Ir para o conteúdo principal

Chrysler, 100 anos: um longo caminho de inovação, ousadia e crises

Os ícones da marca que já foi uma das “Três Grandes” e hoje é parte da Stellantis

Chrysler 300C SRT8
Foto de: Jason Vogel
Jason Vogel Jason Vogel

A história da Chrysler começa com a visão de um engenheiro determinado a mudar o rumo da indústria automobilística norte-americana. Antes de fundar sua própria marca, Walter P. Chrysler fez carreira no setor ferroviário, foi alto executivo na Buick e na Willys e, em 1921, assumiu o controle da Maxwell Motor Company, então em dificuldades financeiras. Para reverter a situação, convocou três brilhantes engenheiros egressos da Studebaker — Fred Zeder, Owen Skelton e Carl Breer — que ficaram conhecidos como “Os Três Mosqueteiros”.

O plano era ousado: criar um automóvel moderno, seguro, veloz e acessível ao consumidor médio — algo raro num mercado onde luxo e inovação eram reservados aos super-ricos. O resultado desse esforço foi o Chrysler Six de 1924, que estreou com freios hidráulicos nas quatro rodas, motor de seis cilindros e soluções técnicas inéditas entre carros de grande série.

Os 100 anos da Chrysler

Com o sucesso do modelo, a Maxwell foi extinta e uma nova companhia nasceu em 6 de junho de 1925: a Chrysler Corporation, sediada em Highland Park, cidade-satélite de Detroit. Essa história completa agora cem anos.

Antes mesmo da fundação oficial, os primeiros Chrysler Six já eram vendidos no Brasil. No Rio, as vendas começaram em janeiro de 1925 pela firma Adolpho Schmidt & C. (em agosto daquele ano, a marca recebeu medalha de ouro na I Exposição de Automobilismo, importante salão realizado na cidade). Em São Paulo, a distribuição ficou a cargo da Malta & Cia. Ltda. Pouco depois, porém, a comercialização nas duas praças passaria para a Auto Mercantil e a Companhia Nacional de Automóveis, respectivamente.

Transição - em 1925, anúncios do novo Chrysler e do velho Maxwell na mesma página

Em 1925, anúncios do novo Chrysler e do velho Maxwell na mesma página

Foto de: Jason Vogel

A Chrysler Corporation cresceu rápido e se tornou o terceiro maior grupo automotivo dos EUA, ao lado de Ford e General Motors. Em 1928, de uma só vez, incorporou as marcas Dodge e Fargo e criou as divisões Plymouth e DeSoto. Investiu em inovações de engenharia e design que ajudaram a definir o padrão dos carros americanos por décadas. No pós-guerra, brilhou com os motores Hemi, sedãs de luxo e propostas técnicas ousadas, como o revolucionário Turbine Car.

Entre meados dos anos 1940 e o início dos 1950, a Chrysler chegou a ter duas grandes linhas de montagem de CKDs no Brasil: em São Bernardo do Campo (com a Brasmotor) e no Rio (com a Cipan). A companhia, porém, perdeu o bonde da implantação da indústria automobilística brasileira.

Chrysler New Yorker no Rio, em 1947

Chrysler New Yorker no Rio, em 1947

Foto de: Jason Vogel

Só em 1967, ao comprar a Simca, passou a fabricar carros localmente: os Esplanada, Regente e GTX (todos de projeto original Simca). Eram soluções provisórias até a chegada dos Dodge nacionais, produzidos em São Bernardo do Campo entre 1969 e 1981. Depois, o grupo voltou entre 1998 e 2001 com a picape Dodge Dakota feita em Campo Largo (PR).

Nenhum desses carros nacionais, porém, foi vendido com a marca Chrysler. Nas propagandas, os modelos herdados da Simca eram chamados apenas de Esplanada, Regente e GTX, com uma discreta plaquinha onde se lia "produzido pela Chrysler do Brasil". Já os Dart, Magnum, 1800, Polara e Dakota saíam sob a divisão Dodge.

Chrysler Le Baron sedan - K-Car dos anos 80

Chrysler Le Baron sedan - K-Car dos anos 80

Foto de: Jason Vogel

A trajetória internacional do grupo também foi marcada por crises. A primeira grande ameaça veio nos anos 1970, com a crise do petróleo e o avanço das marcas japonesas; a empresa foi salva por garantias do governo e pela liderança do carismático CEO Lee Iacocca.

