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Fuscas anfíbios: os besouros que encontraram seu habitat dentro d’água

VW com hélice navegou no lago do Ibirapuera e na Lagoa Rodrigo de Freitas

VW 1200 navega pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (1961)
Foto de: Jason Vogel

É Dia Internacional do Fusca (22 de junho), e lá vamos nós atrás de façanhas inusitadas do besouro. Hoje todos sabemos o quanto o modelo é valente ao atravessar trechos alagados. Mas, em 1960, engenheiros da fábrica e um pioneiro do jornalismo automotivo provaram na prática essa capacidade do carro.

Tarde de domingo, rampa de barcos do Clube Caiçaras, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Com o característico assobio de seu motor, o VW 1200 abriu alas entre os curiosos e, lentamente, mergulhou na Lagoa Rodrigo de Freitas. Ao volante estava Mauro Salles (1932–2023), então redator automobilístico do jornal O Globo — anos mais tarde, ele se tornaria um dos maiores publicitários do país.

História Automotiva - Fuscas anfíbios

O carrinho anfíbio fora preparado pelo Departamento de Testes da Volkswagen do Brasil. A princípio, o objetivo dos engenheiros era apenas estudar a vedação do Fusca, mas, na falta de uma atração mais exótica, a curiosa cobaia acabou exposta no I Salão do Automóvel de São Paulo, inaugurado em 25 de novembro de 1960, no Pavilhão de Exposições do Parque Ibirapuera.

Além de ser exibido no estande, em terra firme, o Volks foi posto para navegar placidamente no lago do Ibirapuera, a velocidades entre 15 e 20 km/h — ou seja, cerca de 8 a 11 nós. Foi uma sensação: o Fusquinha flutuante atraiu todos os olhares do público e virou notícia nos principais jornais e revistas. Se a ideia era se destacar no I Salão, deu certo!

VW 1200 navega pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (1961)

VW 1200 navega pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (1961)

Foto de: Jason Vogel

Hélice e vedação

Parecia um VW 1200 como qualquer outro, não fosse o pequeno hélice na traseira e os canos de escape voltados para cima, ladeando a vigia traseira. O hélice (assim mesmo, no masculino, pois se trata de uma aplicação náutica) era instalado em um eixo com rolamentos, montado sobre o para-choque. Era acionado pelo virabrequim por meio de um acoplamento simples, numa grande polia.

O motor foi blindado numa caixa metálica e as vedações das portas foram aperfeiçoadas com tiras extras de borracha. Por segurança, adaptou-se uma bomba para escoar a água que porventura entrasse no compartimento do motor ou na cabine. A característica plataforma do Fusca, toda fechada por baixo, não sofreu qualquer alteração. Também não foram usados flutuadores. O volante era o timão, e as rodas dianteiras faziam as vezes de leme.

"O carro não tem objetivos comerciais e não se fabrica em série", ressaltaram os textos publicados na época.

VW 1200 navega pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (1967)

VW 1200 navega pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio (1967)

Foto de: Jason Vogel

Teste diferente

Muito original em tudo o que fazia, Salles tratou de convencer Ehrhardt Schmidt (chefe do Departamento de Testes da VW e principal executor do projeto) a viajar de São Paulo ao Rio de Janeiro para que o besouro fosse testado na Lagoa Rodrigo de Freitas. O Fusquinha fez o trajeto entre as duas cidades rodando normalmente pela Dutra.

Salles, o precursor dos testes de carros no Brasil, assumiu o volante, entrou na água e cumpriu sua missão jornalística. Na edição de O Globo de 15 de dezembro de 1960, ele fez um relatório completo da experiência:

Salão de 1960 - o VW anfíbio no lago do Ibirapuera

Salão de 1960 - o VW anfíbio no lago do Ibirapuera

Foto de: Jason Vogel

"O carro flutua bem, com dois passageiros e até três, com a linha d'água na base dos faróis dianteiros e na curva inferior dos para-lamas traseiros. O carrinho navegou com naturalidade como se fosse um barco carregado. Mantive uma leve aceleração, e a velocidade desenvolvida era de uns 10 km/h. As rodas dianteiras agiram como leme, e foi possível manobrar em curvas de pequeno diâmetro. (...) Dirigi o tempo todo de sapatos e meias, e só os molhei quando, ao descer do sedan, pisei em uma poça de chuva."

