Por que as Ferrari são vermelhas? Não foi só por beleza
Antes de virar marca registrada dos esportivos da italiana, a pintura tinha uma função nas corridas
Se alguém pedir para você imaginar uma Ferrari, há uma boa chance de que o carro venha à cabeça pintado de vermelho. A associação ficou tão forte que nem é preciso conhecer o modelo, o motor ou a história do cavalinho para reconhecer a receita, mas essa escolha não nasceu de uma pesquisa de marketing ou simplesmente do gosto de Enzo Ferrari.
Antes de virar uma espécie de assinatura dos esportivos de Maranello, o vermelho servia para identificar os carros italianos nas competições internacionais. A Ferrari herdou essa tradição e, entre vitórias nas pistas, aparições no cinema e carros que foram parar nas paredes de muita gente, acabou fazendo a cor parecer sua.
Ferrari 275 GTS (1965)
O vermelho era da Itália, não da Ferrari
Nos primeiros anos do automobilismo internacional, as cores ajudavam a identificar a origem dos competidores. Os italianos corriam de vermelho, os franceses de azul e os britânicos de verde, enquanto os alemães ficaram conhecidos pelo branco e, posteriormente, pelo prata.
O vermelho italiano passou a ser conhecido como Rosso Corsa, literalmente “vermelho de corrida”, e não era exclusividade de uma fabricante. Quando Enzo fundou a Scuderia Ferrari, em 1929, sua equipe ainda colocava nas pistas carros da Alfa Romeo e seguia a cor destinada aos representantes da Itália. A fabricante de automóveis com seu sobrenome só surgiria em 1947.
Portanto, a Ferrari não inventou a tradição, mas se tornou sua representante mais famosa. Ao longo das décadas, a continuidade nas competições e o sucesso dos esportivos de rua fizeram com que uma identificação nacional passasse a ser confundida com a identidade de uma única marca.
Fórmula 1 ajudou a torná-la popular no mundo
Presente no campeonato desde a primeira temporada, em 1950, a Ferrari encontrou na Fórmula 1 uma vitrine que poucas fabricantes tiveram por tanto tempo. Conforme as transmissões passaram a alcançar mais países, seus carros vermelhos ficaram familiares até para quem não sabia diferenciar um motor de rua de um de competição.
As gerações de Niki Lauda, Gilles Villeneuve e Michael Schumacher ajudaram a manter essa associação, mesmo com mudanças profundas no desenho dos carros, nos regulamentos e nos patrocinadores. Para muita gente que acompanhou as corridas pela televisão, reconhecer a Ferrari vinha antes de conseguir ler qualquer nome na carroceria.
Isso não significa que a equipe nunca tenha fugido da receita. Nas duas últimas provas da temporada de 1964, por exemplo, os carros correram de branco e azul, inscritos pela equipe norte-americana NART. A exceção virou parte da história justamente porque o vermelho já era a imagem mais conhecida da Scuderia.
Fora dos circuitos, os esportivos de rua fizeram o restante do trabalho. Entre filmes, videoclipes, propagandas e pôsteres, a Ferrari vermelha virou uma representação quase automática de carro rápido, caro e desejado, mesmo para quem nunca chegou perto de uma.
Dino 206 GT
Nem todo vermelho de Ferrari é igual
Embora muita gente trate “vermelho Ferrari” como se fosse o nome de uma única tinta, a fabricante já ofereceu diferentes interpretações da cor. O Rosso Corsa é o mais conhecido, mas dividir o catálogo com outros tons permite variar bastante o resultado sem abandonar a tradição.
O Rosso Scuderia tem aparência mais clara e viva, com forte associação aos carros de Fórmula 1, enquanto o Rosso Dino puxa para o laranja. A própria Ferrari lembra que este último foi a cor de lançamento do Dino 206 GT, mostrando que as variações não são uma invenção recente dos programas de personalização.
Há também opções como o Rosso Fiorano, de aparência mais escura, além de acabamentos metálicos e pinturas especiais. Colocar duas Ferrari vermelhas lado a lado, portanto, pode revelar diferenças que passariam despercebidas numa foto isolada, ainda mais dependendo da iluminação e das formas da carroceria.
E quem prefere uma Ferrari amarela?
Apesar de toda essa história, ninguém precisa escolher vermelho para levar uma Ferrari para casa. Amarelo, azul, verde, preto, prata e outras cores também fazem parte do repertório da fabricante, com possibilidades de personalização para quem quer fugir da combinação mais previsível.
O amarelo, inclusive, tem uma ligação com a marca que vai além de oferecer contraste no estacionamento. Enzo o escolheu para o fundo do emblema do cavalinho por sua relação com Modena, cidade cujas cores incluem amarelo e azul. Ou seja, uma Ferrari amarela também carrega uma referência às origens da empresa, mesmo que o vermelho costume ficar com a fama.
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