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Argentina x Espanha: um jogo disputado no Brasil dos anos 1990

Na febre das importações, modelos desses dois países bateram um bolão por aqui

Argentina x Espanha - arte
Foto de: Divulgação

Messi ou Yamal? A final da Copa do Mundo de 2026 promete ser eletrizante, mas, como nosso negócio aqui é automóvel, vamos fazer um Argentina x Espanha diferente, lembrando modelos dos dois países que disputaram mercado no Brasil durante a década de 1990. Eram tantos carros que tivemos de deixar alguns de fora, ou esta reportagem viraria um livro.

Comecemos pelos “hermanos”. Apesar de vizinhos, Brasil e Argentina praticamente não trocavam figurinhas. Esse quadro mudou radicalmente com a reabertura das importações no Brasil, em 1990, e a criação do Mercosul, em 1991. A partir daí, automóveis e componentes passaram a circular dentro de um sistema de comércio compensado: as fabricantes instaladas aqui podiam importar veículos e peças da Argentina desde que equilibrassem essas operações com exportações no sentido contrário.

Isso levou as fabricantes a tratarem Brasil e Argentina como um único sistema produtivo regional, concentrando determinadas linhas em cada país. Como resultado, multiplicaram-se no mercado brasileiro os modelos produzidos no país vizinho, e vice-versa.

Chevrolet Trafic

O acordo automotivo entre Brasil e Argentina previa o intercâmbio de 10 mil veículos por ano entre os dois países, isentos de imposto de importação. Assim, em 1991, a General Motors começou a vender no Brasil o furgão Renault Trafic fabricado em Santa Isabel, Córdoba.

Rebatizado de Chevrolet Trafic e com a gravatinha na grade, o modelo logo passou a ser importado também em versões de passageiros: micro-ônibus (12 lugares), escolar (para até 15 alunos) e ambulância. Estreou com motor 2.1 a diesel e logo ganhou um 2.2 a gasolina.

Em contrapartida, a GM exportava a Chevy 500 para a Argentina. Lá, a picape derivada do Chevette recebia o nome GMC 500 e era vendida nas concessionárias Renault. Mesmo com a isenção do imposto de importação, o Chevrolet Trafic chegava ao Brasil custando quase quatro vezes o preço de uma Kombi.

A partir de 1997, o Trafic passou a ser vendida por aqui pela própria Renault.

Argentina - Fiat Duna

Argentina - Fiat Duna

Foto de: Divulgação

Fiat Prêmio

Como parte da racionalização industrial entre Brasil e Argentina, a produção do Uno CSL (de quatro portas), do sedã Prêmio (chamado Duna na Argentina) e de algumas versões da perua Elba foi concentrada na fábrica da Sevel, em El Palomar, na província de Buenos Aires.

Sevel, vale dizer, era uma joint venture formada na Europa entre Fiat e PSA. O nome originalmente vinha de Société Européenne de Véhicules Légers ou Società Europea Veicoli Leggeri, mas, na Argentina, passou a significar Sociedad Europea de Vehículos para Latinoamérica. A unidade também exportava para o Brasil motores 1.5 e 1.6.

Entre 1994 e 1995, os Prêmio vendidos aqui eram todos importados da Argentina. Nos últimos lotes, o carro sequer trocava de nome: vinha como Duna mesmo.

Argentina - Renault 19

Argentina - Renault 19

Fotos de: Divulgação
Argentina - Renault Clio

Argentina - Renault Clio

Renault 19 e Clio

Antes de inaugurar suas instalações em São José dos Pinhais (PR), em dezembro de 1998, a Renault consolidou sua presença no Brasil por meio do grupo CAOA, trazendo carros da fábrica de Santa Isabel.

Daquela linha de produção argentina vinham o sedã executivo Renault 21 e a perua Nevada. Maior sucesso, porém, fizeram o hatch médio Renault 19 e o R19 Sedan — apenas algumas de suas versões eram importadas da Europa.

Em 1996, a fábrica de Córdoba também passou a abastecer o Brasil com o Clio de primeira geração. Só em 1999 o compacto, já na segunda geração, começou a ser feito no Paraná.

Argentina - Escort Guarujá

Argentina - Escort Guarujá

Foto de: Divulgação

Ford Escort

Um dos primeiros carros argentinos vendidos no Brasil foi o Escort Guarujá. Importada a partir de 1991, essa versão era montada na fábrica de General Pacheco, na Grande Buenos Aires, mas utilizava o motor brasileiro AP 1.8.

Com o fim da AutoLatina, a Ford decidiu produzir o Fiesta de quarta geração no Brasil. Em 1996, para abrir espaço na unidade de São Bernardo do Campo (SP), a fabricação do Escort e do sedã Verona foi concentrada em General Pacheco.

Logo chegou a nova geração do Escort, equipada com o moderno motor Zetec 1.8 16v e disponível também nas configurações sedã e wagon. Assim, o modelo continuou sendo importado da Argentina até sair de cena, em 2003.

