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Audi F103: os 60 anos do modelo que reviveu a marca das quatro argolas

Juntamos o Audi mais antigo no Brasil com seu neto, o A3 Sedan Performance Black

Audi A3 Performance Black (2025) e Audi F103 (1966) no Museu Militar Conde de Linhares (1)
Foto de: Motor1 Brasil

Um Audi A3 Sedan de quarta geração chega ao Rio para avaliação. O modelo passou recentemente por um facelift. É compacto, com para-lamas bem pronunciados e muita pinta esportiva. Para deixar as coisas ainda mais interessantes, trata-se da versão topo de linha, a Performance Black, que tem para-choques de desenho agressivo e detalhes em preto brilhante nas molduras das janelas, nas capas dos retrovisores e nas saias laterais. Faróis Matrix LED e belas rodas de 19” completam o visual externo — um convite à curtição.

Só há um porém: em março passado, nosso coleguinha Rods Fernandes já andou nesse mesmíssimo A3 verde Distrito e publicou suas impressões aqui no Motor1 Brasil

Nisso, chega uma mensagem no WhatsApp. É um amigo, o Raphael Tufani, que manda a foto de seu novo brinquedo velho: um Audi F103, ano 1966. Até que alguém prove o contrário, é o mais antigo sobrevivente da marca alemã no Brasil (não vamos considerar os carros da coirmã DKW, que eram de outra divisão do grupo Auto Union).  

Audi F103 (1966) - Museu Militar Conde de Linhares

Audi F103 (1966) - Museu Militar Conde de Linhares

Foto de: Motor1 Brasil

O modelo F103 foi o primeiro Audi lançado no pós-guerra. Apresentado ao público em 9 de setembro de 1965, está completando exatos 60 anos esta semana — uma ocasião perfeita para contar sua história aqui.

Proponho fazer um ensaio fotográfico do “avô” junto com o “neto”, e Raphael topa na hora. Mais do que isso: consegue uma ótima locação pertinho de sua oficina, o Museu Militar Conde de Linhares, no bairro imperial de São Cristóvão. Formou! Teremos histórias para contar.


AUDI MUITO ANTES DE SENNA

O primeiro Audi a desembarcar no Brasil foi emplacado no Rio de Janeiro em novembro de 1911, recebendo a licença 1115 da então Capital Federal. Seu proprietário era o comerciante alemão naturalizado brasileiro Jacques Peter Bischoff.

Até então, a marca jamais havia exportado para fora da Europa. O carro chegou aqui apenas um ano e meio depois de o fundador August Horch fabricar o primeiro automóvel com o nome Audi, na cidade de Zwickau.

A esposa e os filhos de Calainho com o F103 na Suiça, em 1966 - ao lado, a nota fiscal

A esposa e os filhos de Calainho com o F103 na Suiça, em 1966 - ao lado, a nota fiscal

Foto de: Motor1 Brasil

Bischoff tentou tornar-se agente da Audi Automobilwerke, mas não teve êxito. Somente duas décadas mais tarde é que haveria uma iniciativa mais sólida de lançar a marca no Brasil.

Em 1932, foi criada na Alemanha a Auto Union AG, grupo que congregava quatro marcas: DKW, Wanderer, Horch e Audi — daí o logotipo com as quatro argolas, criado pelo barão Klaus-Detlof von Oertzen, presidente do conselho de administração da companhia.

Casado com uma judia, Von Oertzen tratou de escapar das atrocidades nazistas enquanto era tempo. Deixou a Alemanha e veio para o Rio, onde, em 1935, fundou a Auto Union Brasil Ltda.

Mercedes W118 - conceito que antecipou as linhas do Audi F103

Mercedes W118 - conceito que antecipou as linhas do Audi F103

Foto de: Motor1 Brasil

As DKW logo se tornaram as motocicletas mais vendidas no país. Já os carros DKW-Front foram os primeiros a popularizar a tração dianteira no Brasil — com motor transversal de dois cilindros e dois tempos, eram extremamente econômicos, estáveis e compactos. Os Wanderer, por sua vez, fizeram sucesso entre os carros de médio porte, enquanto os Horch tinham seu público entre os milionários. Das quatro marcas, a Audi (que combinava tração dianteira com motores de seis cilindros e quatro tempos) era a menos badalada por aqui nos anos 30.

