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BYD Xia (M9): um mergulho no mundo das confortáveis minivans chinesas

Guiamos a nova MPV asiática — mas a melhor parte foi andar no banco traseiro

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (18)
Foto de: Motor1 Brasil

Visite qualquer grande cidade da China e você verá um grande número de minivans — nem tão “minis” assim — em meio ao trânsito pesado. Esses monovolumes são um fenômeno local, onde representam 4,5% do mercado de carros de passeio. As vendas anuais de MPVs (sigla de multi-purpose vehicles, ou veículos multiuso) passam de 1 milhão de unidades.

Se no Brasil as minivans praticamente sumiram do radar desde o “boom” nos anos 1990 e 2000, na China as MPVs vivem sua fase de ouro. Não são tratadas como meros transportes familiares, mas como salões móveis sobre rodas, ou confortáveis extensões do escritório.

Galeria: BYD M9 (Xia) - Primeiras impressões

A nova líder desse segmento é a Denza D9, muito usada como limusine executiva e que chegará ao Brasil no segundo semestre do ano que vem. Na vice-liderança vem a Toyota Sienna, favorita para uso particular/familiar. Em terceiro aparece a Buick GL8, que já foi a minivan oficial de todo executivo na China, mas perdeu o posto por ter demorado a ganhar uma versão PHEV.

Quase todos os fabricantes têm um representante nesse fascinante segmento. A lista de MPVs chinesas inclui GAC Trumpchi M8, XPeng X9, Zeekr 009, Voyah Dreamer e Volvo EM90, entre outras. Nossa favorita é a Li Auto Mega, por seu estilo ultrafuturista de nave espacial (ou mouse gigante, sei lá…). Vê-la de perto é como viver no tempo do Gordini e, de repente, ser lançado no mundo dos Jetsons.

É nesse ambiente altamente competitivo que, em janeiro passado, a BYD pôs em campo a Xia. Seu nome vem da dinastia que representou o "ponto zero" da civilização chinesa organizada, em 2070 a.C. (assim como Qin, Han, Tang, Song e Yuan também são nomes de dinastias). Em mercados de exportação, o modelo recebe outras denominações: nas Filipinas é eMax 9 e, no México, simplesmente M9.

Enquanto a Denza D9 ataca o mercado de luxo executivo (concorrendo com Mercedes-Benz Classe V e Toyota Alphard), a BYD Xia tem a missão de conquistar o mercado familiar premium (concorrendo com Toyota Sienna e Kia Carnival), mas com um preço mais acessível.

A Xia é mais curta e mais baixa que sua prima rica D9. Ainda assim, continua sendo uma minivan grandalhona (são 5,14 metros de comprimento e 3,04 m de entre-eixos) pensada para entregar comodidade absoluta. Em nossa recente viagem a Zhengzhou (China), pudemos conhecê-la tanto no banco do passageiro quanto ao volante.

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (11)

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (11)

Foto de: Motor1 Brasil

Viagem em primeira classe

Apesar de a Xia/M9 ter sido desenhada pela equipe do alemão Wolfgang Egger, seu estilo é puramente asiático, no que a BYD chama de “a face do dragão”. Segue a fórmula de outras MPVs chinesas e japonesas (em especial, a Toyota Alphard), com uma enorme grade cheia de elementos cromados encimada por estreitos faróis. É mais Jaspion que bonito.

Como esta minivan híbrida plug-in, com sete lugares (2+2+3), foi claramente projetada de trás para frente, com um espaço interno que você jamais terá no SUV da moda, começamos nosso test-drive da forma mais coerente possível: sentados na segunda fileira, onde a minivan realmente quer impressionar.

As versões intermediária e topo de linha trazem um sistema de projeção em realidade aumentada (AR, na sigla em inglês) para abrir as portas laterais corrediças e o porta-malas. Funciona assim: quando você se aproxima com a chave, o carro projeta no chão um ícone luminoso — e basta pisar nesse símbolo para que a porta ou o porta-malas se abra automaticamente. É uma solução mais futurista e intuitiva que o tradicional sensor de “chute sob o para-choque”.

