Especial: Uma imersão no universo Raptor no coração do W2RC
Entre o deserto argentino, Carlos Sainz Sr. e a brutalidade da Raptor T1+, vivi a experiência mais extrema do off-road
Existem poucas oportunidades de entender a origem de um veículo. Normalmente conhecemos apenas o resultado final, em evento, exposto em uma concessionária, acompanhado de ficha técnica, lista de equipamentos e apresentações cuidadosamente preparadas. Com a linha Raptor, o caminho foi diferente.
A convite da Ford Racing, viajei até San Juan, na Argentina, para acompanhar uma etapa do World Rally-Raid Championship (W2RC), uma das competições mais exigentes do automobilismo mundial. Foi uma oportunidade rara de observar de perto onde a Ford desenvolve tecnologias, calibra suspensões, valida componentes e coloca seus veículos à prova em condições que nenhum centro de testes consegue reproduzir artificialmente.
Imersão universo Raptor - Desafio Ruta 40 W2RC
Durante três dias acompanhei pilotos, engenheiros, mecânicos e carros de competição em um ambiente onde areia, pedras, calor, frio e centenas de quilômetros percorridos diariamente em alta velocidade fazem parte da rotina. Uma experiência que ajuda a explicar por que o nome Raptor conquistou tanto prestígio dentro e fora das pistas.
Raptor T1+ no bivouac do desafio Ruta 40 W2RC
Mais do que acompanhar uma prova do campeonato mundial, a viagem permitiu entender como a competição influencia diretamente os veículos vendidos nas concessionárias. Entre uma conversa com Carlos Sainz Sr., uma visita aos bastidores da equipe e uma passagem pelo deserto argentino, surgiu também a oportunidade de pilotar uma F-150 Raptor nas mesmas trilhas utilizadas pelos competidores para o shakedown da prova. E talvez não exista cenário melhor para compreender o que realmente significa o conceito Raptor.
Dia 1: dentro do bivouac da Ford Racing
A experiência começou no bivouac da Ford Racing montado em San Juan. Para quem não está familiarizado com o universo do rally raid, o bivouac funciona como o coração da competição. É uma cidade temporária montada no meio do nada, reunindo equipes, pilotos, engenheiros, mecânicos, caminhões de apoio, peças de reposição e toda a estrutura necessária para manter os veículos em condições de enfrentar alguns dos terrenos mais severos do planeta. Desta fez, foi montado no Circuito San Juan Villicum, autódromo localizado em Albardón, a 20 km ao norte da capital da província de San Juan e às margens da Ruta 40.
Caminhar pelo bivouac é provavelmente a forma mais interessante de compreender a dimensão de um campeonato como o W2RC. Enquanto o público acompanha os carros acelerando pelas especiais, é ali que o verdadeiro trabalho acontece. Mecânicos desmontam componentes, engenheiros analisam dados coletados durante os testes e pilotos participam de reuniões técnicas que definirão os próximos passos da equipe. Tudo funciona em ritmo intenso, mas com uma organização impressionante.
Raptor T1 no Bivoauc Ford Racing Red Bull
Foi nesse ambiente que conversei com diversos integrantes da Ford Racing. Um comentário apareceu repetidamente entre mecânicos e engenheiros: a robustez do conjunto formado pelo motor V8 5.0 Coyote aspirado e pela suspensão equipada com amortecedores Fox. Em uma indústria cada vez mais orientada por downsizing, eletrificação e sistemas complexos, existe algo quase nostálgico na forma como esse motor encara sua missão. A potência impressiona, mas o que mais chama atenção é a confiabilidade, a simplicidade de manutenção e a capacidade de suportar condições extremas sem perder desempenho.
Carlos Sainz Sr - bicampeão do Campeonato Mundial de Rali e tetracampeão do Rali Dakar
O dia também reservou uma conversa especial com Carlos Sainz Sr. O espanhol relembrou sua trajetória com a Ford, comentou projetos anteriores e falou sobre o atual desafio de ajudar a marca a construir uma operação vencedora no Mundial de Rally Raid. Aos 64 anos, segue perseguindo aquilo que o transformou em uma das maiores lendas do esporte: vitórias. O objetivo é claro, lutar pelo título mundial e voltar a conquistar o Dakar.
Dia 2: copiloto de Carlos Sainz Sr. no deserto
O segundo dia começou cedo e reservava uma experiência que dificilmente será esquecida. Logo pela manhã seguimos para o deserto argentino, onde tive a oportunidade de ocupar o banco do navegador da Ranger Raptor T1+, o carro desenvolvido especificamente para disputar o W2RC.
Acampamento para conhecer e andar no Raptor T1+
O percurso reunia todos os ingredientes que tornam o rally raid tão fascinante e ao mesmo tempo tão brutal: areia profunda, pedras soltas, mudanças abruptas de relevo e trechos que parecem desafiar qualquer lógica de velocidade. Observando de fora já impressiona. Sentado dentro do carro, a percepção muda completamente.
O nível de controle é absurdo. Em determinados momentos, a sensação é de que a Ranger Raptor T1+ simplesmente ignora os obstáculos. A suspensão absorve impactos violentos sem transmitir desconforto aos ocupantes e há situações em que o carro parece literalmente flutuar sobre o terreno. Tudo acontece com uma naturalidade que só reforça o talento de Carlos Sainz Sr. ao volante.
O ronco do V8 completa a experiência. Não existe qualquer filtro entre piloto, motor e terreno. Apenas um conjunto mecânico trabalhando no limite enquanto a suspensão faz um trabalho quase inacreditável para manter tudo sob controle. A cabine é apertada, entrar e sair exige certa agilidade e praticamente tudo ali foi projetado com foco exclusivo em desempenho. Mas esse detalhe desaparece rapidamente diante da experiência de atravessar o deserto em ritmo de competição.
