As dez Ferrari mais feias de todos os tempos (antes da Luce)
Que tal essas criações, agora sob a perspectiva do novo modelo elétrico?
A Ferrari Luce foi o grande assunto automobilístico da semana pela revolução que representa na casa de Maranello. Se a Purosangue já tinha causado muxoxos por ser um “quase SUV” de quatro portas e 2.033 quilos, o que dizer da Luce, que, além de maior e mais pesada, é 100% elétrica e tem design de iPhone?
Com isso em mente, saímos atrás de dez Ferrari — quase todas de produção especial — que desafiaram corajosamente os padrões convencionais de beleza. Algumas são fascinantes. Outras assustadoras. A maioria consegue ser as duas coisas ao mesmo tempo.
Ferrari 330 GT Shooting Brake Vignale (Foto Bonhams)
1. Ferrari 330 GT Shooting Brake Vignale (1967)
O piloto Luigi Chinetti foi o primeiro representante da Ferrari nos Estados Unidos. Mais que isso, foi ele quem convenceu Enzo Ferrari a produzir carros de rua para americanos endinheirados. Imagine o prestígio que desfrutava na fábrica.
Seu filho, o também piloto Luigi “Coco” Chinetti Jr., herdou esse entusiasmo pela marca, a ponto de criar belos modelos personalizados. Mas houve alguns pontos fora da curva... Em 1967, “Coco” e o ilustrador Bob Peak, mais conhecido pelos cartazes que desenhava para Hollywood, conceberam uma delirante shooting brake sobre a base de uma elegante Ferrari 330 GT usada.
O encarroçador italiano Alfredo Vignale transformou o desenho em realidade e chegou a exibi-la no Salão de Turim. Tinha dianteira de muscle car americano, colunas “C” ultralargas e traseira que parecia um puxadinho de blindex na varanda.
Debaixo da confusão visual, porém, havia um glorioso V12 Colombo de 4 litros e 300 cv. Décadas depois, Jay Kay, do Jamiroquai, foi proprietário, por uns tempos, dessa shooting brake única.
Ferrari 330 GT Navarro (4)
2. Ferrari 330 GT Navarro (1966)
O italiano Norbert Navarro, que fez fortuna com casas noturnas, queria uma Ferrari 330 GT 2+2, mas achava seu desenho pouco inspirado. Daí fez um esboço de seu carro ideal e encomendou sua construção a Piero Drogo, da Carrozzeria Sports Cars, de Modena.
O carro lembrava um superesportivo desenhado a régua por um estudante da 5ª série. Detalhes como as rabetas de teto exageradas, os pronunciados balanços dianteiro e traseiro, a grade boca de robô e as portas minúsculas criavam proporções quase caricatas. Pelo menos a mecânica permanecia impecável: um legítimo V12 Colombo sob toda a extravagância metálica.
Esse pesadelo dourado acabou chamando a atenção de Luigi Chinetti, que comprou o carro de Navarro já pensando em potenciais clientes nos EUA — talvez na porta de algum cassino de Las Vegas. E fato é que a Ferrari 330 GT Navarro já encontrou muitos donos desde então, provando que gosto não se discute.
3. Ferrari FZ93 Zagato (1993)
No início dos anos 1990, a Zagato atravessava uma crise que ameaçava sua sobrevivência. Foi nesse cenário que a encarroçadora de Milão aceitou a encomenda de um cliente para transformar uma Ferrari 512 TR acidentada em algo totalmente novo.
Para a missão, o ateliê chamou de volta o lendário designer Ercole Spada, que decidiu enxugar ao máximo as formas da 512 TR. Ele eliminou aquelas entradas de ar laterais tão características das Testarossa e pôs uma frente inspirada no bico dos Fórmula 1.
Batizada de Ferrari FZ93 e apresentada no Salão de Genebra de 1993, a criação tinha carroceria estreita, proporções incomuns e pintura vermelha e preta coberta de adesivos de patrocinadores. Parecia um brinquedo em escala 1:1.
A Zagato rapidamente repintou o carro inteiro de vermelho e suavizou alguns detalhes, mas o estrago já estava feito. Ironicamente, aquele tratamento frontal controverso acabaria influenciando diretamente a futura Ferrari Enzo. Talvez a história deva um pedido de desculpas a essa estranha criatura.
Ferrari Meera S (1983) c (1)
4. Ferrari Meera S (1983)
Era uma vez um jovem que sonhava em ter uma Ferrari. Mas ele não era um rapaz comum: era um príncipe da Arábia Saudita. Ao procurar a marca italiana, escolheu a Ferrari 400i, então o modelo mais luxuoso da linha e um dos poucos disponíveis com câmbio automático. Ainda assim, queria algo exclusivo. Para transformar esse desejo em realidade, encomendou uma criação única à Carrozzeria Michelotti, de Turim.
