ABVE no E-Days: Eletrificação avança no Brasil e começa a mudar a indústria por dentro
Ricardo Bastos, presidente da ABVE, explicou que eletrificados já pressionam infraestrutura, fornecedores e produção local
O debate sobre eletrificação no Brasil mudou de endereço. Se antes a dúvida era se o carro elétrico faria sentido por aqui, agora a questão é como o mercado vai acompanhar um crescimento que deixou de ser promessa. Foi esse o tom da apresentação de Ricardo Bastos, presidente da ABVE, no E-Days 2026, evento realizado dentro do Energy Summit, no Rio de Janeiro. A fala mostrou que a eletrificação já não está restrita aos automóveis. Ela começa a reorganizar infraestrutura, fornecedores, serviços e até a forma como o consumidor calcula a compra de um carro.
Logo no início, Bastos fez questão de ampliar o olhar sobre o tema. A ABVE completa 20 anos em 2026, mas a eletrificação que antes dependia quase de entusiastas e importações diretas agora envolve montadoras, empresas de energia, operadores de recarga, aplicativos, delivery, fabricantes de componentes e fornecedores de tecnologia. Essa mudança é importante porque mostra que o setor deixou de ser apenas uma discussão de produto para se tornar um ecossistema econômico. E, quando isso acontece, a transformação ganha outro ritmo.
Ricardo Bastos - Presidente da ABVE
“O plugin já representa mais de 80% das vendas mensais no Brasil. São veículos plugins, híbridos plugins ou elétricos.”
Essa talvez seja uma das informações mais relevantes da apresentação. O Brasil pode estar encurtando uma etapa que muitos mercados trataram como obrigatória: a fase intermediária dos híbridos leves. Bastos explicou que a própria ABVE não considera os micro-híbridos em sua estatística principal porque eles não entregam uma experiência elétrica real do ponto de vista da condução. Na prática, enquanto parte da indústria ainda aposta em sistemas de 12 V ou 48 V para reduzir emissões, o consumidor brasileiro já começa a migrar diretamente para tecnologias que oferecem ganhos mais perceptíveis.
Essa leitura é estratégica porque ajuda a explicar a velocidade das marcas chinesas no país. Híbridos plug-in e elétricos puros entregam uma mudança mais clara para o motorista: uso urbano com menor custo, possibilidade de rodar sem gasolina em parte da rotina e uma sensação mais evidente de tecnologia. O híbrido leve, por outro lado, funciona muito mais como ferramenta de eficiência industrial do que como experiência para o consumidor. É uma solução importante para cumprir metas de emissões, mas não necessariamente para mudar a percepção de quem dirige.
Ricardo Bastos - Presidente da ABVE
Outro ponto decisivo da fala foi o avanço da infraestrutura. Bastos mostrou que os gargalos ainda existem, mas também deixou claro que a rede de recarga já saiu da fase experimental. O Brasil ultrapassou 25 mil pontos públicos e semipúblicos de carregamento, com participação crescente de carregadores rápidos. Esse é o tipo de dado que altera a conversa com o consumidor, porque a preocupação deixa de ser apenas a autonomia do carro e passa a ser a previsibilidade da jornada.
“A gente já superou 25.000 pontos públicos e semipúblicos no Brasil.”
O número por si só já chama atenção, mas o detalhe mais importante vem depois. Segundo Bastos, cerca de 34% desses pontos já são de recarga rápida, o que representa algo entre 6 mil e 7 mil carregadores de maior potência. É aqui que o mercado começa a mudar de patamar. Carregar em casa continua sendo a melhor experiência para boa parte dos usuários, mas a expansão da carga rápida permite que o carro elétrico avance também sobre trajetos rodoviários e usos menos previsíveis.
