Teste: BYD Atto 2 GS PHEV aposta em economia para enfrentar SUVs compactos
Versão topo rodou 89 km sem precisar de gasolina e chegou a 19,6 km/litro quando ligou o motor
A BYD quer colocar modelos híbridos em todos os segmentos estratégicos do mercado brasileiro. Depois de ganhar força entre os SUVs médios com Song Pro e Song Plus e de avançar no segmento de elétricos de entrada com a linha Dolphin, a aposta da vez é o Atto 2, um SUV compacto que chega para disputar espaço justamente no coração das vendas do país.
Este é o BYD Atto 2 GS, versão topo de linha que custa R$ 169.990 e chega à mesma faixa de preço de versões intermediárias de modelos como Hyundai Creta e Volkswagen T-Cross. Além do pacote de equipamentos mais recheado, a opção GS se diferencia da versão de entrada GL pela bateria maior, de 18,03 kWh, e pelos 197 cv de potência combinada. São argumentos importantes para quem quer entrar no mundo dos híbridos plug-in sem migrar para os SUVs médios.
Do elétrico ao híbrido para novos rumos
Sim, você já viu algo parecido com o BYD Atto 2 nas ruas brasileiras. De forma simplificada, o Yuan Pro é seu equivalente elétrico, que segue nas lojas por R$ 182.990. O Atto 2 é o primeiro da marca chinesa a seguir um caminho contrário por aqui para atender à alta demanda pelos híbridos, inclusive com o uso do nome Atto 2 para diferenciá-los nas lojas. Isso acontecerá com o Dolphin em breve.
O Atto 2 é o primeiro BYD a chegar ao Brasil já com montagem local, em Camaçari (BA). A marca até tentou fazer dele o primeiro PHEV híbrido flex do Brasil, apresentando-o em junho, mas o modelo chegou às lojas depois dos GWM Tank 300 e Haval H6 e de seu próprio irmão, o Song Pro. Isso não tira sua importância.
Suas dimensões o colocam entre os SUVs compactos tradicionais. Com 4,33 m de comprimento, tem tamanho semelhante ao do Hyundai Creta e é pouco maior que o VW T-Cross. Seus 2,62 m de entre-eixos também são praticamente iguais aos das duas referências. São 1,83 m de largura e 1,67 m de altura, números que favorecem quem procura um SUV, mas considera os modelos médios grandes demais para o uso urbano.
Com isso, temos um bom espaço interno no Atto 2. Na dianteira, os bancos são confortáveis, há boa área envidraçada e boa visibilidade. No banco traseiro, também há espaço confortável para as pernas, piso plano, saídas dedicadas de ar-condicionado, portas USB-C para recarga de smartphones e espaço para os ombros até um pouco maior que o dos SUVs compactos tradicionais.
No porta-malas, os 455 litros estão lá, mas a parte superior parece menor do que essa capacidade sugere. Boa parte do volume fica abaixo do piso, mas o estepe foi retirado para abrir espaço para as bagagens. Não há abertura elétrica da tampa, caso você tenha se acostumado a ler sobre esse recurso em qualquer carro chinês mais completo.
Engenharia brasileira ensinou como se faz um híbrido
Desde 2022, com o Song Plus, a BYD se apoia em seu sistema híbrido no Brasil. Relativamente simples, ele une um motor 1.5 aspirado, de injeção indireta, a um conjunto de transmissão com motor elétrico, comercialmente chamado DM-i. De lá para cá, tudo evoluiu muito com a participação da engenharia brasileira, que precisou explicar aos chineses que o mundo aqui é bem diferente.
Além da própria calibração de funcionamento do sistema completo, coube ao Brasil desenvolver o conjunto para uso com combustível flex, incluindo componentes internos preparados para o etanol e ajustes específicos de admissão e combustão para esse combustível e para a mistura com gasolina em qualquer proporção. O fato de ser um motor de injeção indireta é importante para a manutenção futura, quando comparado aos motores de injeção direta, mais caros e complexos.
Este motor 1.5 aspirado tem a função principal de gerar energia para alimentar a bateria, de 18,03 kWh nesta versão, e o motor elétrico, mas também pode ajudar na tração em algumas situações. Por isso, é um motor de baixa potência, com 97 cv e 12,6 kgfm, projetado mais para ser eficiente do que para entregar força, já que trabalha em conjunto com o motor elétrico.