Argentina - Peugeot 405

Argentina - Peugeot 405

Foto de: Divulgação

Peugeot 405

Lançado no Brasil em 1992 e inicialmente importado da França, o elegante sedã médio mudou de nacionalidade na metade da década. Com a produção já estabelecida pela Sevel em El Palomar, o mercado brasileiro passou a receber, gradualmente, exemplares fabricados na Argentina a partir de 1994. Era um dos sedãs mais respeitados da época.

Argentina - Peugeot 306 (1)

Argentina - Peugeot 306 (1)

Foto de: Divulgação

Peugeot 306

O 306 seguiu caminho semelhante ao do irmão maior 405: estreou no Brasil em 1994, importado da França. Passou a ser produzido em El Palomar. em 1997, nas configurações hatch de quatro portas e sedan. Carro muito equilibrado e gostoso de guiar (compartilhando a excelente plataforma do "primo" Citroën ZX), foi um forte concorrente de Fiat Tipo, Volkswagen Golf e Chevrolet Astra. Teve sua produção regional encerrada em 2001 e despediu-se do Brasil no ano seguinte, deixando saudades.

Argentina - Peugeot 504 Pick-up GD

Argentina - Peugeot 504 Pick-up GD

Foto de: Divulgação

Peugeot GD Pick-up

Derivada do clássico sedã 504 francês, essa picape passou a ser importada da fábrica de El Palomar, na Argentina, em 1993. Espartana e robusta, trazia o motor diesel XD2 de 2,3 litros (70 cv) e oferecia uma impressionante capacidade de carga de 1.300 kg.

Argentina - picape Peugeot com erro de concordância

Argentina - picape Peugeot com erro de concordância

Foto de: Divulgação

Uma curiosidade é que os primeiros lotes desembarcaram por aqui com um erro de concordância: na caçamba vinha escrito "1.3 TONELADAS", no plural, quando o correto seria "1,3 TONELADA". A derrapada de revisão foi corrigida rapidamente. A GD Pick-up vendeu muito bem e saiu de linha em 1999 sem deixar uma substituta.  

Argentina - Corsa Sedan

Argentina - Corsa Sedan

Foto de: Divulgação

Chevrolet Corsa Sedan

O Corsa foi um enorme sucesso desde seu lançamento no Brasil, em 1994. Para ampliar a família sem sobrecarregar a fábrica de São José dos Campos (SP), a General Motors passou a produzir também a versão Sedan no moderno complexo industrial de Alvear, na região de Rosário, inaugurado em 1997.

O sedã ganhou importância crescente na fábrica argentina e, nos anos 2000, a maior parte dos exemplares vendidos no Brasil já vinha de lá. A simpática Corsa Wagon seguiu caminho semelhante: embora desenvolvida no Brasil, passou a ser montada em Alvear em 1998.

Argentina - Fiat Siena (Foto - José Rezende-Mahar)

Argentina - Fiat Siena (Foto - José Rezende-Mahar)

Foto de: Divulgação

Fiat Siena

Lançado em 1997 como a versão três-volumes do "carro mundial" da marca (Projeto 178), o Siena foi produzido inicialmente com exclusividade na fábrica de Ferreyra, em Córdoba. Na estratégia de integração do Mercosul, a Fiat dividiu as tarefas: enquanto Betim (MG) concentrava a produção do hatch Palio e da perua Palio Weekend, a planta argentina abastecia sozinha o mercado brasileiro com o sedã.

Com a recessão que derrubou o mercado automobilístico argentino, a Fiat promoveu uma reestruturação drástica em 2001: desativou a produção de veículos de passeio em Ferreyra — a fábrica foi hibernada, mantendo apenas a usinagem de motores e caixas de câmbio — e transferiu toda a produção do Siena reestilizado para Betim.

Argentina - Polo Classic

Argentina - Polo Classic

Foto de: Divulgação

VW Polo Classic

Após o divórcio da Autolatina, a Volkswagen precisava de um sedã moderno para ocupar o espaço entre o Gol e o Santana. A solução veio de General Pacheco, que passou a produzir o Polo Classic no fim de 1996. Baseado no espanhol Seat Córdoba, o sedã destacava-se pelo acabamento caprichado, pelo porta-malas de 455 litros e pelo motor AP 1.8 adaptado para a montagem transversal.

Jamais, contudo, fez o mesmo sucesso de seu antecessor, o velho Voyage (que, aliás, também teve lotes importados da Argentina nos anos 1990, onde era chamado de Gacel e Senda).

Com projeto alemão, desenvolvimento compartilhado com a Seat, produção argentina e até componentes estampados na Espanha, o Polo Classic reunia um pouco de cada país. Nada mais apropriado para servir de ponte para a segunda parte desta história.

¡QUE VENGA ESPAÑA!

A Espanha desempenhou um papel estratégico no mercado brasileiro durante a década de 1990. O país foi a origem de compactos, médios e utilitários que ganharam muito espaço por aqui. As fábricas espanholas de Vigo, da então PSA; Martorell, da Seat; e Almussafes, da Ford, abasteceram o mercado brasileiro com alguns modelos marcantes.

