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Corsa Sedan, ou Chevrolet Classic: o carro que o público não deixou morrer

Lançado em 1995, modelo nacional durou mais que seus substitutos e ganhou o mundo

Chevrolet Classic Spirit - ação (2003–08)
Foto de: Chevrolet

Você pode não acreditar, mas o Corsa Sedan já entrou na fila para receber placa preta. O lançamento do pequeno (e longevo) três-volumes da Chevrolet está para completar 30 anos: foi em novembro de 1995 que a General Motors do Brasil levou um grupo de jornalistas ao circuito do Homestead-Miami Speedway, na Flórida, para a apresentação do carrinho.

Apesar desse lançamento com ares internacionais, bem ao gosto da GMB na época, a versão sedã do Corsa havia sido concebida no Brasil e com foco no mercado brasileiro — somente anos depois é que chegou a outros países. O projeto surgiu com o nome Gemini, na esteira do sucesso do hatch Corsa Wind.

Para contextualizar o leitor de hoje, o Corsa geração B havia sido lançado na Europa em março de 1993 pelas divisões Opel (alemã) e Vauxhall (britânica). Menos de um ano depois, o pequeno hatch de duas portas começou a ser fabricado no Brasil, com a marca Chevrolet. Vivíamos aqui a febre dos carros populares, e o novo GM representava um enorme salto de estilo, tecnologia, consumo e até silêncio interno em relação aos concorrentes no segmento.

Corsa Sedan GLS 1996
Foto de: Chevrolet

Na versão básica Wind 1.0 EFI, tabelada em 7.350 URVs (depois R$ 7.350), o Corsa tinha fila de espera de seis meses — e quem não tinha paciência de esperar pagava um ágio de 25% para ter o hatch mais rapidamente. Na época, o então vice-presidente da GM, André Beer, foi à TV pedir que os consumidores não pagassem ágio e aguardassem pelo aumento da produção para comprar o compacto.

A FAMÍLIA CRESCE

Antes mesmo de o hatch chegar às lojas, toda uma família Corsa já estava sendo pensada em São Caetano do Sul (SP). A versão hatch de quatro portas já estava pronta na Europa. Haveria também, pela ordem de lançamento, uma picape, um sedã e uma station wagon — e estes derivados inicialmente seriam fabricados apenas no Brasil, concebidos por designers daqui. Todos usariam a mesma plataforma GM4200.

O que era chamado de Gemini passou a ser tratado como “Projeto 2060”. Era um pequeno sedã de quatro portas, com linhas suaves e modernas. Um vidrinho em cada coluna C reduzia os pontos cegos. Já as linhas da dianteira continuavam fiéis às do hatch desenhado pela equipe do japonês Hideo Kodama, chefe de estilo na GM Europa.

Com 4,02 m de comprimento, o novo sedã nacional tinha como destaque o porta-malas com capacidade de 390 litros (no Corsa hatch eram 3,72 m e 260 litros, respectivamente). O entre-eixos, contudo, não mudava: 2,44 m. Era um carro na medida certa para os órfãos do Chevette, que havia deixado de ser produzido em 1993. E tinha potencial para muito mais!

Opel Corsa Classic 1.4i da África do Sul - traseira (1998–2002)
Foto de: Chevrolet

E assim, o Corsa Sedan (com “n” no fim) estreou naquele novembro de 1995, já como modelo 1996. No início, eram duas versões, GL e GLS, ambas equipadas com motor da Família I “Powertech” de 1,6 litro, oito válvulas, injeção multiponto (Delphi MPFI, um tremendo avanço!) e 92 cv. A picape Corsa, equipada com o mesmo motor mas com injeção monoponto, rendia 79 cv. O câmbio era manual, de cinco marchas, com engates muito leves e fáceis.

O sedã ia de 0 a 100 km/h em 11,4 s e alcançava a máxima de 178 km/h. Eram marcas de respeito para um compacto nacional da época, o que explica, em parte, o lançamento em um autódromo.