A BYD não divulga os números do motor elétrico separadamente, apenas os do 1.5 aspirado e os valores combinados: 197 cv e 30,6 kgfm no Atto 2 GS. O comportamento do carro, sobre o qual falarei mais adiante, ajuda a explicar isso. A questão também envolve a forma como a engenharia calibrou o sistema para as características específicas do nosso mercado e do público brasileiro, corrigindo uma crítica antiga.
Elétrico por 89 km, quase elétrico nos demais
Sim, a BYD evoluiu bastante na calibração desse sistema híbrido. No começo, a bateria chegava ao seu limite e cabia ao motor 1.5 aspirado a missão de carregá-la para alimentar o motor elétrico e, ao mesmo tempo, tracionar o carro que, no caso do Song Plus, não é leve. Na China, isso funcionava devido às baixas velocidades e ao relevo plano, mas o brasileiro não gostou.
A BYD ouviu as críticas. Hoje, a bateria chega automaticamente ao mínimo de 25% de carga, sem necessidade de configuração na tela, embora esse limite ainda possa ser ajustado para cima, como sempre foi. Com isso, há uma reserva operacional para o conjunto funcionar por completo, mesmo quando o modo EV não pode mais ser acionado e o carro passa a operar em HEV. O motor 1.5 também agradece, assim como o motorista.
Em nosso teste, o Atto 2 GS chegou a 89 km de autonomia elétrica antes do acionamento do motor a combustão, em uso urbano, no modo Eco e com regeneração padrão. É um bom número, suficiente para os deslocamentos de muita gente, que poderá rodar sem consumir combustível, seja gasolina ou etanol. Mais uma vez, o mínimo que o sistema exige para trabalhar em EV são 25% da bateria.
Nesse modo, o Atto 2 entrega torque imediato e silêncio total, como um carro elétrico. Responde bem mesmo no modo mais eficiente e, dependendo do percurso, pode ir além do resultado obtido em nosso teste, como em trajetos mais planos e sem paradas, por exemplo. É a grande vantagem para quem puder fazer recargas externas. Vale, porém, uma observação: o Atto 2 não aceita recarga rápida em corrente contínua (DC), ficando limitado à recarga em corrente alternada (AC), de até 6,6 kW. Em compensação, há o V2L na versão GS.
Mesmo em modo híbrido, o consumo do SUV compacto foi bom. Com gasolina e a bateria no nível mínimo de carga, configurado em 25%, o motor 1.5 trabalha como gerador em boa parte do tempo, tracionando o carro apenas em momentos de maior velocidade ou aceleração. Com isso, o consumo em uso normal é bom: foram 19,6 km/l na cidade e 16,9 km/l na estrada, mesmo em velocidades mais altas. Ambos os resultados foram obtidos com gasolina e não decepcionam quem pretende viajar.
Considerando apenas o uso em modo HEV, o cálculo é que o Atto 2 pode chegar aos 882 km na cidade com os números obtidos em nosso teste e o tanque de 45 litros, e 760 km na estrada, sem contar a distância que o carro poderá percorrer apenas com eletricidade ou com o auxílio da bateria carregada, por exemplo. Os 1.000 km não são impossíveis, principalmente na cidade, onde a autonomia pode ser ainda maior.
A transição entre os motores é suave. O 1.5 é bem isolado, embora se faça presente em rotações mais altas, mas o conjunto evoluiu em relação ao que vimos nos BYD quando chegaram ao Brasil. Com o pé embaixo, o motor fala alto, mas não de forma diferente do que faria o de um modelo exclusivamente a combustão em situações de aceleração total. A entrega de força também é bastante linear, sem aquele desespero e as rodas dianteiras destracionando, como acontecia com os BYD nos primeiros anos.
Mesmo em modo Sport, é perceptível que o motor a combustão tem papel secundário no sistema DM-i da BYD. Com os 197 cv declarados para o conjunto, o 1.5 aspirado parece participar pouco da tração, deixando a função principal para o motor elétrico. Mesmo quando ajuda a movimentar o carro, sua função é muito mais fornecer energia ao conjunto elétrico. Bastou acelerar em modo EV e depois em HEV para perceber como o sistema trabalha, com quase nenhuma diferença.