Nos anos 1980, o modesto K-Car e a criação da minivan deram novo fôlego à marca. Em 1998, novas dificuldades forçaram a fusão com a alemã Daimler-Benz, parceria conturbada e malsucedida. Depois, a Chrysler entrou em concordata e foi absorvida pelo grupo Fiat, formando a FCA (sigla de Fiat Chrysler Automobiles). Desde 2021, integra o conglomerado Stellantis, controlado por europeus.

Chrysler PT Cruiser  (2000)

Chrysler PT Cruiser, um dos frutos da Daimler-Chrysler

Foto de: Jason Vogel

Hoje, a Chrysler é uma sombra do império que já foi. Das divisões do antigo grupo restam Jeep, Ram, Dodge e a própria Chrysler — que sobrevive por aparelhos, com apenas as minivans Pacifica e Voyager (ambas fabricadas em Windsor, Canadá) no portfólio. Em todo o ano passado, foram vendidas apenas 124.683 unidades.

Recentemente, Frank B. Rhodes Jr., bisneto de Walter P. Chrysler, defendeu publicamente a preservação das marcas Chrysler e Dodge. Disse estar em busca de investidores para tentar readquirir essas divisões da Stellantis, propondo o que chamou de "uma saída honrosa e lucrativa".

Chrysler Pacifica, o último modelo da marca

Chrysler Pacifica, o último modelo da marca

Foto de: Jason Vogel

A própria Stellantis alimenta esperanças para a Chrysler, que — após sete anos sem investimentos — ganhou um novo estúdio de design independente das outras marcas do grupo. Há também uma equipe de marketing dedicada. Foi anunciado ainda que a centenária empresa terá um novo sedã baseado no belo conceito Halcyon.

Enquanto o futuro não chega, relembramos aqui os carros mais importantes da agora centenária marca Chrysler.

Chrysler Six B-70 - o primeiro modelo deu nome à nova marca (1924-1925)

Chrysler Six B-70 - o primeiro modelo deu nome à nova marca (1924-1925)

Foto de: Jason Vogel

Chrysler Six (1924)

A primeira linha de modelos Chrysler inovou o mercado ao oferecer freios hidráulicos de série nas quatro rodas, solução rara na época, quando a maioria dos carros usava acionamento a varão (e, muitas vezes, só tinha freios nas rodas traseiras). O motor de seis cilindros em linha com válvulas laterais (cabeça chata) tornou-se uma marca registrada da Chrysler, evoluindo de 3,3 litros e 68 cv para versões maiores e mais potentes até a década de 1950.

O primeiro modelo foi o B-70, cujo nome remetia à velocidade máxima de 70 milhas por hora (112 km/h). Com boa relação custo-benefício, o Chrysler Six oferecia tecnologia e acabamento superiores aos dos rivais intermediários, garantindo sucesso imediato com mais de 32 mil unidades vendidas no primeiro ano.

O B-70 também brilhou nas pistas, completando as 24 Horas de Le Mans de 1925 com pilotos franceses — façanha repetida por outros Chrysler em 1928 e 1929. Além disso, uma versão mais aliviada e aerodinâmica alcançou 160 km/h em Brooklands, nas mãos de Sir Malcolm Campbell. O sucesso internacional do modelo abriu caminho para a fundação oficial da Chrysler Corporation e o surgimento das séries 60, 70 e 80, que marcaram os primeiros anos da fabricante.

Chrysler Airflow 1934

Chrysler Airflow 1934

Foto de: Jason Vogel

Chrysler Airflow (1934)

O Chrysler Airflow foi um carro revolucionário para sua época, sendo o primeiro modelo norte-americano desenvolvido com extensivos testes em túnel de vento, o que resultou em uma carroceria de formato aerodinâmico. Concebido pelos engenheiros Breer, Zeder e Skelton, com consultoria do pioneiro da aviação Orville Wright, o Airflow também inovou ao adotar estrutura monobloco no lugar do tradicional chassi separado da carroceria. Seu design futurista incluía faróis embutidos, grade curva e detalhes art-déco.