Bastos citou corredores rodoviários já em operação, como o trecho entre Salvador e Natal, onde começa a ser possível encontrar carregadores rápidos ao longo da viagem. A imagem é simples, mas ajuda a traduzir a mudança: parar para almoçar, tomar um café ou comer um pão de queijo enquanto o carro recupera carga suficiente para seguir viagem. A recarga, nesse caso, deixa de ser obstáculo e passa a ser incorporada à rotina. Não é ainda a experiência universal, mas é um sinal claro de amadurecimento.
Ricardo Bastos falou sobre o avanço da infraestrutura de recarga
Esse avanço também foi possível porque parte dos entraves regulatórios e técnicos começou a ser resolvida. Bastos lembrou o trabalho feito nos últimos anos para criar procedimentos mais seguros para instalação de carregadores em locais públicos e condomínios, tema que envolveu discussões com bombeiros e órgãos técnicos. Parece burocracia, mas é justamente esse tipo de base que permite crescimento sustentável. Sem segurança jurídica e técnica, a infraestrutura até cresce, mas cresce torta.
A eletrificação também começa a produzir um efeito menos visível, mas talvez ainda mais importante: a entrada de novos fornecedores na cadeia automotiva brasileira. Bastos destacou que a ABVE vem recebendo empresas vindas da indústria eletrônica e de componentes, muitas delas também relacionadas à Abinee e ao Sindipeças, interessadas em migrar para o setor automotivo. Isso muda a qualidade do debate industrial, porque o carro eletrificado exige outro tipo de competência produtiva.
“A gente tem recebido muitas empresas que estão vindo da produção de eletrônicos para o mundo automotivo.”
Esse movimento mostra como a eletrificação pode adensar a cadeia nacional em áreas onde o Brasil historicamente teve participação limitada. Baterias, inversores, carregadores, sistemas de gerenciamento, sensores e software passam a ter papel central. O motor a combustão ainda seguirá relevante por muito tempo, especialmente em um país com etanol, mas a nova fronteira de valor está cada vez mais nos sistemas eletrônicos e na integração entre energia, veículo e dados.
Para o consumidor, tudo isso se traduz em uma mudança bastante concreta: a eletrificação começa a caber no bolso. Bastos usou uma expressão simples para definir o novo perfil de comprador: o cliente do bolso. É aquele consumidor que deixa de olhar para o elétrico ou híbrido plug-in apenas como inovação e passa a fazer a conta de uso, manutenção e energia. Quando a economia operacional entra na decisão, a eletrificação deixa de depender só de entusiasmo tecnológico.
“O novo cliente que tá chegando é o cliente do bolso.”
Essa mudança explica por que o mercado deve fechar 2026 em outro patamar. Bastos afirmou que o Brasil deve superar 300 mil veículos eletrificados vendidos no ano, sem considerar os micro-híbridos. Ele próprio se definiu como uma voz mais conservadora dentro da ABVE, onde já há projeções próximas de 400 mil unidades. Mesmo no cenário mais cauteloso, o número representa um salto relevante para um setor que, até poucos anos atrás, era tratado como nicho.
O avanço também não se limita aos carros de passeio. Bastos citou ônibus elétricos, veículos comerciais leves, delivery, aplicativos e levíssimos como frentes importantes da eletrificação. São Paulo já tem mais de 10% da frota de ônibus eletrificada e pode encerrar o ano próxima de 20%, segundo a apresentação. Esse movimento é essencial porque a descarbonização do transporte urbano traz impacto direto para a qualidade do ar e para o custo operacional das cidades.
No fim, a mensagem da ABVE foi menos sobre celebrar o crescimento e mais sobre entender suas consequências. A eletrificação brasileira está entrando em uma fase em que produto, infraestrutura e cadeia industrial precisam avançar juntos. O país pode até pular algumas etapas tecnológicas, como a dependência prolongada dos híbridos leves, mas não pode pular a construção de uma base sólida. E essa talvez seja a grande mudança: o carro eletrificado já chegou. Agora o desafio é fazer o Brasil crescer junto com ele.
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