Ir para o conteúdo principal

O 'compromisso' da Anfavea e a conta que sobra para o bolso do comprador

Entidade quer menos facilidade para importados, mas e a livre concorrência, como fica?

navio-da-byd-desembarca-king-e-song-pro-em-suape (3)

O avanço da eletrificação no mercado automotivo brasileiro caminha a passos largos, mas os bastidores dessa transição revelam uma disputa que vai muito além da ecologia e da modernização da nossa frota, ou até mesmo do que o consumidor brasileiro quer. 

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) publicou uma carta aberta, em 19 de junho de 2026, exigindo a manutenção rígida do cronograma de recomposição tarifária para a importação de carros elétricos e eletrificados A entidade pede também o fim definitivo das cotas de isenção para componentes desmontados, os chamados kits CKD/SKD, programado para 2027.

Paralelamente, o presidente da associação, Igor Calvet, veio a público manifestar forte preocupação com supostos rumores sobre discussões governamentais para romper o que foi acordado anteriormente. Calvet, porém, mencionou que tais rumores estariam circulando por Brasília. Isso poderia refletir numa extensão das cotas de importação que se encerraram em janeiro para eletrificados importados já montados, algo que poderia ser comunicado após reunião da Câmara de de Comércio Exterior (CAMEX), marcada para 23 de junho. 

 

O argumento do setor tradicional segue a mesma cartilha de sempre: proteger as regras do jogo e garantir a segurança jurídica. Para a entidade, essa blindagem é fundamental para assegurar os mais de R$ 140 bilhões em investimentos prometidos até 2033.

Se olharmos o cenário tributário atual, o cerco aos modelos importados está se fechando de forma severa no país. O cronograma estabelecido estipula que carros elétricos e híbridos plug-in prontos atinjam a alíquota cheia de 35% em julho de 2026. No caso dos kits desmontados - SKD ou CKD -, a situação é igualmente restritiva. A cota temporária com imposto zero de US$ 463 milhões expirou no início de 2026 e não foi renovada pelo governo.

Galeria: Produção do Volkswagen Tera em Taubaté (SP)

Atualmente, esses componentes importados pagam tarifas intermediárias que variam entre 16% e 18%. O avanço progressivo dessas taxas continuará até alcançar os mesmos 35% em janeiro de 2027. Esse arcabouço normativo já mudou o comportamento das novas montadoras no país. Marcas como BYD e GWM foram forçadas a acelerar seus investimentos industriais locais. O objetivo é reduzir a dependência de peças externas antes da chegada da alíquota cheia.

Em sua manifestação oficial, a Anfavea detalha os motivos técnicos para exigir o cumprimento rigoroso dessas barreiras. A entidade defende quatro pontos centrais no documento. O primeiro é a manutenção integral do cronograma tributário, sem qualquer tipo de postergação. O segundo cobra a não renovação das cotas com alíquota zero encerradas em janeiro. O terceiro ponto veda a criação de ex-tarifários ou mecanismos equivalentes. Por fim, o quarto item exige diálogo prévio diante de qualquer mudança nas regras que fundamentaram os aportes financeiros das marcas instaladas.

A associação argumenta que a fabricação por kits deve evoluir obrigatoriamente para a integração local. O foco deve ser o desenvolvimento de fornecedores nacionais, e não a utilização de componentes em alto volume. Para justificar o pleito, a entidade apresenta números alarmantes de um estudo próprio. 

Navio da BYD chega ao Brasil novamente com Dolphin, Yuan e Song
Foto de: BYD

A massificação de veículos por kits importados traria um prejuízo potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças. O mesmo levantamento aponta uma redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação do Governo Federal. Além disso, o estudo prevê a eliminação de 68 mil empregos diretos e 191 mil postos em toda a cadeia produtiva.

A entidade destaca ainda a situação dos pátios das montadoras tradicionais. Os estoques gerados pelo volume de importados atingiram impressionantes 150 dias em maio de 2026. A Anfavea classifica esse movimento como um abastecimento antecipado por parte de concorrentes externas, feito especificamente para distorcer as condições de mercado.


O que você pensa sobre isso?

No entanto, por trás da robustez desses dados e da legítima defesa do emprego nacional, o posicionamento da Anfavea revela uma visão estritamente corporativista. A associação atua para blindar os interesses de suas associadas tradicionais, deixando de lado o que é mais interessante para quem realmente compra o carro. Ao fechar as portas para qualquer flexibilização tarifária e classificar a concorrência externa como uma distorção nociva, a entidade trabalha ativamente para limitar as opções de escolha do consumidor brasileiro.

O comprador é o grande penalizado dessa queda de braço. O cidadão comum poderia se beneficiar da concorrência aberta para acessar tecnologias de eletrificação a preços muito mais competitivos. Ao priorizar barreiras tributárias severas sob a justificativa de proteger investimentos de R$ 140 bilhões, a entidade garante o privilégio comercial das marcas já estabelecidas. O resultado prático é que o bolso do cidadão arca com a conta de um mercado fechado, com concorrência limitada e preços artificialmente inflacionados.

Compartilhe este artigo
Envie seu flagra! flagra@motor1.com