Teste BYD Atto 8: experiência de elétrico em um SUV híbrido de 7 lugares
Por R$ 399.990, aposta em amplo espaço interno, tecnologia e autonomia para desafiar rivais mais caros
O Atto 8 representa um momento importante para a BYD no Brasil. Se modelos como Dolphin Mini e Song Plus ajudaram a popularizar a marca, agora a fabricante chinesa aumenta o foco nos consumidores dispostos a investir perto de R$ 400 mil em um SUV eletrificado. Para isso, aposta em uma receita que combina sete lugares, tração integral, 488 cv de potência, ampla autonomia elétrica e um pacote de equipamentos capaz de competir com veículos de categorias superiores.
Não dá para negar que a proposta é ambiciosa, mas a BYD tem mostrado, mês após mês, que conhece cada vez melhor o mercado brasileiro, o que torna natural vê-la avançar para segmentos mais sofisticados. A questão é saber se o Atto 8 consegue justificar esse salto. Depois de alguns dias ao volante, ficou mais fácil chegar a essa resposta.
SUV global
Embora tenha sido desenvolvido inicialmente para a China, o Atto 8 é claramente um produto pensado para a expansão global da BYD. O amplo espaço interno, o pacote tecnológico e a autonomia elétrica refletem preferências do consumidor chinês, enquanto acabamento, calibração dinâmica e qualidade percebida mostram uma preocupação maior em atender também mercados mais exigentes, como Europa, Austrália e América Latina.
Construído sobre a arquitetura eletrificada da BYD, o SUV combina um motor 1.5 turbo a gasolina com dois motores elétricos, um em cada eixo, formando o conjunto híbrido plug-in DM-p com tração integral. A proposta é clara: ocupar o espaço entre SUVs generalistas de sete lugares e modelos premium tradicionais, oferecendo alto nível de eletrificação, bastante desempenho e um pacote generoso de equipamentos.
Com preço de R$ 399.990, o Atto 8 entra em uma faixa significativamente inferior à de SUVs premium alemães de porte semelhante, mas disputa atenção com modelos eletrificados sofisticados, como o GWM Wey 07, vendido por R$ 429.000 e com proposta semelhante em potência, desempenho e autonomia elétrica.
Interior
De um SUV com mais de cinco metros de comprimento, naturalmente se espera bastante espaço interno. Ainda assim, o Atto 8 consegue superar as expectativas, principalmente na segunda fileira. O espaço para pernas impressiona e reforça sua vocação como um legítimo SUV familiar.
Já tendo testado vários modelos BYD, achei que aqui a cabine passa mais refinamento, com acabamento de qualidade superior ao que muitos ainda associam à marca. Há materiais macios ao toque em diferentes áreas, boa montagem e sensação geral de solidez. Os bancos são confortáveis e oferecem ajustes elétricos, além de ventilação, aquecimento e função de massagem nos assentos dianteiros e também na segunda fileira, algo raro mesmo em veículos de categoria superior.
Outro ponto positivo é a ergonomia. A quantidade de recursos embarcados pode parecer intimidadora em um primeiro momento, mas a adaptação é rápida. A central multimídia já utiliza a interface mais recente da BYD, mais intuitiva e ágil, enquanto a posição elevada de dirigir e as câmeras com visão 360° facilitam bastante as manobras, reduzindo a sensação de estar ao volante de um SUV com mais de cinco metros de comprimento.
Uma das principais características do Atto 8 é justamente a terceira fileira de bancos. Embora seja voltada principalmente ao uso eventual, consegue acomodar dois adultos de estatura média em trajetos curtos ou médios, algo que nem sempre acontece entre SUVs de sete lugares. O mecanismo de rebatimento é simples e facilita alternar entre espaço para passageiros e bagagem. Ainda está distante da habitabilidade oferecida por modelos maiores e mais caros, mas supera boa parte dos utilitários 5+2 vendidos atualmente no mercado brasileiro.