Em março de 1982, uma Ferrari 400i foi entregue ao ateliê e imediatamente desmontada. A elegante carroceria desenhada pela Pininfarina deu lugar a uma inédita estrutura de aço. O resultado foi um automóvel de linhas radicais, com perfil em cunha, superfícies salientes e uma traseira de aparência inusitada, que parecia ter levado uma batida.
Por trás do visual excêntrico, porém, escondia-se um carro surpreendentemente avançado para sua época. Trazia painel digital, ar-condicionado automático, limpadores de para-brisa articulados em quatro direções e até uma câmera traseira com monitor, décadas antes de tal recurso se tornar comum. Sua ampla área envidraçada reforçava a aparência futurista.
O nome Meera homenageava uma namorada do príncipe, enquanto a letra “S” fazia referência à família real Saud. Hoje, essa Ferrari sobrevive como um monumento magnífico à extravagância dos anos 1980.
Ferrari 410 Superamerica Ghia (1959)
5. Ferrari 410 Superamerica Ghia (1956)
Desenhada por Giovanni Savonuzzi, diretor técnico da Carrozzeria Ghia, essa Superamerica única abandonou qualquer discreta elegância europeia em favor de um espetáculo digno da era espacial norte-americana. Rabos de peixe gigantes, excesso de cromados, para-brisa panorâmico — havia de tudo, menos sutileza.
Nos anos 1950, a Ghia funcionava como oficina de protótipos da Chrysler, e Savonuzzi, um entusiasta dos túneis de vento e das formas inspiradas em aviões a jato, supervisionava a construção dos concept-cars desenhados por Virgil Exner.
A Ferrari 410 Superamerica Ghia traz muito do carro-conceito Gilda, feito para a Chrysler em 1955. Sob a carroceria de alumínio repousava um dos grandes motores da Ferrari: o V12 Lampredi de 4,9 litros e 340 cv. Mecanicamente era sublime. Esteticamente... discutível.
Ferrari Mythos 1
6. Ferrari Mythos (1989)
A Ferrari Mythos é uma daquelas criações que até hoje dividem opiniões. Apresentada no Salão de Tóquio de 1989, o conceito criado pela Pininfarina usava a base mecânica da Ferrari Testarossa, mas reinterpretava completamente suas formas. O resultado era uma barchetta futurista que parecia saída de um filme de ficção científica dos anos 80. Com para-brisa envolvente, sem vidros laterais nem capota, tinha linhas fluidas como um sabonete já meio gasto. A traseira era curta, larga e dominada por um enorme aerofólio integrado.
O visual parecia um exercício aerodinâmico levado ao extremo, sem a beleza escultural típica dos melhores projetos da Pininfarina. Alguns críticos chegaram a dizer que o carro parecia ter sido desenhado apenas em túnel de vento, sacrificando personalidade em nome da eficiência. Seu coeficiente aerodinâmico de apenas 0,27 era impressionante para a época.
Sob a carroceria extravagante havia uma Testarossa, com motor boxer de 12 cilindros, 4,9 litros e 390 cv. Graças ao amplo uso de materiais leves, a Mythos pesava cerca de 250 kg menos que o modelo de produção, embora o desempenho permanecesse praticamente igual, com máxima estimada em 290 km/h. Concebida como peça única, a Mythos acabou ganhando mais dois exemplares encomendados pelo sultão de Brunei.
Ferrari F90 (2)
7. Ferrari F90 (1988)
A Ferrari F90 nasceu de uma encomenda quase inacreditável. Em 1988, o príncipe Jefri Bolkiah, de Brunei, pediu à Pininfarina uma Ferrari exclusiva que não poderia sequer ser mostrada à própria Ferrari. Conduzido em segredo absoluto, o projeto tinha como ambição criar a “Ferrari dos anos 90”. O resultado foram apenas seis exemplares, todos destinados à misteriosa coleção real de Brunei.
Visualmente, a F90 parecia uma Testarossa do metaverso. Embora mantivesse a mecânica do modelo de Maranello, o designer Enrico Fumia eliminou as famosas aletas laterais e criou uma carroceria lisa, baixa e futurista, com tomadas de ar elípticas, superfícies arredondadas e um teto de vidro móvel que se sobrepunha à vigia traseira. Uma mistura de Ferrari com nave espacial.
Para manter o segredo, os protótipos eram testados à noite e sem emblemas. Depois de concluídas entre 1988 e 1990, as seis F90 desapareceram atrás dos portões da coleção real de Brunei e se tornaram uma lenda urbana entre ferraristas. Somente nos anos 2000 surgiram fotos e relatos confirmando sua existência. Em 2005, a própria Ferrari finalmente reconheceu oficialmente o projeto.
