Pebble Beach 2026: Duesenberg SSJ de Clark Gable leva o “Oscar” de melhor clássico
Isotta Fraschini do Carde, de Campos do Jordão, foi um dos premiados no Concours d’Elegance
O astro de Hollywood Clark Gable deixou este mundo em 1960, mas um de seus carros acaba de ganhar o “Oscar” dos automóveis clássicos. O Duesenberg SSJ Special Speedster 1935 foi eleito Best of Show no Pebble Beach Concours d’Elegance 2026, realizado no último domingo (16/8), na Califórnia.
Apenas dois Special Speedsters foram construídos, ambos desenhados por Herb Newport sobre uma versão encurtada do chassi, com 125 polegadas (3,18 metros) de entre-eixos. Um ficou famoso nas mãos do ator Gary Cooper; o outro é justamente o carro vencedor deste ano, associado a Clark Gable, apaixonado confesso pelos automóveis da marca. Ambos os Duesenberg foram exibidos juntos em Pebble Beach.
A ligação com Hollywood fazia parte de uma estratégia de divulgação da fabricante de Indiana. Na tentativa de promover seus automóveis e levantar a empresa, que atravessava dificuldades financeiras, os irmãos Duesenberg cederam os dois SSJ a Cooper e Gable.
Era uma maneira eficiente de fazer um dos carros mais rápidos e caros dos Estados Unidos brilhar diante das câmeras e dos clientes endinheirados de Hollywood. Segundo um dos responsáveis pela restauração, Gable ficou com o seu Special Speedster por apenas cerca de seis meses.
Sob o interminável capô há um oito-em-linha com dois comandos de válvulas no cabeçote (DOHC), quatro válvulas por cilindro, dois carburadores e um compressor mecânico. A potência chegava perto dos 405 cv, algo absurdamente fora de série na década de 1930!
O SSJ derivava do Model J, apresentado em 1928, mas levava a receita para um território esportivo. O entre-eixos encurtado em 44 cm em relação aos Duesenberg convencionais recebia uma carroceria aberta, baixa e compacta. Com o enorme oito-em-linha superalimentado à frente, o resultado era um hot rod de fábrica numa época em que boa parte dos automóveis ainda lutava para superar os 100 km/h. Dos Model J produzidos entre 1928 e 1937, os dois SSJ são a configuração mais rara.
O desenho também ajudava a afastá-lo dos enormes carros de luxo americanos daquele período. O longo capô desemboca em um para-brisa baixinho e inclinado, enquanto a traseira curta e a cabine recuada reforçam suas proporções esportivas.
Sandra Button, presidente do Pebble Beach Concours d’Elegance, definiu o SSJ como a expressão máxima da Duesenberg, justamente pela combinação de estilo, desempenho, raridade e uma história diretamente ligada à Hollywood dos anos 1930.
O carro pertence ao colecionador Harry Yeaggy, de Cincinnati, Ohio, que o comprou há três anos, depois de pelejar por quatro décadas para adquiri-lo. Yeaggy já conhecia o caminho até o prêmio principal de Pebble Beach: em 2007, venceu com outro Duesenberg de 1935, o célebre SJ Speedster “Mormon Meteor”. Com a nova vitória, a Duesenberg chegou a oito títulos de Best of Show e segue como a marca americana mais vitoriosa da história do concurso.
Antes de chegar às mãos de Yeaggy, o vencedor do Concours d’Elegance 2026 passou mais de seis décadas com uma mesma família. Sua restauração mais recente procurou desfazer alterações feitas ao longo dos anos e reproduzir exatamente a configuração que o carro apresentava no período de Clark Gable. Para isso, o trabalho chegou ao ponto de desmontá-lo até o chassi nu em busca de vestígios dos materiais originais.
Em um ponto escondido, onde a carroceria se une à parede de fogo, os restauradores encontraram cinco centímetros da pintura original. Também apareceu uma pequena amostra do primeiro revestimento dos bancos, apesar de o interior já ter sido refeito duas vezes ao longo de 91 anos. Esses fragmentos serviram de referência para recuperar a pintura preta em laca e o interior em couro marrom-claro que o SSJ exibia originalmente. O motor já havia sido reconstruído anteriormente por especialistas em Duesenberg e não precisou ser refeito.
