Teste: Ram Dakota Laramie 2026 é para quem não tem Ram
Picape média pode ser uma Fiat Titano reestilizada, mas, para quem não tem uma Ram, chama a atenção
Quando a Ram lançou a Rampage, teve quem torcesse o nariz para a primeira picape nacional e monobloco da marca, ainda mais por ser derivada da Fiat Toro. Mas a Rampage está por aí e não é difícil trombar com uma nas ruas. A chegada da Dakota, com as vendas tendo início em março, pôs a marca de caminhonetes da Stellantis para tentar repetir a fórmula.
Isso porque a Ram Dakota é basicamente uma Fiat Titano com melhorias. A da Fiat já era uma derivação da Peugeot Landrtrek que, por sua vez, foi feita em parceria com chinesa Changan. A Fiat retrabalhou a Titano, mas ainda usa uma versão desatualizada da chinesa. A Hunter mais recente teve elementos aproveitados pela Dakota. Então não, essa não é uma Ram de fato. Mas a Rampage superou esse estigma e deve até receber uma nova geração. E se a Dakota não é uma Ram no sentido literal da palavra, essa versão Laramie de R$ 322.990 é o quê?
Equipamentos "Fiat+"
Se a Fiat Titano tem uma lista de itens de série mais enxuta, a Ram abriu as porteiras para oferecer a Dakota com tudo o que a plataforma permitia. Mas a questão é que ela não permitiu muito e há diversos itens já encontrados na prima da Fiat, com alguns acréscimos da Changan Hunter mais atualizada.
A Ram Dakota Laramie aposta em grade cromada e iluminada, rodas de 18", iluminação full LED com função cornering e barra traseira iluminada em LED. Por dentro, o destaque fica para o pacote de conforto. A cabine traz bancos revestidos em couro marrom, acabamento parcial em couro no painel e portas, além de ar-condicionado digital de duas zonas. O conjunto multimídia combina central de 12,3" com Android Auto e Apple CarPlay sem fio, quadro de instrumentos digital de 7" e carregador por indução refrigerado. Passageiros traseiros ainda contam com saídas de ar dedicadas e banco bipartido 60/40.
Entre os itens de assistência à condução aparecem piloto automático adaptativo, frenagem autônoma de emergência com detecção de pedestres e ciclistas, monitoramento de ponto cego, alerta ativo de permanência em faixa, tráfego cruzado traseiro e câmera 540°, além de sensores dianteiros e traseiros.
Sob o capô, a Dakota utiliza um motor 2.2 turbodiesel de quatro cilindros, capaz de entregar 200 cv a 3.500 rpm e 45,9 kgfm já a 1.500 rpm. O conjunto trabalha com câmbio automático de oito marchas e sistema de tração 4x4 com modos 2H, 4x4 Auto e reduzida, além de bloqueio do diferencial traseiro e seletor específico para terrenos de baixa aderência. A capacidade de carga chega a 1.020 kg, enquanto o reboque suportado alcança 3.500 kg.
Em dimensões, a Dakota tem 5,36 m de comprimento, 3,18 m de entre-eixos e 22,9 cm de altura livre do solo. A caçamba oferece 1.210 litros de volume, com 1,58 m de comprimento útil, enquanto o tanque de combustível comporta 80 litros.
Na suspensão, a receita segue conservadora, mas focada em robustez: duplo A independente na dianteira e eixo rígido com feixe de molas atrás, combinação tradicional em picapes médias. O conjunto é complementado por quatro modos de condução (Normal, Sport, Snow e Sand/Mud), controle de descida e assistente de partida em rampas.
Para quem quer Ram, não para quem tem Ram
Algo que é muito característico entre as picapes da Ram é o "paredão" de grade dianteira. Isso vale desde a Rampage até 3500. E talvez é daí que vem a maior estranheza com a Dakota. Visualmente, é uma picape média tradicional com elementos da Ram. Até colocou-se um filete iluminado, mas não inovou nem entrou na tradição da marca.
A Stellantis até tentou: o formato da grade é similar, o capô é exclusivo da Dakota e o resultado é uma dianteira mais agradável e moderna na Ram que na Fiat Titano. Mas parece que o orçamento acabou na mudança para a dianteira. De perfil e na traseira, Dakota e Titano guardam poucas diferenças. Até os pneus são os mesmos entre as duas: Bridgestone Dueler H/T de medida 265/60 R18. Olhando de lateral, pode ser qualquer picape média vendida no Brasil.
Para quem já viu ou teve uma picape da Ram - e aqui falo até da Rampage -, o interior da Dakota não impressiona. Para quem já andou de Ram 1500, falta requinte. Porém, o salto de qualidade na comparação com a Titano é enorme. Desde as telas digitais integradas até o intensivo uso de couro e materiais macios ao toque, nem parece que Fiat e Ram usam a mesma base para suas picapes médias.
O grande trunfo da Dakota é seu conjunto mecânico acertado. O 2.2 turbodiesel responde bem e o câmbio automático de 8 marchas sabe fazer as trocas sem tranco e é bem inteligente ao considerar tanto aclives quanto a carga demandada pelo acelerador. É comum a câmbios com tantas ou mais relações, especialmente em motores a diesel, ficarem caçando marcha, trocando constantemente. Na Dakota não. O problema é que você pode ter isso na Fiat Titano também.
Algo que surpreendeu com esse conjunto foi o consumo rodoviário de quase 15 km/l em nossos testes. Com um tanque de 80 litros de capacidade, a Dakota beira uma autonomia teórica de 1.200 km. Por aqui, rodamos quase 800 e a picape não tinha acusado reserva. Isso rodando com mais de um motorista e em situações das mais diversas, incluindo a pequena brincadeira no off-road das fotos.
A Ram Dakota teve mais surpresas? Sim, mas não das boas. O isolamento acústico na estrada, olhem só, é o mesmo da Titano. Então há um notável ruído de vento na cabine, especialmente a 120 km/h. A suspensão também poderia ser melhor. O eixo traseiro, provavelmente pensado para rodar com carga, é muito rígido e parece que a picape nunca para totalmente de pular em pavimentos ruins, como trechos de concreto.
A dianteira é o oposto: muito macia. Beirou o susto quando a Dakota bateu fim de curso na suspensão dianteira numa ondulação de via expressa a 90 km/h com a picape descarregada. E se você não passar realmente devagar em lombadas, também vai bater fim de curso. Para quem já andou em qualquer outra Ram, a Dakota não entrega o mesmo requinte ao rodar.
Não consigo chegar aqui para vocês e falar que a Dakota é uma Ram de verdade. Mas não preciso, a picape foi uma oportunidade que a Stellantis viu de requintar a Fiat Titano e dar à sua marca de picaponas uma opção no segmento médio. A Dakota acaba oferecendo basicamente os equipamentos uma Ford Ranger ou Toyota Hilux mais completas por preço mais próximo das configurações intermediárias.
E tem mais: a Dakota não é para o público da Ram. Argumento aqui que a picape tem mais apelo para quem já tem uma picape média com seus 10 ou 15 anos de uso, mas está vendo que a barreira dos R$ 400 mil para comprar uma 0km está para ser quebrada. Também serve a esse público no sentido de ser maior e mais tradicional que a Rampage, não tem motor V8 a gasolina que nem a 1500 e não pede CNH C ou superior como as 2500 e 3500. Em resumo, é uma Ram para quem não tem uma. E vai servir mais de porta de entrada para a experiência da marca do que para ser uma Ram de verdade.
Fotos: Mario Villaescusa (para o Motor1.com)
Ram Dakota 2.2TD
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