Apesar das inovações, o visual avançado assustou o público conservador da época, e o modelo fracassou nas vendas, saindo de linha em 1937 após a produção de apenas 29.600 unidades. O desenho do Airflow, porém, foi um marco no design, influenciando o formato mais arredondado dos concorrentes dos anos seguintes — prova de que seu único erro foi ter chegado antes do tempo.

Chrysler Windsor Sedan (1948)

Chrysler Windsor Sedan (1948)

Foto de: Jason Vogel

Chrysler Windsor (1939)

Lançado em 1939 como versão do Royal, o Chrysler Windsor logo se firmou como modelo próprio, posicionado entre os básicos e os luxuosos da marca, com bom custo-benefício. Após a Segunda Guerra, voltou renovado em 1946, com porte e estilo próximos ao do New Yorker, mas com motor seis-cilindros mais econômico que o oito-em-linha, câmbio semiautomático Presto-Matic e direção hidráulica opcional.

Oferecia ampla variedade de carrocerias, de sedãs a conversíveis e versões de oito lugares. Os Windsor dessa (1946-1948) fase eram uma visão comum no Brasil. Em 1955, o modelo adotou motor V8 e continuou em produção nos EUA até 1961 (no Canadá até 1966), sendo lembrado como uma opção elegante e durável de luxo acessível.

Chrysler New Yorker 1939

Chrysler New Yorker 1939

Foto de: Jason Vogel

Chrysler New Yorker (1939)

O New Yorker, lançado em 1939 e produzido até 1996, foi o modelo mais duradouro da Chrysler. Em luxo, rivalizava com os Buick, da GM. Entre suas gerações mais marcantes está a “Forward Look” (1957-1959), que trouxe o icônico design com rabo de peixe e motor Hemi V8 de 6,4 litros e 329 cv, além do câmbio automático TorqueFlite com seletor por botões.

Apesar de problemas crônicos de corrosão, esses carros são cultuados até hoje. O modelo cresceu até 5,91 m de comprimento nos anos 70. Com a crise do petróleo, foi reduzido a 4,75 m, ganhando motor quatro cilindros transversal e tração dianteira na geração de 1983. Nos anos 90, perdeu prestígio, mas manteve seu legado como símbolo da sofisticação da Chrysler.

Chrysler 300 1955 (cor)

Chrysler 300 1955 

Foto de: Jason Vogel

Chrysler 300 (1955)

O Chrysler 300 de 1955 ficou famoso pelo motor Hemi V8 de 300 cv (daí seu nome). Era o carro de produção em série mais potente dos EUA naquele ano. Também conquistou destaque nas pistas da NASCAR. Entre 1956 e 1965, a Chrysler lançou várias versões de alto desempenho identificadas por letras, da 300B até a 300L, conhecidas como “Letter Cars”. Essas versões aprimoraram o conceito de esportividade com luxo, com potências que ultrapassaram 355 cv já em 1956.

O modelo saiu inicialmente apenas na carroceria cupê sem coluna, e depois ganhou versão conversível. O design marcante foi criado por Virgil Exner, trazido da Studebaker a peso de ouro. Esses carros são vistos como precursores dos muscle cars e hoje são cultuados por colecionadores e fãs dos clássicos norte-americanos.

Chrysler Imperial (1928)

Chrysler Imperial 1928

Foto de: Jason Vogel

Chrysler Imperial (1926)

Topo de linha da Chrysler, o modelo Imperial surgiu em 1926 e tornou-se divisão independente entre 1955 e 1975. Seus rivais diretos eram Cadillac e Lincoln. Foi sinônimo de luxo, status e exclusividade por décadas.

Destacou-se por versões como limusines e conversíveis personalizados por encarroçadoras como LeBaron e Fleetwood. O nome retornou brevemente entre 1990 e 1993 em um sedã de tração dianteira e, em 1996, em um carro-conceito imponente, sempre simbolizando o máximo em tecnologia e prestígio da marca. 

Chrysler Turbine no museu (1963)
Foto de: Jason Vogel

Chrysler Turbine (1963)

Houve um tempo em que fabricantes de automóveis, inspirados pela engenharia aeronáutica, exploraram o uso de motores a turbina em vez dos tradicionais motores a pistão. A Chrysler foi uma das pioneiras nessa área, desenvolvendo diversos protótipos desde 1954. O ápice desse esforço foi o Chrysler Turbine de 1963, equipado com um motor a turbina a gás A-831 capaz de funcionar com vários combustíveis, como diesel, gasolina sem chumbo, querosene e o combustível aeronáutico JP-4. O carro, com carroceria exclusiva da italiana Ghia e pintura “turbine bronze”, teve apenas 55 unidades produzidas, usadas em testes públicos até 1966.

