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Espanha votará lei que proíbe propagandas de carros a combustão

Nova lei pode vetar anúncios de carros a combustão na Espanha, afetando modelos populares como Ibiza, 208 e Captur

SEAT Ibiza
Foto de: Jason Vogel

A indústria automobilística da Espanha pode enfrentar um revés significativo com a nova Lei de Consumo Sustentável, que está em tramitação no Congresso. O texto prevê restrições severas à publicidade de veículos movidos por combustíveis fósseis, e ainda não está claro se a proibição incluirá os híbridos convencionais e leves (HEV e MHEV), que hoje são maioria no mercado espanhol, com 35% do mercado.

Apresentada pelo Ministério de Direitos Sociais, Consumo e Agenda 2030, a legislação integra um pacote mais amplo, que também propõe proibir as propagandas de combustíveis fósseis — que seriam equiparadas à publicidade de tabaco.

Espanha estuda proibir propagandas de carros a combustão

As medidas propostas restringem, por exemplo, voos de curta distância quando houver uma alternativa menos poluente e que não aumente o tempo de viagem em mais de 2h30. Há artigos que coíbem a prática de reduzir a quantidade de produto por meio de embalagens menores, e outros que incentivam o conserto de eletrodomésticos. O texto também proíbe slogans que não possam ser comprovados, como “amigo do meio ambiente”, “verde”, “ecológico”, “respeitoso com o clima” ou “biodegradável”.

Mas é no setor automotivo que o impacto pode ser mais forte. Se o projeto for aprovado como está, mais da metade dos carros fabricados atualmente na Espanha teria que ficar fora das campanhas de publicidade — o que pode comprometer sua visibilidade no mercado.

Da Zona Franca a Martorell: SEAT Ibiza, uma viagem de 40 anos

SEAT, de origem espanhola, deve ser uma das mais afetadas

Foto de: Motor1.com España

A proibição afetaria diretamente a produção de modelos de alto volume, como Seat Ibiza, Arona, Peugeot 208, Opel Corsa, Renault Captur, entre outros, fabricados em cidades como Martorell, Zaragoza, Palencia, Valladolid, Vigo e Navarra, por grupos como Volkswagen, Renault, Stellantis e Citroën.

Com mais de 2,3 milhões de veículos produzidos em 2024, a Espanha ocupa o posto de segundo maior fabricante de automóveis da Europa, atrás apenas da Alemanha. O país se consolidou como um polo de produção de veículos híbridos nos últimos anos, dada a lenta adesão aos modelos 100% elétricos.

SEAT Arona

Seat Arona

Foto de: Jason Vogel

Quatro dos dez modelos mais vendidos na Espanha em 2025 poderão ser afetados pela nova proibição de anúncios publicitários. O Seat Ibiza e o Arona, fabricados em Martorell, ocupam a 4ª e a 5ª posições no ranking de vendas nacionais, respectivamente. Ambos têm praticamente todas as unidades vendidas com motorização a gasolina.

Para se ter ideia, o Ibiza e o Arona (equivalentes ibéricos do Polo e do Tera, respectivamente) vêm respondendo por dois terços das vendas da Seat na Espanha no acumulado do ano. Qualquer entrave à divulgação desses modelos pode ter efeitos graves sobre o volume de produção e os empregos no setor.

Sandero, o modelo mais vendido na Espanha

Sandero, o modelo mais vendido na Espanha

Foto de: Jason Vogel

O Peugeot 208, produzido pela Stellantis em Zaragoza, é o 7º carro mais vendido no país e também tem grande parte de sua gama com motores a combustão. Já o Renault Captur, fabricado em Valladolid, fecha o top 10 com versões híbridas convencionais entre as mais vendidas.

Hoje, o líder do mercado espanhol é o Dacia Sandero III, fabricado no Marrocos e sem qualquer tipo de eletrificação (sequer mild hybrid). Em segundo lugar vem o crossover chinês MG ZS, em versões 100% a combustão ou híbrida convencional.

Opel Corsa

Opel Corsa

Foto de: Jason Vogel

Híbridos ainda são dúvida

Embora não proíba diretamente a propaganda de veículos híbridos, o texto atual é dúbio ao restringir a divulgação daqueles que dependem exclusivamente de combustíveis fósseis. Isso significa que os híbridos não plug-in (HEV e MHEV), que utilizam predominantemente motores a combustão, também poderão ter sua publicidade vetada.

Fabricantes como Toyota, Renault e Stellantis, que lideram a oferta de híbridos leves e convencionais, observam a situação com apreensão. Só o Peugeot 208, por exemplo, teve 13 mil unidades vendidas neste ano, sendo quase 40% delas híbridas leves.

Por outro lado, veículos movidos a gás natural (ou a combustível renovável parcialmente vegetal) ficam de fora da proibição, segundo o projeto. Essas tecnologias, porém, ainda têm presença limitada no segmento de automóveis de passeio. Mesmo assim, as vendas cresceram mais de 85% neste ano, com cerca de 35 mil unidades registradas até julho — o equivalente a 4,2% do mercado espanhol. Esses modelos ainda contam com o selo ambiental ECO, o que garante benefícios em zonas urbanas com restrições.

Peugeot 208

Peugeot 208

Foto de: Jason Vogel

No caso do Renault Captur, quase 44% das unidades vendidas em 2025 foram de híbridos convencionais (HEV), seguidas por 43,8% com motorização a gás e apenas 11% a gasolina. Isso mostra a importância crescente de alternativas ao motor a combustão, mas também a complexidade de definir quais tecnologias serão incluídas na proibição.

O governo espanhol afirma que a medida busca reduzir a exposição a produtos derivados de petróleo e carvão, combatendo as emissões de gases poluentes. No entanto, especialistas alertam que o impacto pode ser desproporcional para países como a Espanha, cuja economia depende fortemente da indústria automobilística.

Cupra Tavascan, um elétrico sino-ibérico feito na JAC em parceria com a VW

Cupra Tavascan, um elétrico sino-ibérico feito na JAC em parceria com a VW

Foto de: Jason Vogel

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Outros fatores complicam o cenário: a demora na expansão da infraestrutura para elétricos, o esgotamento de incentivos regionais do plano de renovação da frota Moves 3 (bônus de até € 9 mil na compra de um BEV ou PHEV, com reciclagem do usado a combustão) e os altos impostos de importação sobre elétricos chineses, como no caso do Cupra Tavascan — que, apesar da marca espanhola, é fabricado em Hefei pela JAC (em joint venture com a VW).

Ainda não foi anunciada uma data para a votação da Ley de Consumo Sostenible na câmara dos deputados e no senado espanhóis. O anteprojeto foi aprovado no Conselho de Ministros entre junho e julho de 2025 e agora segue para tramitação parlamentar, sujeito a emendas e debates. Caso seja aprovado em definitivo, a previsão é que entre em vigor já no ano que vem.

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