Quando o país entrou na Segunda Guerra, em 1942, a Auto Union Brasil, por sua origem alemã, foi posta sob intervenção e liquidada. 

O PRIMEIRO AUDI DO PÓS-GUERRA

Terminada a guerra, a Alemanha foi dividida, e as fábricas da Auto Union que ficavam no lado oriental foram estatizadas após a ocupação soviética. No lado ocidental, mais precisamente em Ingolstadt, a única marca do grupo a ter sua produção retomada foi a DKW, em 1950. A Audi, aparentemente, havia sido extinta…

Em 1958, a Daimler-Benz AG comprou a Auto Union. Essa fase, porém, não durou muito, já que, entre 1964 e 1965, foi a vez de a Volkswagenwerk AG assumir o controle acionário do grupo das quatro argolas.

Galeria: Audi A3 Performance Black (2025) e Audi F103 (1966)

Criado ainda sob a égide da Daimler-Benz, o modelo F102 (lançado em 1963) foi o último Auto Union na Alemanha a trazer o nome DKW e o motor de três cilindros e dois tempos, uma tecnologia já então ultrapassada. Não demorou para que o sedã fosse extensamente modificado, passando a adotar um motor de quatro cilindros e quatro tempos, mantendo a tração dianteira. Assim nasceu o F103 — primeiro automóvel a levar a marca Audi no pós-guerra.

Ao estrear na Alemanha, em 9 de setembro de 1965, o novo Audi se chamava simplesmente… Audi, como se pode ler nos para-lamas dianteiros. A denominação F103 era apenas um código interno da fábrica.

Sua grande novidade em relação aos DKW era o motor quatro tempos OHV, de quatro cilindros e 1,7 litro, desenvolvido em Stuttgart pela equipe de Ludwig Kraus, nos tempos em que a Auto Union ainda pertencia à Daimler-Benz.

Audi F103 1966

Audi F103 1966

Foto de: Motor1 Brasil

Originalmente, esse motor era conhecido pelo nome-código Mexiko e teria aplicação militar, podendo queimar diferentes tipos de combustível. O projeto, porém, foi adaptado por Ludwig Kraus — engenheiro com longa carreira na Mercedes que, em 1963, fora alocado na Auto Union como diretor técnico.

Kraus refez o desenho e criou o M118 Mitteldruckmotor — nome que se referia à pressão média efetiva dentro das câmaras de combustão. A taxa de compressão, aliás, era alta para os padrões da época (11,2:1). Para evitar pré-ignição, os engenheiros dedicaram especial atenção ao desenho do cabeçote e dos dutos de admissão, criando uma forte turbulência da mistura ar-combustível. Isso permitia uma queima mais rápida e eficiente e otimizava a saída dos gases de escape. Mesmo assim, foi preciso reduzir a taxa para 9:1 em versões posteriores, devido à baixa octanagem da gasolina comum da época.

Os discos de freio eram montados internamente (inboard), junto à caixa de câmbio. A transmissão era manual, de quatro marchas, com alavanca na coluna de direção. Na dianteira, o Audi tinha suspensão independente por braços triangulares duplos, enquanto na traseira utilizava um eixo de torção.

Audi F103 (1966)  - o motor Mitteldruckmotor

Audi F103 (1966) - o motor Mitteldruckmotor

Foto de: Motor1 Brasil

Por causa do novo motor (instalado na longitudinal e inclinado para a direita), a carroceria herdada do DKW F102 teve sua parte dianteira alongada em 10 cm. Era um desenho simples, moderno e extremamente limpo, sem qualquer adorno supérfluo. As colunas eram fininhas, o que proporcionava uma grande área envidraçada.