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (23)

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (23)

Foto de: Motor1 Brasil

O que se revela aos nossos olhos é um ambiente acolhedor em tons de castanho e bege clarinho, com acabamento que impressiona até para padrões chineses atuais. O material sintético que imita couro é de primeira qualidade, muito suave ao toque.

A fila do meio tem poltronas-leito individuais típicas de primeira classe de avião. Quem se senta ali tem uma imediata sensação de relaxamento: amplos ajustes elétricos, apoiadores corretos, ventilação e aquecimento podem ser controlados instintivamente por teclas embutidas nos apoios de braço e nas laterais de portas. Mas o melhor é a suave massagem nas costas.

O recheio “gravidade-zero” (espuma de densidades variadas e estruturas que mantêm o corpo mais neutro durante longos períodos) distribui o peso do corpo de um jeito tão natural que, apesar da chuva forte lá fora, o ambiente é aconchegante como colo materno: quentinho e protegido. A vontade é nunca mais sair dali.

O teto panorâmico amplia a sensação de espaço, e mesinhas dobráveis (bem melhores que aquelas de avião) reforçam a vocação de lounge executivo sobre rodas.

O silêncio é outro impacto imediato. Vidros duplos, isolamento reforçado e o fato de o sistema híbrido quase sempre rodar em modo elétrico criam uma atmosfera hermética, de cabine pressurizada de jatinho. Fala-se baixo sem perceber.

Das colunas B para trás, os vidros são escurecidos, garantindo a privacidade dos passageiros. A iluminação suave e a tela de teto (escamoteável) de 15,6" compõem um ambiente em que o tempo parece desacelerar.

Uma curiosidade é o sistema de áudio DiSound, produzido pela própria BYD. Tem nada menos que 28 alto-falantes (inclusive nos encostos de cabeça) e 32 canais de áudio independentes, projetados, segundo o fabricante, “para criar uma experiência de cinema no carro”.

O telão escamoteável no teto

O telão escamoteável no teto

Foto de: Motor1 Brasil

Quem viaja na primeira ou na segunda fileiras dispõe ainda de um refrigerador/aquecedor que resfria até –6 °C ou esquenta até 50 °C — útil para manter bebidas geladas ou mamadeiras mornas.

A terceira fileira, claro, é mais modesta. O acesso é simples, há ventilação, aquecimento e janelas amplas, mas é um banco inteiriço, mais indicado a deslocamentos médios. Funciona bem, mas sem milagres — como em qualquer minivan com três fileiras.

Precisa fazer a terceira fileira “desaparecer” no assoalho para levar mais bagagem? Aperte uma tecla no porta-malas e um motorzinho elétrico se encarrega da mágica.

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (3)

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (3)

Foto de: Motor1 Brasil

Ao volante

Depois da terapêutica experiência como passageiro, guiamos a Xia pelos arredores do circuito que a BYD mantém em Zhengzhou. Foi o suficiente para perceber a suavidade do conjunto.

O volante não tem regulagens elétricas, apenas manuais. Em contrapartida, o retrovisor interno de TFT manteve a imagem limpa e nítida apesar da chuva forte. Mesmo quem tem astigmatismo consegue enxergar bem nesse “espelho digital” — algo raro em telas desse tipo.

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (9)

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (9)

Foto de: Motor1 Brasil

Numa manobra em U, para fazer um retorno, surpresa: é facílimo manobrar essa van com tração dianteira, 5,14 metros de ponta a ponta e 2,6 toneladas de peso. Conforme conferimos depois na ficha técnica, são 11,4 m de diâmetro de giro — número semelhante ao de SUVs médios como o Honda CR-V.