Não foi uma disputa fácil. Entre os outros finalistas ao Best of Show estavam o espetacular Delahaye 165 Figoni et Falaschi Cabriolet 1938, um Ferrari 375 MM Pinin Farina Berlinetta 1955 e um Ferrari 375 America Vignale Cabriolet 1954. No total, 218 automóveis participaram da edição deste ano, incluindo 33 carros vindos de 14 países — inclusive do Brasil…
Isotta do Carde foi destaque
Um Isotta Fraschini Tipo 8A que chegou novo ao Brasil, em 1925, pegou um avião para a Califórnia e conquistou o troféu de 2º lugar na categoria J-2: European Classic Over 4 Liters, reservada a clássicos europeus pré-guerra com motores acima de 4 litros. Na disputa estavam ainda um Lagonda V12, de 1939, e um deslumbrante Delahaye 165 Figoni et Falaschi Cabriolet, de 1938, que ficou com o 1º lugar.
Mas voltemos ao Isotta brasileiro. Sim… brasileiro, pois, apesar de ter sido fabricado em Milão, já mora há 101 anos em nosso país. Entre as décadas de 1920 e 1930, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni e seu marido, o magnata e industrial brasileiro Henrique Lage, mantiveram na garagem de seu palacete, hoje o Parque Lage, no Rio de Janeiro, uma bela coleção de automóveis.
A marca de preferência do casal era a Isotta Fraschini, conhecida por seus motores de oito cilindros em linha e pelas carrocerias artesanais feitas sob medida. Nada menos que quatro Isotta passaram pela garagem do palacete no Jardim Botânico. Dono de companhias de navegação (os navios Ita), mineração e construção, Lage podia dar-se a esses luxos.
Quando o empresário morreu, em 1941, Gabriella viu-se em meio a batalhas pelo espólio. Passado um tempo, ela voltou à Itália, levando uma vida bem mais modesta até falecer em 1962. Já os Isotta sobreviveram e ainda estão por aí.
O exemplar levado a Pebble Beach tem motor oito-em-linha de 7,4 litros e 110 cv. Como era comum na época entre as marcas de alto luxo, a Isotta Fraschini vendia somente o chassi e os componentes mecânicos. Daí, o conjunto ia para uma encarroçadora, que “vestia” o chassi de maneira artesanal e, muitas vezes, sem duplicatas. A unidade hoje com o Carde tem desenho exclusivo assinado pela Carrozzeria Castagna, em Milão mesmo. Finalizado em 1925, tem número de identificação 810.
Nos anos 50, esse Tipo 8A foi restaurado por Eduardo André Matarazzo, pioneiro do antigomobilismo, e permaneceu por muitos anos em seu museu particular, em Bebedouro (SP). Mais recentemente, pertencia a um grande colecionador de Minas Gerais.
Mesmo estando em perfeitas condições durante sua exposição no Carde desde a inauguração do museu, em novembro de 2024, o Isotta Fraschini Tipo 8A Cabriolet d’Orsay passou por um belo trato antes de ser embarcado para a Califórnia.
As partes que antes estavam cromadas receberam um banho de níquel, material usado em 1925. O Isotta recebeu nova pintura na cor cinza (padrão de época), incluindo o capô, que deixou de ser de alumínio polido para retornar às características originais. As rodas também agora estão na cor cinza, deixando para trás a cromação anterior. A tampa do radiador agora é da marca Bazin, do mesmo tipo usado originalmente. O estofamento e a capota foram refeitos em padrões fiéis à época. Além disso, o carro ganhou um baú acoplado à parte traseira. E, é claro, foi feita uma revisão mecânica e elétrica. Nada de dar vexame na rampa dos premiados.
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Pebble Beach 2026 reúne obras-primas da aerodinâmica pré-guerra
Ferrari de Michael Jordan some por 20 anos e é vendida por quase R$ 14 milhões
Fiuk vende Mercedes-Benz por R$ 51 mil e coloca outro carro de coleção à venda
Mazda se rende às picapes e confirma nova geração da única que tem
Luciano Hang compra Mercedes-Benz raro de 1931 que pertenceu a Carlos Renaux
E lá vem mais um Omoda: marca mostra esboços do X, que estreia este mês
Honda Fit: os 25 anos de um carro honesto que fez sucesso mundial