Como opcionais, havia rodas de liga leve, ar-condicionado, direção hidráulica, toca-fitas e, na versão topo de linha, freios com ABS! Os preços eram de R$ 14.950 (GL) e R$ 16.550 (GLS), ou seja: de 54% a 70% mais altos que os do basicão Corsa Wind 1.0 hatch de duas portas (que, a essa altura, já custava R$ 9.696).

O carro chegou em um momento estratégico, em um mercado carente de pequenos sedãs: o VW Voyage de primeira geração morrera de velho e deixava de ser importado da Argentina. O mesmo valia para o Fiat Prêmio/Duna. Ainda faltava um ano para o lançamento do VW Polo Classic e um ano e meio para a chegada do Fiat Siena (o Palio sequer havia estreado).

Já os VW Logus e Ford Verona, que nunca chegaram a decolar, eram modelos maiores e mais caros que o Corsa Sedan — e estavam condenados à morte com o iminente fim da Autolatina.

Interior Chevrolet Classic automático (2003–08)

Interior Chevrolet Classic automático (2003–08)

Foto de: Chevrolet

VARIEDADE DE MOTORES

Em 1997, o desempenho melhorou ainda mais, com a chegada de uma versão GLS com motor 1.6 de 16 válvulas e 102 cv. Era potência de sobra para um sedã de apenas 1.025 quilos. Outro avanço rumo à sofisticação foi a adoção do câmbio automático de quatro marchas, em 1998.

Na outra ponta, em março de 1998, a GMB lançou o Corsa Sedan Super com o motor 1.0 de oito válvulas do Corsa Wind, para valer-se dos estímulos tributários para os carros “mil” (que, na época, representavam uns 70% de nosso mercado total). Com 60 cv, era um carro realmente lerdo — em alguns momentos, como na saída de uma via secundária para uma via principal de alta velocidade, chegava a ser assustador… Para tentar amenizar a situação, no ano seguinte o carro ganhou motor 1.0 com 16 válvulas e 68 cv.

Com essa expansão, a linha passou a atender a diferentes perfis de público: das famílias de classe média, chegou também ao uso profissional, onde se destacaria como táxi e carro de frota nos anos seguintes.

O primeiro retoque no estilo veio no fim de 1999, já como linha 2000. Seguia a receita costumeira, com mudanças nos para-choques, grade, capô, faróis, lanternas e acabamento interno. Para marcar a virada do milênio, veio até uma série especial chamada Milenium, extensiva ao Astra e ao Vectra.

Chevrolet Corsa Sedan (2000–03)

Chevrolet Corsa Sedan (2000–03)

Foto de: Chevrolet

A essa altura, a GMB já preparava substitutos para a primeira geração do Corsa nacional. Pelo lado popular, a plataforma GM4200 seria reaproveitada no projeto Arara Azul, ou Blue Macaw, que daria origem ao Celta, fabricado em Gravataí (RS) a partir de 2000. Até o entre-eixos era o mesmo.

Por outro lado, o Corsa estava ganhando uma nova geração na Europa — o Corsa C. Tinha plataforma inédita, a Gamma ou GM4300, com entre-eixos de 2,49 m. Era um carro mais espaçoso e caro que seu antecessor. E já havia uma versão sedã sendo criada para o Brasil.

Parecia que os dias do Corsinha Sedan original estavam contados. Mas que engano…

MUDANÇA DE NOME

A chegada do Celta, como carro de entrada, não tardou em tirar o velho Corsa hatch de linha. Já a versão três-volumes teria outro destino.

A segunda geração do Corsa nacional (Corsa C) jamais conseguiu repetir o êxito de sua antecessora. Tanto que a GM decidiu manter, simultaneamente, o antigo sedã em produção, rebatizando-o de Corsa Classic.

Chevrolet Classic Spirit (2003–08)

Chevrolet Classic Spirit (2003–08)

Foto de: Chevrolet

Enquanto o novo Corsa Sedan na versão 1.0 custava R$ 22.720, o modelo antigo saía por R$ 17.330, ou 23% menos. E mais: inicialmente, o Classic continuou a oferecer opções com motor 1.0 ou 1.6. Em teoria, o modelo antigo resistiria apenas como um tapa-buraco até o lançamento de um sedã derivado do Celta (o Prisma, que só chegou no fim de 2006).