O pacote de equipamentos é amplo e confirma o posicionamento sofisticado do modelo. O Atto 8 traz central multimídia giratória de grandes dimensões, painel digital, head-up display, teto panorâmico, carregamento por indução, sistema de som premium e um conjunto ADAS bastante completo. Um ponto positivo é a evolução perceptível desses assistentes: diferentemente dos primeiros modelos da BYD vendidos no Brasil, o sistema agora parece mais maduro e melhor calibrado, atuando de forma menos intrusiva e sem gerar incômodos durante a condução.
Ao volante
Dirigindo na cidade, o Atto 8 chamou atenção principalmente por um aspecto que eu não esperava nesse nível: eficiência. Considerando seu porte, peso e potência, o SUV entregou consumo melhor do que o imaginado, registrando médias comparáveis às de SUVs menores e bem menos potentes.
Durante a avaliação, além do uso diário, o carro foi utilizado em uma viagem ao interior com trechos de pista simples, autopista e circulação urbana, além de deslocamentos diários em cidade.
Na estrada, o que mais surpreendeu foi o desempenho mesmo com a bateria próxima do nível mínimo de operação, em torno de 20%. O gerenciamento do sistema híbrido prioriza bastante o uso da energia elétrica, mas quando a carga atinge esse patamar o motor a combustão passa a trabalhar para sustentar o estado de carga.
Um detalhe interessante é que o sistema não parece se esforçar para elevar rapidamente o percentual da bateria; sua estratégia parece ser manter a carga próxima desse nível mínimo, garantindo reserva de energia suficiente para preservar desempenho e eficiência. E mesmo com carga baixa, a entrega de potência permanece consistente, com acelerações e retomadas fortes.
E tudo isso comprovado em nossos testes: o Atto 8 acelerou de 0 a 100 km/h em apenas 4,9 segundos, exatamente em linha com o tempo divulgado oficialmente pela BYD. Também registrou 0 a 60 km/h em 2,3 segundos e 0 a 80 km/h em 3,4 segundos, enquanto as retomadas de 40 a 100 km/h e de 80 a 120 km/h foram concluídas em 3,5 segundos e 3,4 segundos, respectivamente. O dado mais interessante é que esses números foram obtidos com a bateria em apenas 28% de carga, mostrando que o sistema DM-p consegue preservar praticamente toda sua capacidade de entrega de potência mesmo longe dos 100%.
Na cidade, o Atto 8 também impressiona pela eficiência. Um ponto importante é que os números de consumo obtidos no teste foram medidos com a bateria já no nível mínimo de operação, entre 19% e 22%, com o sistema mantendo SOC de 20%. Na prática, o SUV já operava principalmente em modo híbrido sustentado, e não mais como elétrico puro.
Ainda assim, registrou 16,4 km/l em ciclo urbano e 13 km/l em rodovia, números excelentes para um veículo com mais de 2,5 toneladas e 488 cv. Isso mostra que o Atto 8 não impressiona apenas quando está com bateria cheia; mesmo após esgotar praticamente toda a autonomia elétrica utilizável, ele mantém eficiência surpreendentemente alta.
Em modo totalmente elétrico, a autonomia real chegou a 123 km, superando a homologação oficial do Inmetro, de 111 km. A diferença de cerca de 11% sugere que, em uso urbano moderado e com condução eficiente, é plenamente possível superar o número oficial.
Dinamicamante, o Atto 8 se comporta como um SUV grande, e ele não esconde isso. São mais de cinco metros de comprimento e massa elevada, mas a manobrabilidade surpreende positivamente. Considerando as dimensões, ele não parece desajeitado em uso urbano nem em manobras de baixa velocidade.
A suspensão é claramente voltada ao conforto, mas com bom equilíbrio. Absorve bem imperfeições sem deixar a carroceria excessivamente solta. Ainda não alcança o refinamento de chassis e suspensão de SUVs premium alemães, especialmente em controle de movimentos e leitura fina do piso, mas também está longe de decepcionar. O bom isolamento acústico contribui bastante para elevar a percepção de qualidade.
