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Salão de 1925: uma exposição de automóveis no país que não tinha estradas

Ford fez linha de produção para o evento e montou o Modelo T no centro do Rio

O estande da Ford, com diversos Lincoln
Foto de: Jason Vogel

Hoje ajustamos nossa máquina do tempo para exatamente 100 anos atrás. Vamos até a Primeira Exposição de Automobilismo e Autopropulsão do Rio de Janeiro, realizada entre 1º e 16 de agosto de 1925. Embora não tenha sido a estreia desse tipo de mostra no Brasil (São Paulo foi a pioneira, em 1923), a edição carioca entrou para a história por reunir as principais marcas em um evento, como diriam os marqueteiros de hoje, “dinâmico, interativo e focado em experiências imersivas”... Além de suntuosos estandes, havia provas esportivas, demonstrações práticas, desafios de caminhões e até uma linha de produção funcionando diante do público.

Vivia-se, na época, uma euforia automobilística nas regiões civilizadas do país. No espaço de um ano, as importações de automóveis haviam saltado de 2.772 para 12.995 unidades. Problemas de trânsito começavam a se fazer presentes na então Capital Federal: a ocorrência policial mais comum eram os atropelamentos em que os chauffeurs, quase sempre, fugiam.

Cartazes da Exposição de 1925

Cartazes da Exposição de 1925

Foto de: Jason Vogel

Já havia quem reclamasse do tráfego urbano, especialmente na Avenida Rio Branco, a principal da cidade. Automobilistas botavam a culpa na numerosa frota de auto-omnibus administrada pela Light. Era a cultura do transporte individual a dar as caras.

Sobravam carros na cidade mas, ao mesmo tempo, as estradas de rodagem simplesmente não existiam... A construção da pioneira Rio–Petrópolis, por exemplo, vinha sendo retardada.

Viagem entre SP e Rio durava dias

Entusiastas desbravavam caminhos de terra. Formavam-se grupos como o Club dos Bandeirantes — que promovia raids (excursões) de carro por trilhas que, um dia, quem sabe, poderiam virar estradas. Uma viagem de São Paulo ao Rio, por exemplo, durava dias e era vista como uma façanha heróica — tão rara que os aventureiros costumavam ir às redações dos jornais relatar a proeza.

A francesa Voisin mostrou seus sofisticados modelos - O carro dos reis, o rei dos carros

A francesa Voisin mostrou seus sofisticados modelos - O carro dos reis, o rei dos carros

Foto de: Jason Vogel

No discurso de abertura da exposição, Francisco Sá, o ministro da Viação (atual Ministério dos Transportes), referiu-se ao "nosso país, tão longe de qualquer produção industrial de automóveis". O que tínhamos, na época, eram raríssimas linhas de montagem, como as da Ford (a partir de 1919) e a da General Motors (que estava para ser inaugurada, em setembro de 1925).

Era preciso estimular importadores e obras viárias — daí o Automóvel Club do Brasil ter promovido a exibição no Rio. Os estandes ocuparam luxuosos prédios que estavam ociosos desde a Exposição de 1922, grandiosa mostra internacional que havia marcado o centenário da Independência do país.

Por 16 dias, a Ford montou carros aos olhos do público

Por 16 dias, a Ford montou carros aos olhos do público

Foto de: Jason Vogel

Estandes suntuosos, com decoração clássica

A Exposição de Automobilismo utilizou os antigos pavilhões de Portugal e da Itália, forrados com azulejos, mármores e vitrais. Ficavam onde hoje é a esquina das avenidas Presidente Wilson e Presidente Antônio Carlos, no centro da cidade.

Além de Ford, General Motors e Chrysler, vieram marcas hoje pouco lembradas, como Gray, Packard, Nash e Hudson-Essex. As europeias estavam representadas pelas italianas Itala e Lancia, bem como pela francesa Voisin. O navio que traria os aristocráticos Hispano-Suiza atrasou.

Os estandes eram suntuosos, com decoração clássica: colunas, bandeiras e guirlandas. E nada de jovens com pouca roupa a mostrar os automóveis.

