Exclusivo: "Se eles vierem, vão me tirar fora", diz Gandini sobre futuro da Kia no Brasil
Em entrevista ao Motor1.com Brasil, executivo afirma que negociação envolvendo antiga dívida da Asia Motors depende exclusivamente da matriz da Kia e do governo federal.
As informações de que a Kia pode assumir diretamente a operação brasileira e instalar uma fábrica no País ganharam força nesta sexta-feira (17). A história surgiu após postagem do jornalista João Anacleto em seu perfil do Instagram. Em meio aos rumores, José Luiz Gandini, responsável pela representação da marca no Brasil há 34 anos, conversou com com o Motor1.com Brasil para esclarecer como está a negociação envolvendo a Kia Motors Corporation e o governo federal.
O executivo confirma que existe uma negociação relacionada ao antigo passivo da Asia Motors do Brasil, mas faz questão de separar sua operação desse processo. Segundo ele, ainda não há qualquer acordo firmado, tampouco existe definição sobre uma eventual mudança no comando da marca sul-coreana no País. Gandini também reforça que segue normalmente à frente da Kia Brasil e confirma o lançamento da inédita picape Tasman em agosto.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Kia K4 sedã 2027
"A negociação é entre a Kia Motors Corporation e o governo"
Motor1.com Brasil: Existe uma negociação para que a Kia assuma a antiga dívida da Asia Motors em troca da construção de uma fábrica no Brasil?
José Luiz Gandini: A Asia Motors do Brasil ficou com essa dívida lá atrás. Falam em R$ 6 bilhões, mas eu não sei o valor porque isso é sigilo. O problema é que, para o governo, aparece a Kia, mas a Kia não era proprietária da Asia, era acionista. Há cerca de 20 anos eles tentam provar isso na Justiça.
Motor1.com Brasil: O que mudou agora?
José Luiz Gandini: O governo lançou uma nova lei que reduz juros e multas para quem negociar dívidas federais. O que a Kia quer é resolver essa questão para acabar com essa discussão. Se houver um acordo, aí eles propõem construir uma fábrica da Kia no Brasil. Não tem nada a ver com Hyundai fabricar carro da Kia. Estão misturando muita coisa.
"Eu não participo dessa negociação"
Apesar de seu nome estar diretamente ligado à Kia no Brasil, Gandini afirma que não faz parte das conversas entre a matriz e o governo.
Motor1.com Brasil: Como essa negociação afeta sua operação?
José Luiz Gandini: Não afeta. Eu sou importador e distribuidor da Kia no Brasil há 34 anos. A negociação é entre a Kia Motors Corporation e o governo federal. Eu não devo nada para o governo, não participo dessas conversas e não sei os detalhes.
Motor1.com Brasil: Caso a fábrica seja aprovada, como ficaria sua posição?
José Luiz Gandini: Se a Kia conseguir acertar com o governo e montar uma fábrica aqui, eles assumem toda a operação. Ficam com os concessionários, passam a importar os carros e fabricar no Brasil. A rede é deles, nunca foi minha.
Kia Tasman será lançada em 17 de agosto no Brasil
"Hoje não existe absolutamente nada"
Nas últimas horas, reportagens apontaram que a transição da operação brasileira já estaria encaminhada. Mas Gandini nega que exista qualquer definição.
Motor1.com Brasil: Então ainda não há nenhuma decisão tomada?
José Luiz Gandini: Nada. Não existe nada hoje. Tudo isso que está nas matérias é especulação, porque não tem nada certo. Zero.
Como argumento, o executivo cita o cronograma de lançamentos da própria Kia Brasil.
José Luiz Gandini: A prova disso é que vou lançar a picape Tasman no Brasil no dia 17 de agosto. Se eu não fosse mais o distribuidor da marca, não estaria lançando um carro novo.
Segundo Gandini, o planejamento apresentado pela Kia durante o último Salão do Automóvel de São Paulo segue mantido.
José Luiz Gandini: Nosso objetivo continua sendo trazer todos aqueles produtos apresentados. A próxima é a Tasman e depois vêm outros modelos. Isso só muda se a Kia assumir diretamente a operação.
"Se eles vierem, vão me tirar fora"
Embora reforce que nada foi decidido, Gandini reconhece que uma fábrica própria mudaria completamente a estrutura da Kia no Brasil.
Motor1.com Brasil: Você acredita que pode estar chegando ao fim sua trajetória à frente da marca?
José Luiz Gandini: Nada é eterno na vida. Se eles vierem para o Brasil, vão me tirar fora. Isso é certeza. Não pode ficar eu e eles juntos. Quem fabrica também distribui, como acontece com outras montadoras.
Ainda assim, o executivo afirma que gostaria de continuar ligado à Kia.
José Luiz Gandini: Eles me perguntaram se eu gostaria de ser concessionário e eu disse que sim. Mas não existe nada acertado. Se me oferecerem, pode ser. Eu quero continuar, não quero sair.
O empresário lembra que também possui outras operações ligadas ao grupo.
José Luiz Gandini: Temos a fábrica do Bongo no Uruguai, a distribuição da Kia no Uruguai e outros negócios. Mas nada começou a ser discutido porque primeiro eles precisam resolver essa questão com o governo.
O que está por trás da negociação
A discussão envolve a antiga Asia Motors do Brasil, empresa que recebeu incentivos fiscais na década de 1990 para construir uma fábrica no País, projeto que nunca foi concluído. A cobrança desse passivo vem sendo discutida judicialmente há décadas, enquanto a Kia sustenta que não pode ser responsabilizada pela dívida da antiga operação brasileira.
Nos bastidores da indústria, fontes apontam que a negociação com o governo poderia abrir caminho para a construção de uma fábrica da Kia no Brasil, possivelmente em Piracicaba (SP), ao lado da unidade da Hyundai. Também circulam informações de que a matriz assumiria diretamente a operação comercial da marca no País.
Questionado sobre esse cenário, Gandini evita confirmar qualquer movimentação.
"Se não acertar com o governo, eles não vêm para o Brasil."
Por enquanto, segundo ele, a única certeza é que a Kia Brasil continua operando normalmente sob sua gestão, com novos produtos previstos para os próximos meses, incluindo a chegada da inédita Tasman ao mercado brasileiro em agosto.
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