Volkswagen Saveiro: adeus, amor, eu vou partir…
Lançada em 1982, última sobrevivente da família Gol dará lugar à Tukan
A Tukan é o assunto do dia e a Volkswagen vai preparando a aposentadoria da Saveiro. Não será uma despedida simples, já que o modelo ainda é capaz de superar 5 mil unidades emplacadas por mês e se mantém como a terceira picape mais vendida do país, atrás apenas das Fiat Strada e Toro. Sem falar no que representa para o mercado nacional…
Poucos carros brasileiros tiveram uma existência tão longa e variada quanto a Saveiro. Já foi picape de trabalho pesado, companheira na fazenda e objeto de desejo da playboyzada. Serviu para carregar cimento de segunda a sexta e a prancha no fim de semana. E atravessou mais de quatro décadas sem abandonar uma característica: sempre foi um “automóvel com caçamba”.
Apresentada ainda sem nome no Salão de 1981, a Saveiro foi lançada oficialmente em 23 de agosto de 1982 como o quarto e último integrante da família BX, desenvolvida pela Volkswagen para o Brasil. O Gol havia chegado em 1980, o Voyage em 1981 e a Parati em 1982. Só faltava a picape.
Quarenta e quatro anos e muitas evoluções depois, a picape continua sendo produzida em São Bernardo do Campo (SP) e é a última sobrevivente daquela família. Gol, Voyage e Parati já partiram. A Saveiro ficou.
Sua despedida encerrará uma linhagem iniciada quando Fiat 147, Fusca e Chevette ainda figuravam entre os carros mais vendidos do país. Nas festinhas, só dava "Você não soube me amar", da Blitz, e “Let’s groove”, de Earth, Wind & Fire. Nos cinemas, “E.T., o extraterrestre” batia recordes de bilheteria.
Saveiro - o modelo original de 1982
Nasce a Saveirinho
Quando chegou ao mercado, a Saveiro (Cr$ 1.411.069) encontrou um segmento ainda pequeno, disputado pela Fiat Pick-up (Cr$ 1.345.090) e pela Ford Pampa (Cr$ 1.758.341). A Chevrolet Chevy 500 só apareceria no ano seguinte. Até o nome combinava com a proposta. Saveiros são pequenas embarcações usadas para transportar carga e pessoas. A nova picape pretendia fazer exatamente isso, só que sobre quatro rodas.
Derivada do Gol, mantinha seus 2,36 metros de entre-eixos e a suspensão traseira com molas helicoidais, em vez de feixes de molas. Era uma solução incomum entre picapes, que diminuía o espaço da caçamba mas, em contrapartida, aumentava a suavidade de marcha e a estabilidade. A capacidade de carga era de 570 kg e o estepe ficava atrás do banco do passageiro, o que deixava a cabine um tanto acanhada. Os pneus 175/70 R13 eram mais largos que os 155 do Gol.
Com carga, traseira arriada
Debaixo do capô estava o conhecido 1.6 boxer refrigerado a ar do Gol “batedeira”, com dupla carburação e 66 cv (SAE). Isso apenas no mercado brasileiro: as versões de exportação, denominadas P-570, desde o início podiam receber o motor “a água” dos Voyage e Parati.
Mesmo na versão “a ar”, a picapezinha andava bem para os padrões da época e consumia pouco: com 500 kg de carga, na estrada, fazia uns 13 km/l de gasolina (havia também versões a álcool). Era uma picape bonita, ágil e extremamente gostosa de dirigir, muito mais “carro de passeio” do que suas concorrentes da Fiat e da Ford.
Saveiro 1985 - motor a água e frente dos Voyage e Parati
A Saveiro com motor boxer durou pouco. No fim de 1984, para a linha 1985, a picape recebeu o quatro-cilindros 1.6 refrigerado a água MD-270, antecessor do célebre AP. O câmbio de cinco marchas chegaria na linha 1986.
Em 1987 veio uma grande reforma visual, com capô mais baixo e frente redesenhada. Dois anos depois, como resultado da Autolatina, aconteceu algo curioso: além dos AP, algumas Saveiros passaram a utilizar o AE-1600, nome Volkswagen para o motor Ford CHT (de origem Renault Cléon-Fonte).
Em 1990, a produção alcançou as primeiras 100 mil unidades. No ano seguinte apareceu a famosa frente “chinesinha”, com faróis mais estreitos e arredondados. Foi nessa fase que a Saveiro começou a mudar de vida.
Saveiro Summer G1
Em 1993, a Volkswagen apresentou a Sunset, primeira série especial da picape. Com motor 1.8, rodas BBS, bancos Recaro opcionais, faróis auxiliares, barras na caçamba e decoração com vistosas faixas alaranjadas, a picape deixava claro que havia outro público-alvo além daquele interessado apenas em transportar carga. Dois anos depois veio a Summer, uma das Saveiros mais lembradas até hoje. Com motor 1.8, rodas de liga leve de 14 polegadas e direção hidráulica, assumia de vez o estilo jovem.
Saveiro G2 (Bolinha)
Saveiro “bolinha”
A primeira geração chegou ao fim em outubro de 1997. Naquele ano apareceu a Saveiro derivada do Gol “bolinha”, com carroceria arredondada e interior mais moderno. A distância entre-eixos aumentou dos 2,36 m para 2,60 m, enquanto a capacidade de carga subiu para 700 quilos.
Os motores AP continuaram e foi nessa fase que surgiu uma das Saveiros mais cobiçadas da história: a TSi 2.0. Mais do que uma picape “jovem” enfeitada com adesivos, a TSi trazia o motor 2.0 Mi de 112,5 cv. Havia até bancos Recaro como opcionais. Em 1998 apareceu sua maior adversária: a Fiat Strada.
