Hyundai i20: o hatch compacto que ajudou a Hyundai a conquistar o mundo
Após 18 anos de produção na Índia e na Turquia, modelo enfim chega ao Brasil
O Hyundai i20 estreia no Brasil com sabor de novidade. Lá fora, porém, essa é uma linha bem conhecida desde seu lançamento, em 2008. Ao longo de três gerações, o modelo ajudou a Hyundai a se transformar em uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo. Seu papel foi tão importante quanto o dos Tucson, Elantra e Santa Fe. Agora chegou nossa vez de fazer parte dessa história.
Pensado para substituir o carrinho popular Getz (2002–2011), o i20 representou uma mudança profunda na forma como a sul-coreana desenvolvia seus compactos. Nos últimos 18 anos, o modelo ajudou a consolidar a reputação técnica da companhia e serviu de base para o retorno da marca ao Campeonato Mundial de Rali (WRC).
O i20 nunca foi um campeão global de volume, mas tornou-se um dos modelos mais importantes da Hyundai. Desenvolvido para mercados que valorizam hatches compactos premium, hoje vende cerca de 50 mil a 60 mil unidades por ano apenas na Índia e também tem presença significativa na Europa, África do Sul e América Latina.
Coreano com alma alemã
No início dos anos 2000, a Hyundai já estava deixando para trás a imagem de fabricante de carros baratinhos, com design genérico e qualidade mediana. Ainda faltava, porém, atrair os clientes europeus acostumados a comprar VW Polo, Ford Fiesta, Opel Corsa, Peugeot 206 e Renault Clio.
Como o Getz não conseguia fazer frente a esses rivais, a marca decidiu projetar um novo hatch especificamente para o Velho Continente. O resultado foi o primeiro i20 (nome-código PB), que ocuparia um degrau acima do subcompacto urbano i10.
Criado sobre uma nova plataforma global Hyundai-Kia, com forte participação do centro técnico europeu, em Rüsselsheim (a mesma cidade da Opel, na Alemanha), o novo modelo tinha como missão provar que a marca sul-coreana já era capaz de competir de igual para igual no segmento B europeu.
O salto em relação ao Getz era evidente. O i20 oferecia melhor aproveitamento interno, acabamento mais refinado, maior qualidade percebida e uma ampla gama de motores. Produzido inicialmente em Chennai, na Índia, e posteriormente também em Izmit, na Turquia, para abastecer a Europa, o i20 rapidamente assumiu um papel central na ofensiva global da Hyundai.
O reconhecimento não demorou a chegar: em 2009, o hatch recebeu cinco estrelas nos testes do Euro NCAP, um resultado de enorme importância para a reputação de uma fabricante que ainda lutava contra preconceitos.
O primeiro i20 também serviu como vitrine para a transformação estética da marca, especialmente após o facelift de 2012, quando passou a se alinhar visualmente aos irmãos maiores i30 (de segunda geração) e i40.
O desenho mais fluido e sofisticado ajudou a aproximar o hatch dos padrões europeus e antecipou o caminho que seria seguido por praticamente toda a gama da Hyundai nos anos seguintes. Esse “i” no nome dos modelos vinha de “Inspiração, Inovação, Inteligência e Integridade”, que formavam a base da nova filosofia da marca.
Renovação total
A segunda geração (GB), apresentada em 2014, representou um novo salto evolutivo para o i20, com uma cabine mais sofisticada e maior foco na qualidade percebida. Novamente, sua base foi desenvolvida na Alemanha. O estilo seguia a filosofia "Fluidic Sculpture 2.0", com linhas mais elegantes assinadas pelo australiano de ascendência sul-coreana Casey Hyun — que já havia desenhado o primeiro HB20 brasileiro, lançado em 2012.
Foi justamente nessa época que os caminhos do i20 e do HB20 passaram a se cruzar. Os dois foram concebidos para desempenhar papéis semelhantes em mercados diferentes: enquanto o i20 era calibrado para atender às exigências europeias de dinâmica, segurança e refinamento, o HB20 priorizava robustez, custos de produção e adaptação às condições latino-americanas.
Seguiam caminhos técnicos distintos. O i20 de segunda geração adotou a nova plataforma Hyundai-Kia GB, desenvolvida para atender às rigorosas exigências estruturais e dinâmicas da Europa. Eram 2,57 m de entre-eixos.
Já o HB20 manteve uma evolução da arquitetura Hyundai-Kia PB, compartilhada com o primeiro i20 e outros compactos do grupo (como o Veloster e os Kia Rio e Soul), mas adaptada às necessidades do mercado brasileiro. Tinha 2,50 m de entre-eixos.
Alguns motores, contudo, foram compartilhados entre as duas famílias, como o veterano Gamma 1.6 e versões da família Kappa 1.0 de três cilindros (tanto o aspirado quanto o posterior Turbo TGDI), variando apenas as calibrações e a tecnologia flex desenvolvida para o Brasil.