Dia 2: pilotando a F-150 Raptor na trilha do rally
Se andar ao lado de Carlos Sainz Sr. foi impressionante, pilotar uma F-150 Raptor no mesmo ambiente utilizado pelos competidores para o shakedown da prova ajudou a criar uma conexão direta entre o mundo da competição e os veículos vendidos ao público.
Não fui a San Juan para testar uma F-150 Raptor. Mas talvez esse tenha sido justamente o melhor cenário possível para conhecê-la. O trajeto reunia cascalho, areia, pedras de diferentes tamanhos, trechos extremamente irregulares e até passagens pelo leito seco de um rio. Em qualquer veículo convencional, o cenário exigiria cautela permanente.
Na F-150 Raptor, a sensação é completamente diferente. A picape transmite um nível de confiança difícil de encontrar em qualquer outro veículo à venda atualmente. Obstáculos que normalmente obrigariam o motorista a reduzir drasticamente a velocidade são absorvidos pela suspensão com enorme naturalidade. Você acelera, e acelera mais e segue com absoluto controle. É absurdo.
No modo Baja, a experiência fica ainda mais divertida. O motor permanece constantemente próximo das 4.000 rpm, pronto para responder imediatamente ao menor comando do acelerador. Durante o percurso era comum ouvir pedras atingindo as proteções inferiores da carroceria. Em vez de preocupação, isso reforçava a sensação de que a picape foi projetada exatamente para esse tipo de ambiente.
Talvez o aspecto mais impressionante tenha aparecido ao final do trajeto. Depois de percorrer um longo trecho em condições severas, a F-150 Raptor retornou ao asfalto como se nada tivesse acontecido. Nenhum ruído interno, nenhum sinal de desgaste ou desalinhamento, apenas uma sensação de robustez difícil de encontrar atualmente.
Mais importante: só chegamos a determinados pontos daquela trilha porque a picape realmente era capaz de chegar lá.
O acampamento no deserto
A programação continuou com um comboio formado por Ranger Raptor e F-150 Raptor rumo ao acampamento da Ford Racing no deserto, cerca de uma hora no meio de estradas "imaginárias" que o time Ford Racing da Argentina dominava. A paisagem ajudava a reforçar a sensação de isolamento. Durante o dia as temperaturas giravam em torno dos 20 graus. À noite, o termômetro despencava para algo próximo de zero.
O acampamento parecia uma pequena base avançada instalada no meio do nada. Sim, nosso "hotel" eram barracas de camping. Mesmo no meio do deserto, o time Ford conseguiu montar uma estrutura excepcional com direito a tomada elétrica interna e até um aquecedor. Dia chegando ao fim e um tradicional churrasco argentino tomou conta da noite enquanto o calor da brasa disputava atenção com um céu absurdamente estrelado. Foi provavelmente o momento em que o rally deixou de parecer uma competição e passou a parecer um estilo de vida.
Dia 3: acompanhando o rally de perto
A manhã seguinte começou cedo e fria. Muito fria. Foi então que tive a oportunidade de acompanhar a prova de um ponto privilegiado, observando motos, quadriciclos e carros surgindo no alto de uma montanha antes de enfrentar uma descida extremamente técnica.
O Desafio Ruta 40 W2RC começou com as motos
Pouco depois apareceu novamente a Ranger Raptor T1+, conduzida por Carlos Sainz Sr. O ronco do V8 ecoava pelo vale enquanto a suspensão trabalhava sem descanso para absorver cada obstáculo do percurso. Assistir pela televisão já impressiona. Ver tudo acontecer a poucos metros de distância oferece uma perspectiva completamente diferente sobre a complexidade e a exigência física desse tipo de competição.
Claro que estávamos esperando ver os carros da Ford Racing passar, mas também foi possível notar a diferença do carro utilizado pelo piloto brasileiro Lucas Moraes, o Dacia Sandrider, equipado com motor V6 biturbo. Sem dúvida, o Raptor T1+ rasga o deserto com seu som absurdo foi o grande momento do dia.
De volta ao Brasil com outra visão sobre a Raptor
O retorno ao aeroporto aconteceu a bordo da F-150 Raptor, percorrendo durante cerca de duas horas trilhas semelhantes às utilizadas pela competição. Foi o encerramento perfeito para uma experiência construída em torno do mesmo conceito: mostrar de onde vem a credibilidade da linha Raptor.
Durante três dias acompanhei mecânicos trabalhando em veículos de competição, conversei com pilotos que enfrentam alguns dos terrenos mais difíceis do planeta, percorri trilhas capazes de desafiar qualquer utilitário convencional e vi de perto como a competição influencia diretamente o desenvolvimento dos produtos vendidos nas concessionárias.
A mala voltou para o Brasil carregando areia do deserto argentino. A memória voltou carregando algo mais difícil de transportar.
Depois de acompanhar uma etapa do W2RC por dentro, ficou mais fácil entender por que a Ford escolheu o nome Raptor para seus veículos mais extremos. O conceito não nasceu em uma apresentação de PowerPoint nem em uma sala de marketing. Nasceu em lugares como San Juan, como o Dakar, onde a competição funciona como um laboratório permanente e onde cada componente precisa provar seu valor todos os dias.
Talvez seja justamente por isso que, ao volante de uma Ranger Raptor ou de uma F-150 Raptor, existe uma sensação diferente. Não parece apenas uma picape inspirada na competição.
Parece uma picape que carrega um pedaço do que existe de mais extremo dela.
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