analógico, sem firulas e de leitura fácil (mesmo para um ancião com +1,50 de presbiopia).
O motor é o L15B, usado no compacto desde 2022, bem como nos HR-V de entrada e WR-V. Apesar de o sobrenome Touring já ter sido associado aos Honda com turbo, o City recebe apenas a versão aspirada de 1.498 cm³. Rende 126 cv e trabalha bem entrosado com um câmbio CVT de sete marchas virtuais, sem o desagradável efeito “enceradeira”.
Não é um conjunto que entrega grande desempenho. Se o motorista quiser extrair mais, pode recorrer às aletas no volante ou ao modo Sport, para “trocar marchas” em rotações mais elevadas — o que vem acompanhado de algum ruído (nada que incomode). No uso normal, porém, o City prefere a tranquilidade. Nas viagens, basta escolher a velocidade ideal, ligar o ACC e relaxar.
Foi o que fizemos em um bate e volta pela Dutra. O controle de cruzeiro adaptativo funcionou muito bem, e o assistente de permanência em faixa também se mostrou eficiente.
Em espanhol existe uma palavra que resume bem o City: “aburrido”. Não no sentido de ruim, mas de algo que não provoca emoção. Um carro correto, previsível — e um pouco chato.
Observações a bordo
A tradicional câmera lateral da Honda, ativada quando se aciona a seta, continua presente. Amplia o campo de visão no retrovisor direito. Em contrapartida, pode atrapalhar: se você estiver usando o Waze, o mapa some da tela ao ligar o pisca — o que pode ser um problema em trevos, agulhas ou cruzamentos em trechos desconhecidos.
O carregador de celular por indução tem um pequeno LED que muda de cor indicando o funcionamento — um detalhe simples, mas útil. Já o porta-garrafas na lateral de porta é pequeno demais para uma garrafinha comum; na prática, funciona mais como porta-copos.
Sensores dianteiro (exclusividade da versão Touring) e traseiro ajudam a estacionar em vagas apertadas.
O volante tem diâmetro relativamente pequeno e aro grosso, o que agrada. Sua forração sintética, porém, esquenta muito as mãos em dias de sol, mesmo com o ar-condicionado (digital e com saída para o banco traseiro). A direção tem peso correto: leve, mas sem excessos na assistência elétrica.
E, se os seus caminhos habituais estão cheios de lombadas ou valetas, atenção: o City é baixo e, mesmo passando com cuidado, o fundo raspa nos quebra-molas mais altos. Por outro lado, a suspensão não é “molenga”, e as crianças não enjoarão numa subida de serra.
Economia sem truques
O grande destaque desse carro é o baixo consumo. Na estrada, é fácil fazer entre 17 e 18 km/l de gasolina, sem grande esforço — apenas usando o modo Drive e o Eco. No uso urbano do teste, após uma semana, o computador de bordo marcava 13 km/l.
O mais interessante é que o City alcança essas marcas (melhores que as do PBE Veicular) sem qualquer tipo de eletrificação. Em pleno 2026, não há sistema mild-hybrid nem sequer start-stop. Ainda assim, mostra-se mais econômico que alguns híbridos que prometem eficiência e entregam pouco — mérito do bem projetado motor L15B, com injeção direta e variação nos dois comandos.
Todas as configurações do City Sedan têm o mesmo conjunto de motor e câmbio. Na versão de entrada LX (R$ 117.500), o modelo tem preço competitivo. Depois vêm as intermediárias EX (R$ 136.800) e EXL (R$ 144.200). Já o topo de linha Touring (R$ 152.700) entra numa disputa direta com sedãs compactos premium.
É mais em conta que o VW Virtus Highline (R$ 161.890), com motor 1.0 turbo de 116 a 128 cv. Há também o Nissan Versa Exclusive (R$ 146.490), focado na suavidade e em auxílios de manobra como a câmera 360º, mas sem grandes emoções com seus 110 a 113 cv.
Já o Chevrolet Onix Plus Premier (R$ 139.390) e o Hyundai HB20S Platinum Plus (R$ 138.390) são menores e menos potentes, priorizando custo-benefício para quem busca alternativas mais acessíveis.
Em resumo: o Honda City Touring não tenta reinventar nada. Em estilo, já é conhecido. No interior, não traz grandes inovações. Mas há qualidades claras: silêncio, conforto, bom espaço interno, ótimo porta-malas, resistência e uma eficiência de combustível realmente impressionante.
O City pode até ser um carro “aburrido”, mas é difícil não gostar dele quando se observa o consumo no computador de bordo. Para os nostálgicos que acham que “já não se fazem mais carros como antigamente”, esse sedã honesto, com sabor de Civic dos anos 90, é uma boa opção.
Honda City 1.5
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