Todos esses elementos de estilo vinham de um carro-conceito da Mercedes-Benz: o W118, criado em 1960 e que nunca entrou em produção. A traseira, então, era praticamente idêntica. Sim… o primeiro Audi da era moderna, apesar de fabricado pelo grupo VW, era puro projeto Daimler-Benz. Você duvida? Então repare na posição dos limpadores de para-brisa…

O F103 foi produzido nas versões sedã de duas ou quatro portas, além da Variant. Era um carro de médio porte, com 4,38 m de comprimento e 2,49 m de entre-eixos. Pesava 960 kg. Seu motor teve diversas variações.

Lançado com 1.695 cm³ e 72 cv, ganhou configurações de 80 e 75 cv nos anos seguintes. A aceleração de 0 a 100 km/h ficava na casa dos 14,5 s, e a máxima, em torno de 150 km/h — números muito bons para a época. Houve ainda uma versão mais mansa, de 1.496 cm³ e 60 cv, e outra mais braba, de 1.761 cm³ e 90 cv.

Audi F103 1966 - forro de porta

Audi F103 1966 - forro de porta

Foto de: Motor1 Brasil

De acordo com a versão do motor, o F103 passou a receber denominações próprias: Audi 60, Audi 72, Audi 75, Audi 80 e Audi Super 90. E assim, o primeiro Audi do pós-guerra continuou em produção até 1972, quando foi substituído por um Audi 80 inteiramente novo (geração B1), que daria origem ao nosso primeiro VW Passat.

É importante ressaltar que o novo Audi 80 (B1) trazia um motor inédito — o EA827, também concebido pela equipe do genial Ludwig Kraus. Nas décadas seguintes, esse motor OHC faria história no Brasil e hoje é mais conhecido por sua última denominação: AP (de Alta Performance).

Já o motor Mexiko M118, que originalmente tinha comando no bloco, recebeu um novo cabeçote, foi transformado em OHC e teve a cilindrada aumentada para 2 litros. Rebatizado como EA831, ainda foi usado nos Audi 100 (1976–1982), nos veículos comerciais Volkswagen LT (1975–1982) e até no Porsche 924, em versões aspirada e turbo. 

Audi F103 (1966)  - detalhe do para-lama

Audi F103 (1966) - detalhe do para-lama

Foto de: Motor1 Brasil

UM AUDI F103 NO BRASIL

Ao comprar o Audi F103, meu amigo Raphael encontrou não só a nota fiscal do carro, emitida por uma concessionária de Zurique, na Suíça, em 1966, como também a da companhia de navegação que trouxe o carro para o Brasil, em 1967.

Nas duas constava o nome Luiz Calainho. Procura daqui, procura dali, e foi possível chegar ao Luiz Calainho — não o pai, que era o proprietário do Audi, mas o filho, homônimo, que hoje é um grande empresário na área de cultura e contou como o F103 veio parar aqui. Vamos lá…

Calainho-pai (1923-1999) era piloto da FAB e chegou a fazer treinamento militar nos Estados Unidos, em preparação para a Segunda Guerra Mundial. A guerra, contudo, terminou antes do fim do curso. O jovem passou então à aviação civil, no manche dos Constellation da Panair.

Audi A3 Performance Black (2025) e Audi F103 (1966) no Museu Militar Conde de Linhares

Audi A3 Performance Black (2025) e Audi F103 (1966) no Museu Militar Conde de Linhares

Foto de: Motor1 Brasil

Em 1965, com o Brasil sob regime militar, a Panair foi extinta. Calainho passou a comandante da Swissair, trocando o Rio por Zurique, na Suíça. Levou a esposa e uma filha pequena. E foi por lá que nasceu o outro Luiz Calainho de nossa história.

Não demorou, porém, para que Calainho-pai recebesse uma proposta de voar pela Varig. Em dezembro de 1966, às vésperas de voltar ao Brasil, ele comprou, por US$ 1.400, um Audi sedã duas portas seminovo, na concessionária Holka Auto Union AG. Era um carro do ano, mas já com 10 mil quilômetros rodados.