A direção é levinha e, ao entrar ou sair de vagas, a visão 3D do conjunto de câmeras torna tudo muito simples — a ponto de você esquecer o tamanho da minivan. O quadro de instrumentos impressiona ao exibir uma espécie de realidade virtual do entorno imediato, identificando pessoas e veículos próximos ao acostamento com precisão surpreendente, mesmo sob chuva.

Entre os ADAS, há controle de cruzeiro adaptativo, assistente de permanência e centralização em faixa, monitoramento de ponto cego e frenagem automática de emergência.

A suspensão é McPherson na dianteira e multibraço na traseira. Seu pulo do gato está no sistema DiSus-C, que usa válvulas solenóides nos amortecedores para ajustar eletronicamente, em tempo real, a rigidez da calibração. Mas a Xia não nasceu para ser provocada em curvas. Essa minivan foi desenhada para ser suave — e cumpre esse papel com convicção.

E não confunda o DiSus-C, que combina molas convencionais com amortecedores adaptativos,  com o DiSus-A (suspensão pneumática do Denza Z9 GT) ou com o DiSus-P (sistema hidráulico do YangWang U8). O Xia/M9 não tem a capacidade de alterar a altura da suspensão.

O motor a gasolina e o elétrico ficam na frente

O motor a gasolina e o elétrico ficam na frente

Foto de: Motor1 Brasil

Mais de 1.000 km de autonomia

Como os King, Song Pro e Song Plus vendidos no Brasil, a Xia/M9 adota um sistema híbrido PHEV DM-i com motor 1.5 e tração dianteira. A principal diferença é que, na nova minivan, o motor a combustão é turbocomprimido (com 156 cv), em vez de aspirado, aumentando sua eficiência.

São oferecidas duas opções de bateria Blade (LFP): 20,4 kWh e 36,6 kWh, que proporcionam autonomias puramente elétricas de 100 km e 216 km, respectivamente (pelo super otimista ciclo chinês CLTC). A recarga rápida entre 30% e 80% leva só 18 minutos. Na maior parte das operações em uso urbano, é o motor elétrico quem leva a minivan.

Já o 1.5 turbo serve principalmente como gerador, alimentando a bateria ou, diretamente, o motor elétrico (de 272 cv). Em velocidades de estrada, uma embreagem pode conectar o motor a combustão às rodas. A transição é muito suave, quase imperceptível — e reina o silêncio. O motorista se sente conduzindo um elétrico puro.

A potência combinada é de 428 cv. Mesmo com todo o peso, a aceleração de 0 a 100 km/h pode ser feita em pouco menos de 9 segundos.

Em uso misto, as médias de consumo ficam na casa dos 16 a 17 km/l, o que é excelente para um carro tão pesado e cheio de mimos. Como o passeio foi curto, não pudemos avaliar a autonomia combinada. Segundo a BYD, vai de 1.060 km a 1.163 km (sempre pelo ciclo CLTC).

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (1)

BYD M9 - ou Xia (foto - Jason Vogel) (1)

Foto de: Motor1 Brasil

Quanto custa a passagem?

Em resumo, a M9 é o veículo de quatro rodas mais confortável em que já pegamos carona nesses 31 anos de jornalismo automotivo. Seria moleza encarar seus mais de mil quilômetros de autonomia de uma só tacada — especialmente ali na segunda fileira…


O que você pensa sobre isso?

Para quem curte a ideia de viajar na primeira classe, vale dizer que a Xia custa entre 249.800 e 285.800 yuan na China (de R$ 188.354 a R$ 215.500 na conversão direta) — uma pechincha para tudo o que oferece. No México, a M9 sai por 979.800 pesos mexicanos (ou R$ 285.200).

Ainda que vans desse tipo sejam “o nicho do nicho” no Brasil, a BYD já anunciou que venderá por aqui a prima rica Denza D9, a partir do ano que vem. Quem sabe não sobra um espacinho no navio para trazer a M9 como opção mais em conta?

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