Avaliação Mitsubishi Eclipse Cross HPE-S AWD 2026: caminhando sobre trilhos
Ele sempre teve presença discreta e quer manter legado do esportivo dos anos 1990; consegue?
Se você, assim como eu, nasceu entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010, provavelmente ao ouvir o nome Eclipse sua memória viajará para filmes como Velozes e Furiosos ou para a saga de jogos Need for Speed. O carro, que começou a vida como um coupé esportivo com status cult, mudou muito com o passar do tempo.
E quando falo em mudança, é daquelas transformações profundas. Como um jovem dos anos 2000 que amadurece, assume responsabilidades e talvez até construa uma família, o Eclipse também trocou a rebeldia da juventude por uma postura mais sóbria. Ainda assim, por baixo da rotina e da praticidade, o espírito mais aspiracional segue vivo como Eclipse Cross.
Mitsubishi Eclipse Cross HPE-S 2026
Longe de ser apenas mais um SUV médio sem graça, o Eclipse Cross guarda uma personalidade própria. Frente aos antigos cupês pode soar mais disciplinado, mas basta provocá-lo para que mostre um lado divertido, sustentado por um conjunto de suspensão com McPherson na dianteira e multilink na traseira.
É aí que entra a sensação de “caminhar sobre os trilhos”. A dirigibilidade do Eclipse Cross transmite uma estabilidade surpreendente para um SUV dessa categoria. Em curvas sinuosas, ele parece seguir por um caminho invisível, colado ao asfalto como se fosse guiado por linhas de ferro. A tração integral reforça essa impressão, distribuindo a força entre os eixos e garantindo firmeza mesmo quando a carroceria se inclina, como é natural em utilitários mais altos.
Na prática, dirigir o Eclipse Cross lembra mais a experiência de um bom sedã assentado do que de um SUV tradicional. Uma breve passagem pela Estrada dos Romeiros, no interior de São Paulo, foi suficiente para deixar claro esse lado: em poucos quilômetros, o carro deixou escapar fragmentos da agilidade que fez sua história nos anos 1990, agora embrulhados em uma carroceria maior, mais prática e adaptada ao cotidiano.
Se curvas não são sua praia..
Agora entramos na parte mais racional do texto — e também do Eclipse. Ao preço de R$ 222.990, a versão HPE-S 4x4 é a forma mais barata de se obter um SUV médio com tração sob demanda. Sustentado pela mesma base dos finados ASX e Lancer, o modelo também é ligeiramente maior do que o concorrente a ser batido na categoria: o Jeep Compass.
No Eclipse, são 4.545 mm de comprimento e 2.670 mm de entre-eixos, contra 4.404 mm e 2.636 mm do Compass. Ainda que o design “acupezado” possa sugerir o contrário, o espaço interno se traduz em mais conforto para as pernas e sensação de cabine arejada. No porta-malas, por sua vez, aparece mais uma vantagem do modelo nipo-brasileiro: 473 litros contra 410 litros do Jeep.
Nem tudo são flores, entretanto. Por ser um projeto concebido e lançado na década passada, o Eclipse Cross traz poucas mudanças tecnológicas desde sua chegada. Basta entrar na cabine, ainda repleta de botões herdados de outros Mitsubishi dos anos 2010, para que o SUV comece a revelar sua idade.
Também não há saídas de ar-condicionado para a parte traseira da cabine nem painel de instrumentos digital, recurso que já aparece até mesmo em compactos de entrada. Como forma de compensar essa ausência, a Mitsubishi passou a equipar o SUV com um Head-Up Display à frente do dashboard. Não é a solução mais tecnológica, já que a grafia é pequena e as opções de personalização são limitadas, mas cumpre sua função no uso diário.
Os comandos dos retrovisores elétricos, que contam com rebatimento nesta versão, ficam em uma posição incômoda junto ao puxador da porta. Outros controles, como as teclas de mudança de tela do HUD, o Lane Assist, o ajuste de altura dos faróis dianteiros e a abertura automatizada do porta-malas, estão concentrados ao lado do motorista. Eles exigem maior atenção e não são nada práticos de serem utilizados.
Relação de equilíbrio
É na motorização e no preço, entretanto, que o SUV mostra seu lado mais racional. Enquanto no exterior o Eclipse Cross já recebe versão híbrida, o modelo brasileiro ainda permanece restrito à combustão. Isso não significa que seja um motor ultrapassado. Trata-se do 1.5 turbo 4B40, com injeção direta e indireta de combustível, variador de fase no comando de admissão (MIVEC), 165 cv de potência e 25,5 kgfm de torque. Ele trabalha em conjunto com o câmbio automático CVT, que simula oito marchas virtuais e pode ser operado também pelas aletas posicionadas atrás do volante.
Também não é o mais rápido da categoria. Com relação peso-potência de 9,72 kg/cv e peso-torque de 62,9 kg/kgfm, o Eclipse Cross fica distante do Jeep Compass Blackhawk com motor 2.0 Hurricane 4, única versão do SUV que ainda conta com tração AWD. O rival entrega 272 cv e 40,8 kgfm.
Essa diferença também se reflete no preço. Enquanto o Compass Blackhawk Hurricane já está bem mais próximo dos R$ 300 mil (custa R$ 279.990), o Eclipse Cross HPE-S 4x4 sai por R$ 222.990. Pouco a mais do que alguns SUVs compactos topo de linha, caso do Nissan Kicks Platinum 1.0T, que custa R$199.000, ou o Honda HR-V 1.5T Turing (R$ 209.900), que já passa dos R$ 200 mil.
Seu maior pecado, porém, é ser abastecido apenas com gasolina. Em tempos de combustível E30 nos postos, com maior concentração de etanol, depender de apenas um tipo de combustível não parece a escolha mais preparada no longo prazo, podendo acarretar em problemas nos bicos ou carbonização, e até mesmo uma preferência do mercado.
A solução? Bastava a HPE, representante da Mitsubishi por aqui, adaptá-lo ao sistema flexível. Não seria nenhuma novidade, já que o grupo tem histórico de adaptações do tipo em solo brasileiro. É da Mitsubishi, por exemplo, o feito de ter criado o primeiro V6 Flex do Brasil, com a Pajero Sport, ainda na década de 2000, algo que se seguiu com o TR4, o Lancer e o ASX.
Um injustiçado?
Não é preciso dizer que o Eclipse Cross é figurinha rara nas ruas. Em 2024, foram 8.301 unidades emplacadas no Brasil — praticamente o que Jeep Compass ou Toyota Corolla Cross vendem em um único mês. E isso diz muito mais sobre o mercado do que sobre o carro em si.
Ele é como aquele seu colega que vivia na turma do fundão, fazia piada nas aulas, andava de boné para trás e escutava rock alto nos intervalos. Ainda assim, tirava boas notas. Com o tempo, a idade o levou a ficar mais na dele. Trocou as roupas largas pelo blazer, passou a ouvir mais do que falar. Mas quando alguém o chama para um happy hour, ele ainda é a sensação da mesa. O problema é que poucos sabem disso.
Pense: quantas propagandas você viu nos últimos anos — seja online ou pessoalmente — de algum carro da Mitsubishi? Talvez esse seja o maior obstáculo do Eclipse Cross. Ele entrega desempenho, conforto, consumo, tração integral e equilíbrio entre razão e emoção. Só falta que alguém avise isso para o público.
Fotos: Mario Villaescusa (para o Motor1.com)
Mitsubishi Eclipse Cross 1.5T AWD
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