Ferrari Conciso (Foto RM Sotheby_s)
8. Ferrari Conciso (1993)
Criada pelo designer alemão Bernd Michalak e apresentada no Salão de Frankfurt de 1993, a Ferrari Conciso foi construída sobre a base de uma Ferrari 328 GTS 1989 como um exercício radical de redução de peso e minimalismo ou, como diz o próprio nome, de concisão.
O projeto foi executado em alumínio no ateliê de Franco Bacchelli, em Bastiglia, ao norte de Modena. Inspirada em esportivos leves como o Lotus Elan, a Conciso eliminava praticamente tudo o que não fosse essencial: não tinha teto, portas nem para-brisa convencional.
Os para-lamas eram inflados e a carroceria, extremamente compacta. Entrar na cabine exigia simplesmente saltar pela lateral. Uma vez lá dentro, havia bastante espaço, já que o entre-eixos original fora mantido.
Com um V8 de 3,2 litros e 270 cv, apenas 890 kg em ordem de marcha (ou 383 kg a menos que a 328 GTS de origem) e vento na cara, era um carro divertidíssimo de guiar. O mais próximo que se pode chegar de um kart com motor Ferrari, algo que compensa plenamente qualquer idiossincrasia estilística.
Ferrari 575 GTZ Zagato (2006) (2)
9. Ferrari 575 GTZ Zagato (2006)
O colecionador japonês Yoshiyuki Hayashi já tinha algumas das Ferrari mais raras e caras do mundo em seu acervo. Mas faltava algo: uma Ferrari V12 exclusiva. Com esse desejo em mente, bateu à porta de seu conterrâneo Norihiko Harada, manda-chuva da Zagato.
O pedido de Hayashi era simples: que a Zagato criasse um automóvel especial a partir de uma Ferrari 575M Maranello que já tinha na garagem. Não havia exigências específicas quanto ao estilo. Quando Harada comunicou o projeto à Ferrari, porém, o conceito ganhou contornos mais definidos.
Como se aproximava o 50º aniversário da Ferrari 250 GTZ (da qual apenas cinco unidades haviam sido construídas pela Zagato), decidiu-se criar uma interpretação moderna daquele modelo.
O problema é que aplicar referências dos anos 1950 a um gran turismo moderno e de grandes dimensões resultou em superfícies caídas, para-lamas inchados e faróis que pareciam escorregar lentamente pela carroceria.
Houve quem comparasse o carro a plástico derretido. Ainda assim, colecionadores milionários responderam pagando fortunas pelas seis unidades construídas — Hayashi ficou com duas delas. O logotipo Ferrari no capô motiva essas coisas.
Ferrari 512 M 1
10. Ferrari 512 M (1994)
Nossa lista não tem apenas criações exclusivas e carrocerias feitas sob medida. Decidimos incluir também a 512 M, uma Testarossa que ficou tempo demais na festa...
Desenhada pela Pininfarina e lançada em 1984, a Ferrari Testarossa causou impacto imediato — no bom sentido. Era o grande supercarro de sua época e também um dos mais marcantes visualmente, digno de dividir espaço nas paredes das oficinas com os pôsteres da Playboy.
Mas tudo passa. Em 1991, a Ferrari atualizou o modelo com o lançamento da 512 TR, que adotou linhas mais suaves na dianteira e recebeu outros retoques estéticos. O motor flat-12 passou por uma ampla revisão, saltando de 390 cv para 428 cv. O subchassi traseiro também foi redesenhado para reduzir o centro de gravidade. Até aí, tudo bem...
O problema surgiu em 1994, quando a Ferrari chamou a Pininfarina para dar mais um "tapinha" no carro e prolongar sua vida útil. Nasceu a 512 M ("M" de Modificata) e aí a coisa desandou. Enquanto a parte central preservava os vincos, as quinas e as linhas retas da Testarossa original, a dianteira ficou ainda mais arredondada, a grade ganhou formato oval e os faróis passaram a ser fixos, sob carenagens de vidro. Uma “cara de pato”.
O resultado transmitia indecisão: não era mais angular como antes, mas também não parecia realmente moderno. Os faróis perderam personalidade, o spoiler dianteiro tinha aspecto de peça enxertada às pressas e as lanternas circulares soavam deslocadas na traseira dominada pela grelha horizontal. Era visivelmente uma adaptação, e nada parecia conversar com nada. Felizmente, ficou apenas dois anos em linha.
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Hyundai i20: o hatch compacto que ajudou a Hyundai a conquistar o mundo
Motor1.com Podcast #325: novo Hyundai i20 na área, acabou para o HB20?
Carros a álcool no Brasil: do De Dion Bouton 1903 ao Chevrolet Onix ECO
Nissan Kicks ganha opção aventureira e híbrida que faria sucesso no Brasil
Citroën 2CV: uma longa história que está para ganhar mais um capítulo
Uber já tem datas para deixar de aceitar BYD Dolphin e VW Nivus; veja o calendário
Audi Q3: um ‘Tiguan com terno Armani’ que até hoje faz sucesso