Espanha - SEAT Córdoba

Espanha - SEAT Córdoba

Foto de: Divulgação

Seat Córdoba

Fundada em 1950, a Sociedad Española de Automóviles de Turismo era originalmente uma empresa de capital misto que produzia modelos da Fiat em Barcelona. Depois de décadas de boa parceria, a relação entre o governo espanhol e a fabricante italiana azedou. Assim, em 1986, o Grupo Volkswagen tornou-se acionista majoritário da Seat.

Chegamos então a 1995. O Brasil tinha uma moeda forte, vivia uma febre de importações e o basco José Ignacio López de Arriortúa comandava as operações da Volkswagen por aqui. Era a combinação perfeita para a chegada da Seat ao nosso mercado.

O modelo de estreia, em abril daquele ano, foi o Córdoba, um sedã compacto, porém espaçoso, com certo ar esportivo e equipado com o motor EA827 de 1,8 litro e 90 cv. Em 1999, o sedã ganhou a companhia da simpática (e rara) perua Córdoba Vario.

A partir de 2000, os Seat passaram a vir da Argentina. Havia ainda o furgãozinho Inca, que tentava fazer sombra à Fiorino. 

Espanha - SEAT Ibiza (1)

Espanha - SEAT Ibiza (1)

Foto de: Divulgação

Seat Ibiza

A família espanhola no Brasil incluía ainda um hatch compacto e bem-disposto, que chegou por aqui com o motor 1.8 de 90 cv. O modelo tinha desenho quase esportivo assinado por Giorgetto Giugiaro e compartilhava a plataforma e diversos componentes mecânicos com o Volkswagen Polo de terceira geração. Curiosamente, era mais caro do que o Golf GL 1.8 alemão.

Mais tarde vieram versões 1.6 e 1.0 16v. A essa altura, porém, o futuro da Seat já era sombrio. López de Arriortúa havia caído em desgraça, o real sofrera uma maxidesvalorização e os Volkswagen nacionais concorriam diretamente com os modelos da marca espanhola. Oficialmente, a Seat foi mantida viva no Brasil até 2002 — mas apenas para que a VW tivesse direito a um estande maior no Salão de São Paulo.

Espanha - Ford Fiesta (1)

Espanha - Ford Fiesta (1)

Foto de: Divulgação

Ford Fiesta Mk3

O Ford Fiesta chegou ao mercado brasileiro em fevereiro de 1995, em sua terceira geração, importado de Valência, na Espanha. Equipado com motor Endura 1.3 de injeção monoponto, destacou-se pelo bom acabamento, embora tenha obtido vendas modestas.

No ano seguinte, o Fiesta passou a ser produzido em São Bernardo do Campo (SP), já em sua quarta geração global — conhecida popularmente como "Chorão", por causa do formato dos faróis. Vieram então os motores 1.0 e 1.3 Endura e, posteriormente, o Zetec Rocam. 

Espanha - Chevrolet Tigra, nascido Opel

Espanha - Chevrolet Tigra, nascido Opel

Foto de: Divulgação

Chevrolet Tigra

Muita gente no Brasil achava que o pequeno cupê esportivo 2+2 Opel Tigra era produzido na Alemanha. Puro engano: as 2.652 unidades vendidas no Brasil entre 1998 e 1999 vieram de Zaragoza, na Espanha.

Baseado no Corsa, tinha motor 1.6 16v com 100 cv declarados (para efeitos de tributação). O provável, porém, é que entregasse 106 cv — o motor era o mesmo do Corsa GSi importado entre 1995 e 1996. Com a maxidesvalorização do real, deixou de ser vendido no Brasil.

Espanha - Citroën Xsara

Espanha - Citroën Xsara

Foto de: Divulgação

Citroën Xsara

O médio Xsara era importado das fábricas de Madri e  Vigo (na Espanha), e Rennes (na França). Lançado no Brasil em 1998 para substituir o ZX, trazia refinamento dinâmico elogiável, linhas elegantes e um recheado pacote de equipamentos. A família era completa: ia do racional hatch de quatro portas e da charmosa Break ao Xsara VTS, equipado com o motor 2.0 16V de 167 cv — uma potência e tanto para um esportivo da época.

Espanha - Citroën Berlingo

Espanha - Citroën Berlingo

Foto de: Divulgação

Citroën Berlingo

O utilitário multiuso revolucionou a categoria dos furgões leves no Brasil. Produzido em Vigo, foi desenvolvido desde o início como veículo de carga e de passageiros — ao contrário da Fiat Fiorino, derivada do Uno.

O que você pensa sobre isso?

O Berlingo estreou na versão Multispace, que tinha até um grande teto solar de lona. Oferecia ótimo aproveitamento do espaço interno e um rodar muito agradável.Os primeiros lotes que chegaram ao Brasil, em 1998, vieram da fábrica de Vigo. Um ano depois, o Citroën passou a ser importado da Argentina, país de onde também veio seu irmão Peugeot Partner, em 1999.

E aí, quem mandou melhor em campo: Argentina ou Espanha?

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