Fenômeno na Índia
Enquanto o novo i20 para o mercado europeu era fabricado na Turquia, a Índia tinha sua própria versão do compacto, feita em Chennai: era o Elite i20 (código IB). Como no HB20 brasileiro, o modelo indiano era produzido sobre uma versão modificada da plataforma PB da geração anterior, para manter os custos de produção sob controle.
Para se enquadrar na faixa tributária indiana destinada a veículos com menos de 4 metros de comprimento, o Elite i20 teve seu comprimento reduzido para 3.985 mm. A versão europeia não estava sujeita a essa restrição e media 4.035 mm. Esses 50 mm extras permitiam ao modelo europeu oferecer um porta-malas significativamente maior: 326 litros, contra 285 litros da versão indiana.
Como o modelo europeu era mais longo, suas portas traseiras também eram maiores, e a área do vidro lateral traseiro tinha desenho diferente em relação à versão indiana.
Desde o lançamento, em 2014, a versão europeia trazia faróis com projetores e luzes diurnas integradas, além de lanternas traseiras em LED. Já o Elite i20 indiano estreou sem esses elementos de iluminação mais sofisticados, recorrendo a conjuntos halógenos mais simples nas versões de entrada. Os faróis com projetores só passaram a ser oferecidos posteriormente nas configurações mais caras.
O modelo europeu também recebeu teto solar panorâmico, equipamento que jamais foi oferecido na segunda geração vendida na Índia.
A maior parte das versões europeias oferecia controle eletrônico de estabilidade, seis airbags e, mais tarde, assistentes de condução. Já o indiano limitava-se a airbags frontais nas versões comuns (seis airbags eram exclusivos da topo de linha) e não havia ADAS.
Mesmo assim, o Elite i20 caiu rapidamente no gosto dos indianos e ajudou a Hyundai a se firmar como uma das principais fabricantes do país. Hoje, a marca está entre as quatro maiores do mercado local, ao lado de Maruti, Tata e Mahindra.
Hyundai i20 WRC (PB) _2014–16
Campeão do WRC
Em 2012, a Hyundai anunciou que retornaria ao Campeonato Mundial de Rali (WRC) após uma década de ausência. O carro escolhido para essa missão foi justamente o i20.
A estreia aconteceu em 2014, marcando também o início de uma nova era para a divisão Hyundai Motorsport, instalada em Frankfurt. O programa cresceu rapidamente e transformou a fabricante em uma das protagonistas da categoria.
A evolução culminou no título mundial de construtores conquistado em 2019 pelo i20 Coupe WRC, resultado que consolidou a Hyundai na elite do rali internacional.
O sucesso nas competições teve reflexos diretos nos carros de rua. A divisão esportiva N, criada para rivalizar com nomes como Volkswagen GTI, Clio RS e Ford ST, utilizou o i20 como uma de suas principais vitrines.
De marca genérica a objeto de culto
A terceira geração (BC3), apresentada em 2020, marcou outra mudança importante. O hatch cresceu e ficou mais sofisticado tecnologicamente, graças ao uso da nova plataforma K2 do grupo Hyundai-Kia.
Com essa base, o carro ficou 41 mm mais largo e 24 mm mais baixo, reduzindo o centro de gravidade. O entre-eixos cresceu discretamente (10 mm), mas o rearranjo interno ampliou o porta-malas em 26 litros, chegando a 352 L. O assoalho traseiro da K2 foi projetado desde o início para acomodar a bateria do sistema híbrido leve de 48 V, sem roubar espaço da cabine ou da bagagem.
Com o departamento de estilo já sob o comando de SangYup Lee, a carroceria trouxe a nova identidade visual "Sensuous Sportiness" (Esportividade Sensual).
Hyundai i20 N (BC3) _2020–02.2024
Mas foi a chegada do i20 N que transformou o modelo em objeto de desejo entre entusiastas. Com motor 1.6 turbo de 204 cv, câmbio manual de seis marchas, diferencial autoblocante mecânico e suspensão profundamente retrabalhada, o compacto tornou-se um dos esportivos mais elogiados de sua geração. Com apenas 1.190 kg, acelerava de 0 a 100 km/h em 6,2 segundos e alcançava 230 km/h.
A imprensa especializada frequentemente o comparou a lendas do segmento, como o Peugeot 205 GTI. Em um mercado cada vez mais dominado por SUVs e eletrificação, o i20 N surgiu como uma espécie de homenagem aos antigos hot hatches europeus.
Galeria: Hyundai lança o novo i20 2027 no Brasil (fotos oficiais)
A vez do Brasil
Para o nosso mercado, a Hyundai uniu os mundos. A engenharia da filial brasileira desenvolveu o projeto do i20 nacional trabalhando em paralelo com os centros de desenvolvimento da Índia e da Europa.
A versão fabricada em Piracicaba (SP) não é o hatch purista europeu nem o modelo curto indiano. A plataforma de terceira geração (superior à do HB20 atual) dá ao mercado nacional um produto de arquitetura global, mas moldado sob medida ao gosto daqui: robusto na suspensão como o indiano, espaçoso e tecnológico como o europeu, e com o visual "altinho" hoje tão valorizado pelos brasileiros.
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