Uma barata Dodge na pista de competição atrás dos pavilhões de exposição

Uma barata Dodge na pista de competição atrás dos pavilhões de exposição

Foto de: Jason Vogel

Havia uma área externa com tratores e caminhões. A Ford fez uma linha de produção especialmente para o evento e montou dezenas de Modelo T ante os olhares de moças de sombrinha.

Pavilhão de exposições foi parar em Lisboa

Mas as maiores atrações para o “Rio elegante” eram as corridas diárias na “pista para experiências”, construída para a exposição. Era um circuito de dois quilômetros de terra batida à beira da Baía da Guanabara, na região conhecida como Ponta do Calabouço. Cavalheiros formavam uma compacta massa para apreciar as provas. A Bugatti de Julio de Moraes fez a média de 108 km/h na pista empoeirada. Uma das disputas era exclusivamente para senhoras e senhoritas — foi vencida por uma certa madame Luiza Guerrero ao volante de uma baratinha Jordan.

O jornal O Globo, fundado poucos dias antes da abertura do salão, patrocinou uma competição de motocicletas — uma corrida contra o cronômetro: 400 metros para ganhar aceleração e mais 1.600 metros para ver quem alcançava a maior velocidade.

O pavilhão de exposições que saiu do Rio e hoje está em Lisboa (1)

O pavilhão de exposições que saiu do Rio e hoje está em Lisboa

Foto de: Jason Vogel

Nos dias da exposição houve tempo até para um primeiro “Circuito da Gávea”. Ainda não era a corrida que se tornaria famosa com este nome, a partir de 1933. A disputa de 1925 foi um rali de regularidade e economia. Venceu um carro Itala. Houve ainda demonstrações de força com caminhões e tratores carregados.

A memória do que pode ser considerado o “Salão de 1925” também foi preservada graças a um álbum com 104 fotografias que pertenceu ao engenheiro Adelstano Porto d’Ave (1890–1952), presidente do Club dos Bandeirantes e principal organizador da exposição. As imagens que ilustram esta reportagem são reproduções desse acervo.

Uma curiosidade é que o pavilhão de Portugal, que abrigou a pioneira Exposição de Automobilismo, ainda existe. Com estrutura metálica, o prédio foi desmontado no Rio em 1929, transportado de navio e remontado no centro de Lisboa! Após décadas servindo como palco para eventos desportivos, o Pavilhão Carlos Lopes foi abandonado em 2003. Felizmente, foi restaurado, sendo reinaugurado em 2017 — assim, uma parte de nossa histórica exposição automobilística continua viva no além-mar!

Um dos pavilhões da exposição hoje está em Lisboa

Um dos pavilhões da exposição hoje está em Lisboa

Foto de: Jason Vogel

A transição verde-amarela

Houve uma segunda Exposição de Automobilismo, Autopropulsão e Estradas de Rodagem na Capital Federal, em 1928 — ano da inauguração das pioneiras estradas Rio–São Paulo e Rio–Petrópolis. Muitas marcas aderiram, e a mostra chegou a exibir um hidroavião Dornier, mas o público já não foi tão numeroso. São Paulo, por sua vez, chegou a organizar cinco edições de seu salão no Palácio das Indústrias, encerrando o ciclo também em 1928.

Até os anos 50, houve outras iniciativas esparsas de se fazer exposições de veículos no Brasil. Contudo, somente em 1960, com o florescimento da indústria nacional, é que teríamos um Salão do Automóvel relevante, com uma fórmula que seria mantida por décadas.

De uma hora para a outra, modelos fabricados aqui — como o Simca Chambord, o sedã DKW e o Renault Dauphine — tomavam orgulhosamente o espaço dos velhos Chevrolet, Ford e Dodge importados. Havia grande entusiasmo nessa transição verde-amarela: éramos capazes de fabricar carros de passeio, vejam só! E foi aproveitando esse momento que o publicitário Caio de Alcântara Machado (1926–2003) lançou a ideia de seu primeiro Salão do Automóvel, em São Paulo.

Com apoio da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o publicitário inaugurou o I Salão em novembro de 1960, no Parque do Ibirapuera. Lá, 400 mil pagantes fizeram fila para ver os nacionais recém-lançados. Mas isso já é outra história.

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