Em nosso teste, o Atto 2 GS registrou bons 7,8 segundos para ir de 0 a 100 km/h, além de retomadas na faixa dos seis segundos. Mas o melhor é o comportamento em baixas velocidades, que ilustra a sensação de agilidade citada acima: foram 4 segundos de 0 a 60 km/h, um resultado respeitável nas saídas de semáforo. Vale lembrar que, nessa faixa de preço, os SUVs compactos tradicionais costumam ter motores 1.0 turbo e não alcançam esses números.
Ao volante, o Atto 2 também vai bem em suspensão e direção. Mais uma vez, a engenharia o calibrou para o gosto do brasileiro, mais firme e com melhor comunicação com o motorista, sem prejudicar o conforto. A arquitetura de eixo de torção na traseira não chega a prejudicar o balanço, mas há uma leve transferência em curvas mais fechadas, ainda longe de ser perigoso, mostrando que a marca ouviu antigas críticas. O mesmo vale para batidas secas, inexistentes, ou barulhos em situações piores, mostrando que os ajustes foram bem feitos para o piso brasileiro.
A receita chinesa em pacote compacto
O Atto 2 GS herda dos irmãos maiores diversas características para disputar espaço em sua faixa de mercado. Entre elas estão o bom acabamento, com opção de revestimento claro, peças de boa qualidade mesmo quando feitas de plástico rígido e partes macias ao toque, ainda que em menor quantidade do que nos SUVs médios da BYD. Nesta versão, o banco do motorista recebe ajustes elétricos, e o teto panorâmico é um dos diferenciais.
O painel de instrumentos de 8,8 polegadas é de fácil visualização e reúne as principais informações. Também é possível espelhar mapas do Google Maps ou do Waze, graças à integração dos serviços do Google ao sistema multimídia. Na versão GS, a tela de 12,7 polegadas tem boa usabilidade e permite espelhamento sem fio, uma grande evolução da marca nos últimos lançamentos.
A BYD acerta também ao não inventar moda e manter nas portas os controles dos vidros e dos retrovisores. O botão de partida, o seletor dos modos de condução e da regeneração e o controle de volume do som também são físicos. Eles ficam no console central, junto ao carregador por indução de 50 W com ventilação, instalado ali após a transferência do seletor de câmbio para a coluna de direção.
O Atto 2 GS tem pacote ADAS composto por controle de cruzeiro adaptativo, assistente de permanência em faixa, alerta de ponto cego, alerta de colisão com frenagem automática, farol alto automático, frenagem traseira automática, leitor de placas de trânsito e alerta de abertura das portas. O funcionamento é bom, com ajustes adequados para definir a intensidade e o momento de atuação, principalmente na cidade. Completam o pacote as câmeras de 360 graus, a partida remota, o ar-condicionado de duas zonas, as atualizações OTA e o freio de estacionamento com função Auto Hold.
Afinal, o BYD Atto 2 GS vale a pena?
A BYD colocou um SUV compacto completo e híbrido plug-in na faixa de preço das versões intermediárias dos modelos tradicionais. Por R$ 169.990, a versão GS incomodará muita gente e permitiu até que o Song Pro ficasse mais completo e caro sem tirar vendas da marca. Há algumas opções eletrificadas nessa faixa, como o GWM Ora 5, elétrico de R$ 165.990, e o Leapmotor B10 REEV, outro chinês que chegou com preço de SUV a combustão para incomodar as marcas tradicionais.
Mas não há dúvidas de que a BYD entendeu o Brasil. Como híbrido, o Atto 2 reduz a insegurança em relação aos elétricos e à estrutura de recarga. Ao mesmo tempo, oferece preço competitivo, bom consumo e equipamentos capazes de convencer quem ainda está em dúvida. A engenharia também percebeu que não basta trazer um carro da China e vendê-lo por aqui. Veremos muitos Atto 2 pelas ruas nos próximos tempos, com certeza.
Fotos: Mario Villaescusa/Teste: David Costa
BYD Atto 2 GS PHEV
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