VW Saveiro G3 Fun
G3, G4 e muitas séries especiais
Para a linha 2000 veio a reforma conhecida como G3. Apesar do nome consagrado, não se tratava realmente de uma nova geração, mas de uma evolução do modelo anterior. Foi o ápice do refinamento da Saveiro. O interior evoluiu em materiais, iluminação e ergonomia.
Foi também um período fértil em séries especiais. A Summer voltou, a Fun apareceu em 2001 e, no ano seguinte, surgiu a SuperSurf, com suspensão elevada, rodas de 15 polegadas e visual mais aventureiro. Em 2003 veio a City.
Volkswagen Saveiro G3 Fase II (2003-2005)
Naquela fase, a Saveiro também entrou na era flex (linha 2004). O 1.6 Total Flex permitia abastecer com gasolina ou etanol em qualquer proporção.
Para a linha 2006 apareceu a chamada G4, novamente uma grande reestilização da mesma arquitetura. Frente, traseira e interior mudaram, e a SuperSurf ainda ganhou uma reedição em 2006. A velha fórmula continuava funcionando, mas chegava ao limite. Em 2009 terminava uma era iniciada 27 anos antes: a Saveiro deixaria para trás o motor montado longitudinalmente.
VW Saveiro Trooper ce G5
Nova plataforma e motor transversal
A Saveiro lançada em 2009 como modelo 2010 representou a maior transformação técnica da história do modelo. Acompanhando o Gol lançado no ano anterior, a picape adotou uma nova arquitetura, derivada da PQ24 com elementos da PQ25, com motor transversal.
A cabine ficou mais espaçosa, o comportamento dinâmico evoluiu e, além da cabine simples, surgiu pela primeira vez a cabine estendida, com um pequeno espaço atrás dos bancos. O motor era o conhecido 1.6 EA111 flex.
VW Saveiro Cross CE (G5)
Na linha 2011 nasceu a Cross, com para-choques específicos, molduras plásticas, rodas de 15 polegadas e acabamento mais caprichado. Era a continuação, em outra época, da receita iniciada pelas Sunset e Summer.
A primeira grande reforma veio em 2013, para a linha 2014. Pouco depois, a Cross recebeu o moderno EA211 1.6 MSI de 16 válvulas, com até 120 cv.
Volkswagen Saveiro Cross G6
Em agosto de 2014 chegou outra novidade histórica: a cabine dupla. Com cinco anos de atraso, a Volkswagen finalmente respondia à Fiat Strada com uma Saveiro para quatro ocupantes. Havia, porém, uma limitação que permaneceria até hoje: apenas duas portas. Em 2015 apareceu ainda a edição Rock in Rio, com decoração e equipamentos específicos.
VW Saveiro G7 Robust
A última sobrevivente do Gol
Na linha 2017, a Saveiro passou por outra reforma e ganhou, pela primeira vez, uma dianteira própria. Foi também nessa fase que surgiu a versão Robust, voltada ao trabalho. Em 2019, a cabine estendida deixou de ser oferecida.
Enquanto isso, a concorrência avançava. A segunda geração da Strada, lançada em 2020, cresceu, ganhou cabine dupla com quatro portas e, posteriormente, motor turbo e câmbio automático. A Saveiro permaneceu fiel a uma receita muito mais conservadora.
VW Saveiro Extreme atual
Na linha 2023, o antigo 1.6 de oito válvulas saiu definitivamente de cena. Todas as versões passaram a utilizar o EA211 1.6 MSI de 16 válvulas, recalibrado para atender às novas normas de emissões, com até 116 cv e 16,1 kgfm.
Em agosto de 2023 chegou aquela que provavelmente será sua última grande atualização. A dianteira ficou mais alta e robusta, enquanto a Cross mudou de nome e virou Extreme.
Hoje, a Saveiro continua oferecida com cabines simples e dupla. Todas usam o mesmo motor 1.6 16V flex de até 116 cv, sempre combinado ao câmbio manual de cinco marchas. Não há turbo, transmissão automática ou tração integral. Em plena segunda metade da década de 2020, é uma receita quase analógica. Talvez esteja justamente aí parte de seu encanto.
Volkswagen Saveiro Extreme atual
A Saveiro já ultrapassou 1,8 milhão de unidades produzidas e, em julho de 2026, alcançou outro marco: 400 mil exemplares exportados. Quando a última sair da linha de montagem da Anchieta, não acabará apenas a produção de uma picape de 44 anos. Ali terminará, definitivamente, a história da família Gol.
Chega a Tukan
Agora, a Volkswagen mostra por inteiro a picape que abrirá o capítulo seguinte dessa história: a Tukan, que chegará às lojas no primeiro semestre de 2027. Já estão confirmadas as versões Robust de cabine simples, voltada ao trabalho, e Extreme de cabine dupla.
A mudança técnica será enorme. Sai a velha arquitetura da família Gol e entra a plataforma modular MQB, adaptada para o uso de uma picape. Atrás, a Tukan abandona a solução da Saveiro em favor de eixo rígido com feixes de molas, buscando maior robustez e capacidade de carga. A Volkswagen também já confirmou que a gama terá uma versão híbrida, embora ainda não tenha divulgado os detalhes do conjunto.
A Tukan será maior, mais moderna e terá uma missão mais ampla. Dificilmente, contudo, vai superar o impacto que a Saveiro representou nos anos 80 e 90.
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