Stellantis: como resolver um quebra-cabeças com 14 marcas?
Um portfólio sem precedentes entre sobreposições de gama, marcas em dificuldades e a necessidade de escolhas estratégicas para o futuro
Enquanto a indústria automotiva global se encaminha para uma fase turbulenta, alimentada por tensões comerciais e geopolíticas, regulamentações cada vez mais rigorosas sobre emissões e pela expansão mundial dos fabricantes chineses, outras grandes questões críticas também vêm à tona. Uma delas diz respeito à complexa posição de dois dos mais importantes grupos automotivos do mundo: Stellantis e Nissan.
Neste caso, a atenção está voltada para a Stellantis, as razões de suas dificuldades e como a nova administração deve gerenciar um portfólio de marcas tão amplo.
Galeria: Maserati Grecale Folgore
Muitas marcas para sustentar
Quando a Stellantis foi criada em 2021, o objetivo era tornar-se um ator forte graças à vastidão de seu portfólio. Nenhum outro fabricante, na época, podia contar com tantas marcas. A componente francesa trouxe consigo a Peugeot, a Citroen, a Opel, a Vauxhall e a DS, enquanto a componente ítalo-americana acrescentou a Jeep, a Fiat, a Chrysler, a Alfa Romeo, a Dodge, a Lancia, a RAM, a Maserati e a Abarth. No total, 14 marcas que deveriam representar uma arma competitiva contra gigantes como a Volkswagen e a Toyota.
Logo, porém, ficou claro que “mais” não significava necessariamente “melhor”. Muitas dessas marcas já precisavam de novos produtos no momento da fusão e, cinco anos depois, a situação permaneceu praticamente inalterada. A questão agora é: o que fazer?
Galeria: 2026 Dodge Durango SRT Hellcat Jailbreak
Os carros são mais importantes do que a história
Sob a liderança de Carlos Tavares, a Stellantis já era chamada a tomar decisões drásticas sobre algumas marcas. Com a nova gestão de Antonio Filosa, essas decisões parecem quase obrigatórias. O grupo deve concentrar recursos e lucros em queda nos setores em que é mais forte: picapes e veículos comerciais leves para as Américas, grandes SUVs para a América do Norte, carros compactos e SUVs para a Europa e América do Sul, além de veículos de trabalho. Em 2024, essas categorias representaram 69% das vendas globais do grupo.
Ao mesmo tempo, a diferenciação entre algumas marcas revelou-se insuficiente. Na Europa, por exemplo, nem sempre é clara a posição entre a Citroen e a Fiat, ou entre a Opel/Vauxhall e a Peugeot. E qual deveria ser a diferença real entre a DS e a futura gama Lancia?
Mesmo o chamado “polo premium” não funcionou como esperado. A Maserati, posicionada como marca de luxo, e a Alfa Romeo, considerada premium, não conseguiram encontrar um lugar sólido em seus respectivos segmentos. Enquanto isso, o grupo pretende relançar a Lancia como marca premium, levantando questões sobre a utilidade de sustentar três marcas com ambições semelhantes.
Chrysler Halcyon Concept
A Chrysler está em dificuldades há anos. A Dodge sofreu com uma linha envelhecida, um modelo pouco bem-sucedido como o Hornet e o retorno do Charger em um segmento agora em declínio. A Jeep e a Ram, por muito tempo motores de crescimento, estão enfrentando um período complicado devidoao aumento dos preços e, no caso da RAM, à ausência no segmento de picapes médias nos Estados Unidos.
Os consumidores compram carros, não o passado das marcas. Por isso, a Stellantis deve enfrentar de forma decidida o futuro de marcas como Lancia, Chrysler, DS, Maserati, Abarth e Dodge, avaliando integrações, cessões ou mesmo a saída do mercado. Outras marcas também precisam de um relançamento: a Fiat não pode continuar a sobrepor-se à Citroen e deve aproveitar a sua forte posição no Brasil; a Peugeot e a Opel devem diferenciar-se melhor; a Jeep deve acelerar o plano de produtos; a Ram precisa de ampliar a oferta de pick-ups; a Alfa Romeo deve garantir continuidade e coerência no desenvolvimento da gama.
O autor do artigo, Felipe Munoz, analista especialista na indústria automóvel e criador de conteúdo da Car Industry Analysis nas redes sociais.
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