Apesar da inovação, o projeto enfrentou problemas como alto custo de produção, consumo elevado, ruídos, emissões e a resposta lenta do acelerador (“turbine lag”), que levaram ao seu encerramento. Dos 55 carros feitos, 46 foram escrapeados pela Chrysler, restando apenas nove exemplares em museus e coleções.

Chrysler K-Cars dos anos 80

Chrysler K-Cars dos anos 80

Foto de: Jason Vogel

Chrysler K-Cars (1981)

Nos anos 1970, a Chrysler enfrentou uma grave crise financeira, agravada pelo aumento do preço do petróleo e pela linha de carros grandes e pouco eficientes. Para reverter esse quadro, Lee Iacocca liderou o desenvolvimento da plataforma K, que trouxe modelos compactos, econômicos e de tração dianteira, alguns equipados com motor Mitsubishi.

Para evitar a falência da empresa, o governo dos EUA ajudou a financiar o projeto. Lançados em 1981 com o Dodge Aries, o Plymouth Reliant e o Chrysler LeBaron, esses veículos conquistaram o público norte-americano, dando origem a cerca de 50 derivados, incluindo a pioneira minivan Dodge Caravan. O sucesso dos K-Cars garantiu a recuperação e lucratividade da Chrysler durante os anos 1980, sustentando a empresa por mais de uma década.

Chrysler Town e Country Minivan (1990)

Chrysler Town e Country Minivan 1990

Foto de: Jason Vogel

Chrysler Town & Country minivan (1990)

Após a grave crise financeira do final dos anos 1970, que quase levou o grupo Chrysler à falência, as minivans surgiram como um produto inovador e sem concorrência, abrindo um segmento altamente lucrativo. Em 1990, a marca Chrysler lançou a Town & Country, versão de luxo derivada das Dodge Caravan e Plymouth Voyager — pioneiras do conceito moderno de minivan, criado em 1983 a partir da plataforma dos compactos K-Cars.

Com motor V6, câmbio automático e tração dianteira, a Town & Country combinava dirigibilidade de automóvel e versatilidade, destacando-se pelas portas de correr, bancos dobráveis e muito plástico imitando madeira. Teve cinco gerações até ser substituída pela Pacifica em 2016.

Chrysler PT Cruiser (2000)

Chrysler PT Cruiser 2000

Foto de: Jason Vogel

Chrysler PT Cruiser (2000)

Lançado em 2001 na esteira da moda dos carros retrô iniciada pelo VW New Beetle, o Chrysler PT Cruiser chamou atenção com seu visual inspirado nos modelos dos anos 1930, lembrando vagamente o Airflow.

Originalmente planejado para a marca Plymouth, acabou saindo como Chrysler, mas sob a carroceria ousada escondia a base do modesto Dodge Neon, com desempenho limitado, suspensão mole demais e câmbio automático de apenas três marchas. Produzido no México e na Áustria, foi oferecido nas versões hatch e conversível, totalizando 1,35 milhão de unidades até 2010.

Chrysler 300C (2007)

Chrysler 300C 2007

Foto de: Jason Vogel
O que você pensa sobre isso?

Chrysler 300C (2005)

Lançado em 2005, o Chrysler 300C marcou a era DaimlerChrysler ao resgatar o luxo dos sedãs americanos, com tração traseira, usando componentes dos Mercedes-Benz Classe E, como suspensão, câmbio e, em alguns mercados, o motor V6 3.0. Com design imponente assinado por Ralph Gilles, destacou-se pelas versões com V8 Hemi, além da SRT8 de 425 cv.

Teve sucesso imediato, com 144 mil unidades vendidas no primeiro ano, e continuou em produção até 2023, incluindo uma segunda geração e versões europeias como o Lancia Thema. No Brasil, foi o último Chrysler à venda (2005 a 2016) e ainda é muito usado como carro de levar noivas.

Compartilhe este artigo
Envie seu flagra! flagra@motor1.com