No mês seguinte, o F103 foi despachado no navio Ablon, de Lisboa para o Rio. Já no Brasil, tornou-se o carro de uso da família Calainho por um bom tempo. Como não havia representação da Audi no país, nem componentes de reposição, o piloto acabou adotando modelos mais práticos para o dia a dia, como Brasilia e Corcel II

— Lembro que, quando eu tinha 8 ou 9 anos, ajudava o meu pai a consertar o Audi. Mas não havia peça, era um périplo para conseguir qualquer coisa. Também lembro que ele só usava gasolina azul — conta Calainho-filho.

Audi F103 (1966) e A3 Performance Black (2025) - frente

Audi F103 (1966) e A3 Performance Black (2025) - frente

Foto de: Motor1 Brasil

Às vezes funcionando, às vezes não, o Audi acabou encostado. Pouco antes de morrer, em 1999, o piloto (já aposentado) chamou o dono de um reboque e deu a ele o carro, em troca do serviço de “desocupar a vaga”. 

Felizmente, o dono do reboque não vendeu o F103 a um ferro-velho, mas sim a um veterano colecionador, que guardou o sedã em um galpão. Foi o herdeiro desse colecionador que vendeu o carro ao Raphael. Agora, é só legalizar (o Audi ainda está com placa amarela), dar um trato em sua mecânica e aparência, pois a raridade ainda está do jeito que foi encontrada.

O que já foi um carro moderníssimo hoje é o Audi mais antigo do Brasil.

MAS E O A3 SEDAN? 

Como o Rods avaliou o A3 Sedan em março e a reportagem já está enorme, deixarei aqui apenas breves impressões.

De cara, gostei do acabamento de microfibra — que parece Alcantara — não só nos bancos, como na faixa central do painel. A posição de guiar, como sempre nos Audi, é excelente, com bancos que abraçam e volante no tamanho certo, de ótima pega (no Performance Black, topo e base são chatos). Há amplos ajustes de distância e altura da coluna de direção.

A3 Performance Black (2025)

A3 Performance Black (2025)

Foto de: Motor1 Brasil

Nas forrações das portas, mais microfibra, com furinhos que permitem a passagem da iluminação ambiente (se você tem crianças, elas vão adorar escolher entre as 30 cores dos LEDs). O teto solar, de bom tamanho, e o forro escuro também impressionam.

Leva um tempo para se acostumar ao seletor de câmbio tipo barrinha, no console. O Park e o freio de estacionamento eletrônico às vezes conflitam, e o carro não andará até você fazer tudo na ordem correta. Em compensação, funções como o ar-condicionado têm botões físicos de acionamento bem intuitivo. E, mesmo sendo todo digital, o quadro de instrumentos pode ser configurado no estilo clássico da linha Audi, sem poluição visual e de ótima leitura.

Apesar do jeitão esportivo, o A3 Sedan Performance Black (R$ 363.490) é um carro bem silencioso e fácil de usar na cidade. Só não é mais confortável por causa dos pneus de perfil baixíssimo (235/35 R19). O entre-eixos de 2,63 m e o caimento do teto também cobram seu preço de quem viaja no banco de trás.

Audi A3 Performance Black (2025) - interior

Audi A3 Performance Black (2025) - interior

Foto de: Motor1 Brasil

O que você pensa sobre isso?

Desde a versão de entrada, Advanced (R$ 290 mil), o motor é o EA888 na configuração 2.0 turbo, com 204 cv e 32,6 kgfm. Vai acoplado à caixa automatizada S-Tronic de sete marchas. Embora as respostas do câmbio no modo manual sejam um pouco lentas, mesmo no ajuste mais esportivo, o A3 é, no geral, um carro ágil, preciso e muito prazeroso de dirigir. Sem qualquer tipo de eletrificação (o modelo deixou de ser híbrido leve), este A3 já transmite um feeling clássico. “Que bom que sedãs assim ainda existem!”, dirá um nostálgico.

Mas aí lembramos do VW Jetta GLI 350 TSI (que receberá um facelift no mês que vem): custa R$ 251 mil e também traz o EA888, mas com 231 cv e 35,7 kgfm. Além disso, o “primo pobre” tem 4,4 cm a mais de entre-eixos e porta-malas maior. Só perde em status e no apelo visual.

Envie seu flagra! flagra@motor1.com