A direção segue a mesma filosofia. É leve e agradável em manobras, condizente com a proposta familiar, mas transmite pouca informação ao motorista. Falta comunicação com o asfalto e um pouco mais de precisão em condução mais rápida. Os freios também poderiam oferecer feedback melhor, especialmente em progressividade do pedal, já que a transição entre regeneração e frenagem hidráulica nem sempre é tão natural quanto poderia.
Apesar dos 488 cv e do desempenho digno de esportivo, vamos deixar claro que Atto 8 não tem pretensão esportiva. O conjunto direção, suspensão e calibração dinâmica não instiga condução agressiva. A potência está sempre disponível quando necessária - especialmente em ultrapassagens e retomadas -, mas o SUV claramente prefere entregar desempenho com suavidade, não com esportividade.
Bateria, eficiência e recarga
Entre os híbridos plug-in da própria BYD, o Atto 8 se destaca pela bateria de maior capacidade. O SUV utiliza um pack Blade de 35,6 kWh, com química LFP (lítio-ferro-fosfato), tecnologia amplamente utilizada pela marca e reconhecida por priorizar segurança térmica, durabilidade e estabilidade.
Enquanto boa parte dos híbridos plug-in oferece autonomia elétrica suficiente apenas para deslocamentos curtos, o Atto 8 consegue percorrer distâncias próximas às de alguns carros elétricos compactos antes de acionar o motor a combustão.
Para quem possui estrutura de recarga em casa ou no trabalho, há potencial real de rodar longos períodos consumindo pouco ou nenhum combustível, deixando o motor a combustão concentrado em viagens e deslocamentos mais longos.
Galeria: Teste: BYD Atto 8 DM-p (BR)
Mercado e rivais
O Atto 8 ocupa hoje um nicho relativamente específico no mercado brasileiro. Seu concorrente mais próximo em proposta é o GWM Wey 07, vendido por R$ 429.000 e que aposta em uma receita semelhante, combinando motorização híbrida plug-in, alta potência, sete lugares e foco em conforto.
Fora dele, a disputa passa a acontecer com SUVs premium tradicionais, mas sob uma lógica diferente. Em vez de tentar oferecer o mesmo refinamento dinâmico de marcas alemãs, o BYD aposta em uma combinação difícil de encontrar nessa faixa de preço: amplo espaço interno, autonomia elétrica elevada, desempenho de esportivo, bom nível de conforto e um pacote de equipamentos bastante completo. Por R$ 399.990, acaba construindo uma proposta própria dentro do segmento, mais voltada ao conteúdo entregue do que ao prestígio da marca.
Conclusão
O Atto 8 mostra que a BYD entrou em uma nova fase no mercado brasileiro. Se antes a marca conquistou espaço principalmente pela eletrificação e pelo custo-benefício, agora passa a apresentar produtos para disputar segmentos mais caros sem depender apenas desses argumentos. Mas isso não significa que o SUV entregue o mesmo refinamento de condução de modelos premium alemães.
Por outro lado, dificilmente esse será o fator decisivo para quem o considera como opção. O grande mérito do Atto 8 está no equilíbrio do conjunto ao reunir um interior espaçoso, terceira fileira realmente utilizável, acabamento convincente, ampla autonomia elétrica, desempenho de esportivo e consumo surpreendentemente baixo para um SUV de mais de cinco metros de comprimento, além de um pacote bem completo.
Por R$ 399.990, o Atto 8 acaba construindo uma proposta bem particular. Em vez de competir pelo prestígio da marca ou pelo refinamento absoluto, entrega um conjunto difícil de igualar nessa faixa de preço. Para quem procura um SUV híbrido plug-in de sete lugares e valoriza conforto, tecnologia, espaço e eficiência acima de esportividade, ele pode ser uma alternativa bem interessante.
Fotos: Mario Villaescusa (para o Motor1.com)/Teste: David Costa
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