Se antes era o queridinho da GM, o velho sedã compacto perdeu até o direito de usar o nome Corsa. No fim de 2004, passou a ser chamado apenas de Chevrolet Classic. Mesmo assim, continuava entre os modelos mais vendidos do país, deixando seu sucessor bem para trás. Para se ter uma ideia, o ano fechou com 69.708 Classic vendidos, contra 30.128 exemplares do novo Corsa Sedan.

A VIDA LÁ FORA

A essa altura, o velho Corsa Sedan/Classic projetado no Brasil já ganhava uma nova vida no exterior. A primeira fábrica além de São Caetano do Sul a produzi-lo foi a de Rosário, na Argentina, desde 1998. Nas mãos de taxistas e “remiseros”, o “Corsita” se tornaria um dos carros mais vendidos na história daquele país.

Na China, o modelo foi produzido a partir de 2001 pela SAIC-GM, com o nome Buick Sail. Fez enorme sucesso naquele mercado (então emergente). Além do sedã, também foram feitas as versões wagon e furgão. Em 2005, o modelo foi rebatizado de Chevrolet Sail, com retoques no visual. Esses Corsa B chineses chegaram a ser exportados para o Chile, com o nome de Chevrolet Corsa Plus. Ficaram em linha até o início de 2009.

O Chevy C3 mexicano (2009-2012)

O Chevy C3 mexicano (2009-2012)

Foto de: Chevrolet

O sedã criado no Brasil ganhou direção no lado direito para ser vendido na África do Sul e na Índia, com a marca Opel. Na Índia, o três-volumes foi comercializado de 2000 a 2006, enfrentando modelos como o Hyundai Accent e os Maruti-Suzuki Esteem e Baleno.

No México, o sedã era montado com peças brasileiras e, inicialmente, levava o nome de Chevrolet Monza, sendo praticamente idêntico ao modelo vendido aqui. Em 2004, contudo, os carros ganharam conteúdo local e passaram a se chamar Chevy C2 (e Chevy C3, a partir de 2009), com características exclusivas para o mercado mexicano. A plataforma e a mecânica eram dos Corsa B, mas o visual da frente e da traseira foi modernizado. Ficou em linha até 2012.

No Brasil, o Classic perdeu o motor 1.6 e virou definitivamente um sedã 1.0 de entrada, cada vez mais depenado de equipamentos. Ao menos, o motorzinho “mil” de oito válvulas foi ganhando evoluções com o passar do tempo e chegou a ter uma versão VHCE flex, com 78 cv, a partir do fim de 2010, já como modelo 2011. Na mesma época, o modelo nacional passou por seu último facelift, ganhando a mesma frente do Chevrolet Sail chinês (que a essa altura já tinha saído de linha).

Galeria: Corsa Sedan / Classic - História automotiva

Baratinho, robusto, econômico e de direção muito leve e suave, o Classic foi sobrevivendo a tudo e a todos. Em 2012, o veterano modelo viu o fim do Corsa Sedan de segunda geração e do Prisma de primeira geração.

A fabricação do Classic em São Caetano do Sul foi encerrada em 2013, mas o velho sedã continuou à venda por aqui, importado da Argentina. A General Motors simplesmente não tinha como matar o carrinho, que continuava a figurar entre os carros mais vendidos no país — foram 86.935 unidades em seu último ano de produção nacional.


O que você pensa sobre isso?

Por força da lei, o carro ganhou airbag duplo e ABS, inicialmente como opcional e, em 2014, como item de série. Em 2015, seu último ano cheio de vendas, ainda emplacou uma média nada desprezível de 2.600 carros por mês. Em setembro de 2016, a GM anunciou que o modelo estava deixando de ser vendido no Brasil. No mês seguinte, a produção foi encerrada na Argentina.

Foram quase 21 anos de presença no mercado brasileiro. Nesse período, o Corsa B Sedan/Chevrolet Classic emplacou cerca de 1,5 milhão de unidades. Mesmo sem grandes apelos à emoção ou pretensões de sofisticação, o pequeno sedã provou ter qualidades suficientes para conquistar diferentes mercados ao redor do mundo. Era simples, sem frescuras e muito útil no dia a dia.

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