O carro fez várias evoluções na Lagoa e "varou as marolas de uma lancha com mais conforto do que superaria qualquer buraco nas ruas do Rio". Para gerar suspense, Salles (que não havia levado os remos de segurança) desligou e religou o motor duas vezes dentro d’água. Deu tudo certo!

"Seria preferível o naufrágio do que a desmoralização de um redator automobilístico que voltasse remando", concluiu o jornalista.

VW Typ Schwimmwagen Typ 166 - o carro anfíbio mais produzido em todos os tempos (1) (2)

VW Typ Schwimmwagen Typ 166 - o carro anfíbio mais produzido em todos os tempos 

Foto de: Jason Vogel

Outros besouros d’água

Desde suas origens, o Fusca mostrou sua vocação aquática. Criado para uso militar na Segunda Guerra Mundial, o VW Typ 166 Schwimmwagen é, até hoje, o carro anfíbio mais produzido de todos os tempos, com 15.584 exemplares fabricados entre 1942 e 1944.

Com a popularização do besourinho nos anos 60, alguns aventureiros fizeram conversões náuticas por conta própria. Na Fundação AutoMuseum Volkswagen (Stiftung AutoMuseum Volkswagen), em Wolfsburg, Alemanha, há um VW 1200 que cruzou o Estreito de Messina, entre o continente italiano e a Sicília, em 1964.

Fusca anfíbio atravessa o Estreito de Messina (1964)

Fusca anfíbio atravessa o Estreito de Messina (1964)

Foto de: Jason Vogel

O exemplar é bem original, apenas com um hélice na traseira, canos de escape levados até a altura do teto, vedações reforçadas e tomada de ar para o carburador dentro da cabine. Após apenas 38 minutos, o carro conseguiu alcançar a maior ilha do Mediterrâneo — foi cerca de 2 minutos mais rápido que a balsa comum, que fazia um percurso maior. Em 1984, este mesmo VW repetiu a proeza aquática, navegando pelos 5 km entre Cannitello (na ponta da “bota”) e Ganzirri (na Sicília).

No Brasil, uma propaganda em 1963 dizia: “Carro anfíbio? Não. Simplesmente um Volkswagen de série. Enquanto outros naufragam, o VW ancora em terra firme. E seus filhos podem até brincar de pirata. ‘Papai é o capitão!’ Por baixo, o Volkswagen é feito mais como um barco que como um automóvel. Ele é completamente fechado por uma sólida chapa de aço. As partes do Volkswagen se ajustam tão perfeitamente entre si que o carro pode ser considerado hermético.”

Nos Estados Unidos, a Volkswagen chegou a fazer, em 1972, um comercial de TV em que atirava um Fusca dentro de um lago para mostrar o quanto o carro era bem vedado em sua parte inferior.

E Herbie, o VW mais famoso do cinema, fez até surfe, em As Novas Aventuras do Fusca (Herbie Rides Again, 1974):

Em termos de Fusca anfíbio, contudo, nenhum foi mais elaborado que o Sea-Bug, montado pelo australiano Paul Greene na década de 80. O carro foi radicalmente modificado, com carroceria refeita em fibra de vidro, flutuadores laterais auxiliares, frente em forma de proa e um motor de popa adicional (além do boxer original, que teve cilindrada aumentada para 2,1 litros).

Greene tentou cruzar os 240 km do Estreito de Bass, da Austrália até a Tasmânia, em pelo menos duas ocasiões. Numa das tentativas, conseguiu avançar cerca de 15 milhas náuticas (28 quilômetros) antes de encalhar num banco de areia. Em outra, avançou 160 km, mas precisou abortar por causa de um tufão. Os vídeos com o Fusca no mar mexido, navegando em meio a grandes ondas, são assustadores. Fato é que o Sea-Bug não naufragou. Tanto que, recentemente, esteve à venda.

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